The One

 

isso não é um livro, é uma conversa, um desabafo, uma blasfêmia, um grito, um despejar de palavras sem fôlego, um vômito da minha odisseia particular, mas não um livro. veja as prateleiras, temos livros demais, pra que mais um? por isso não escrevi um livro. sentei neste sofá da sala, é uma tranquila manhã de segunda feira. o sol deu uma rápida esquentada no lençol da cama, e as nuvens o cobriram e por onde olhava via um borrão cinza sem graça. sem graça para uns, eu mesmo gostava daquela nulidade de cor. não era o admirável azul que parece ser macio de tão azul, como um oceano no céu, estendido por toda a face do teto do mundo, não, não era esse azul. nem era o laranja que ilumina o céu no começo do fim da tarde como os postes de luz de Diadema a noite, um laranja que contorna o amarelo queima retina do Sol. fica aquele contraste que só seria tão bonito assim num quadro, uma obra prima gratuita, porém esquecida. paisagem, a fria paisagem do céu cinzento que dá aquela sensação de dia calmo, opaco, introspectivo, com a cabeça encostada na janela do passageiro só deixando estar, e as coisas lá fora vindo e sumindo no canto da visão, e novas coisas aparecendo sem ter fim, por quanto tempo você rodar terá novos e novos caminhos e o céu continua cinza, te neutralizando de tudo aquilo, o dia pode terminar, eu só quero ficar aqui sem fazer nada. esse é o céu cinza em algumas segundas feiras, como esta, neste sofá.

pensar em escrever é mais fácil do que escrever. pensei em escrever desde que comecei a escrever, nesse período as minhas iniciativas em ir e colocar alguma coisa escrita aqui era um processo de ansiedade. vinha, vomitava, publicava, passava para o próximo, e bom, o que eu estava escrevendo? não sei. saía, como saí agora e sempre será. mas a questão é, como está vindo? o questionamento constante nos faz permanecer procurando o mais correto, e não que seja o correto ou que expresse a verdade. gostamos muito da verdade, tanto que as incorporamos. se somos seguidores de algum herói, nos vemos sendo ele, e não que sejamos, mas essa sensação de ser, essa afirmação perante o outro, e esse hábito de trazer um jugo final que aponta o certo eo errado, não quer dizer que é a verdade, mas a temos, podemos sentir isso conscientes ou não. palavras dificeis, esse vocabulário filosófico, esses questionamentos que não sao respondidos e fica a cargo do leitor chegar na sua própria resposta, é tudo ganha tempo. você ganha linhas reescrevendo toda essa bobeira já escrita e já questionada por filósofos e por toda a humanidade desde então. e geralmente o escritor inicia nisso, neste campo mais amplo que é tanto filosófico quanto sentimental, zonas de fácil acesso de qualquer letrado, resultado: qualquer pessoa pode ser um escritor. isso de natureza. mas agora qualquer pessoa na face da terra que tenha internet em seu aparelho seja um computador ou um celular, pode juntar um monte de ideias e rabiscos e em cinco minutos está publicado em alguma editora de demanda, que funcionam como graficas, você paga a quantia de livros que quer para realizar o seu sonho de ter escrito sobre sua vida ou criar histórias porque sempre foi o seu sonho ser escritor famoso, reconhecido por todos, um revolucionário da literatura e visionário da arte, um gênio da escrita, um deus das palavras, o primeiro, the one. os anos dois mil viraram sem a terra ter explodido como previram os conspiradores. assim como as gerações vão passando e as maneiras de vida vão se diversificando as cegas, como um processo natural do tempo, e a tecnologia foi crescendo que nem uma aranha tarântula e as suas várias pernas nos movimentando, e de repente estamos nos seus tentáculos, mas não confessamos, isso nos tornaria fracos demais, e pensamos grande, somos únicos e tão bons quanto jesus, e por isso temos tanta convicção em falar sobre ele, sendo julgados bons ou maus, gritamos por liberdade de expressão, e essa maneira que tinha de passar pra frente as coisas que via, escrevendo, nós, querendo fazer parte desse todo, dessas pessoas, dessa sociedade, da nação, mas não encaixava. espírito de grandeza, o ego inflado e inflamado não deixava reconhecer a unidade, o ser humano como um, portanto todos são irmãos, os sangues não sao os mesmos por toda a reprodução através dos tempos, mas um dia partimos do mesmo ser, o primeiro homem  do mundo, seja quem for. descobri que queria me assemelhar a ele, e na verdade estava apenas querendo escapar dos outros moldes mais requintados de cidadão como advogado, engenheiro, médico, arquiteto… imaginei o trabalho que ia ser se tornar essa imagem de um sonho, com muita prosperidade, uma família feliz e muito dinheiro no banco, viajando e comprando coisas novas, jantando em bons restaurantes e vestido roupas passadas e perfumadas, sem um furo se quer. isso me parece impossível, daí vira sonho. sonhamos muito. falamos bastante dos nossos sonhos e nos apegamos neles. vivemos de sonhos, vivemos sonhando, vivemos num sonho. os que acordam ficam sozinhos, por onde olha tem alguém sonhando e não os entende. a língua dos acordados não bate com as dos sonhadores como já era esperado. ficam depressivos e acabam se suicidando, quando não encontram outros como ele. a união faz a força, e o país totalmente dividido, vulnerável ao que os acordados premeditaram que aconteceria, a terceira guerra mundial. o povo tava besta, as informações que chegavam às massas era manipulada em cada vírgula, se contentavam com pão e espetáculo como bolsas do governo e futebol, carnaval, olimpíadas. a vontade de ver sangue e dor crescia cada vez mais como nas plateias miseráveis e bêbadas das arenas de gladiadores. posso ouvir o rugido daqueles pobres diabos, gritando com a boca sem dentes por mais sangue, como nos octógonos do UFC. já as teatrais lutas livres do WWE demonstram como é o meio político, midiático e da elite, Donald Trump esteve em ringues de lutas livres, Reagan era formado em teatro e fazia cinema, bom, se estam diante de uma câmera diariamente o que se deve esperar é que sejam excelentes atores e atrizes fazendo parte de uma história já escrita, e estão ali apenas para fazer com que aconteça, seguindo a agenda, feliz ano novo, adeus ano velho, o que quer dizer? o tempo não pára e o amanhã sempre será melhor, esqueça o hoje, hoje é ruim, todos compreendem e aceitam. o hoje é pobre e desolado, o hoje é triste, o hoje foi abandonado e se sente sozinho rodeado de pessoas, o hoje é fascinado por dinheiro e por progresso e por evolução e troca o que for para ter mais, troca seus dias, suas horas, sua energia, sua mente, sua paz, e levada a paz de um homem está levando sua alma, mas foda-se, ele quer mais, sempre mais, ele quer ser o primeiro e não importa se for sem sua alma, o sonho é ser o primeiro, the one.

 

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