O teto do mundo

O teto do mundo nos cobria naquela tarde fria de Agosto. estava em dúvida se abria o vinho que trazia comigo ou esperava encontrar algum banco ou praça pra sentar. caminhava pela Paulista como quem a conhecesse com a palma da mão e o caminho da Brigadeiro me puxava como a gravidade nos puxa para o solo. Fetischa estava finalmente e fisicamente comigo. isso porque sua agenda era das mais cheias e brincamos quando ela disse que o meu horário estava marcado. trocamos interesses durante uns dois meses. eu sumia às vezes para ler e escrever, ela sumia às vezes resolvendo suas coisas e se referia a elas como compromissos. se eu a chamava para sair em cima da hora dizia “hoje tenho compromisso”, daí eu perguntava quando podia, “quinta… quinta, da pra você?”, chegava quinta, “poxa, me desculpa, lembrei que já tinha compromisso”, eu persistia, sabia que ela não era apenas um corpo bonito, “sábado, sábado tenho compromisso de manhã, e depois do almoço… posso umas quatro horas, pode ser?”, e como não poderia? se eu não aceitasse os horários que ela podia nunca que ia vê-la. mal dormi na noite antecedente, fiquei pensando em mil coisas e escrevendo elas.

O intuito parecia o mesmo. se encontrar, beber, filosofar e foder, mas eu não queria isso, não nessa mesma ordem de sempre. ela tinha um baita de um corpo, todos podiam ver e viam mesmo, sem disfarçar. pescoços torciam acompanhando o gingado solto de sua cintura. suas nádegas redondas, subindo e descendo com seus passos leves. Fetischa parecia desfilar num palco imaginário. a Paulista era seu palco, deixei que pisasse em meu coração sem demonstrar. eu interpretava um cara convicto que não se perdia no seu rebolado e falhava nisso também. éramos um homem comum de corpo mirrado e ideias alucinadas na mente e uma garota comum de corpo descomunal vagando despretensiosos pela avenida dos sonhos. tirei o lacre do vinho com o dente ouvindo os carros passarem. tomamos os primeiros goles e os sons externos foram diminuindo, diminuindo, até sobrar apenas nossos batimentos que se aceleraram. o inevitável tinha de ser feito, pois era inevitável, a gente sabia disso e estávamos de comum acordo. apertamos os passos, a Brigadeiro nos puxava como um imã. fugimos de nossas necessidades o quanto pudemos. negar o que estava por vir era tentar tapar o sol com a peneira, e olha que nem sol tinha, fazia frio, muito frio. o vinho ajudava mas era preciso mais.

O quarto escuro, rádio ligado. descobri que nao tem como sentir e escrever ao mesmo tempo, é pura perca de tempo. ou um ou outro. a técnica que estive tentando era ouvir músicas e extrair as sensações produzidas na minha mente e corpo, mas como em silêncio já era difícil, imagine tentando acompanhar o ritmo, a letra, o refrão. você ouve, os ouvidos servem principalmente pra isso, ouvir, os dedos vão teclando, mas a música acabou, escolhe a próxima, essa não te agrada, muda, nesse simples contratempo de ter que pensar em qual música vai continuar o fluxo da que acabou de tocar é frustrante. de repente o conteúdo do que irá escrever está totalmente preso ao som que está tocando ou ao que irá tocar logo após. esse é um ciclo vicioso que só tende a falhar para mim. esperava que a inspiração viesse da melodia misturada com a ideia do que poderia escrever. ruminava as frases, podia ver as cenas passando na minha mente, bem escritas, tão belas! nossa, como sou um gênio! são tantas coisas a escrever, o mundo mal pode esperar por isso… e assim ia, muita expectativa e pouca escrita. parecia com a vontade coletiva das massas de salvar o mundo, muito discurso e pouca ação, resultado: a droga do mundo que temos hoje, e sempre tivemos e sempre teremos. desisti das melodias, por hora. fiquei no silêncio, ouvindo apenas os tac tac agudos do teclado, hummm, pareceu melhor.

se parava de escrever, tinha como me concentrar para ler o que tinha escrito. sem a música era uma coisa a menos do que se preocupar. o negócio começou a fluir, mas não completamente. a cada três ou cinco minutos checava o visor do celular, “será que alguém mandou alguma mensagem?”, era automático esperar por notificações. virei o celular de barriga pra baixo, outra futilidade a menos me barrando as ideias. escrevia picado. como você pode perceber. e quando tinha sido diferente? nunca. gostava de como Kerouac escrevia, horas e mais horas, com ajuda de benzedrina. eu não tinha benzedrina e nem precisava dela. precisava mesmo era de concentração e de ter em mente uma perspectiva do que queria falar. eram tantas coisas entaladas, tantas coisas que se acumulavam durante todo o dia e que achava digno serem ditas com uma visão que não fosse a comum, mas sentar a mesa e encarar de frente as palavras me botava medo. eu era um homem inseguro. tinha vinte e um anos e poucas vezes senti a segurança, aquela sensação de estar no comando dos próprios atos e o controle das ideias que se formam na cabeça. tudo tão próximo e ao mesmo tempo longe, simples e complicado, a eterna ambiguidade, que vergonha. me considerava escritor, os livros com meu nome na estante de casa provava isso. os contos e crônicas publicados no blog provava isso. a meia dúzia de leitores que liam minhas coisas e vinham comentá-las comigo provava isso. mas o que de fato era ser escritor? porque ser escritor? eu não o era. estava mais pra um ser humano cheio de neuroses e paranoias e tristeza e depressão. sem vitimismo desta vez. estava me aprofundando nesse poço, queria conhecer melhor ele, mergulhar de cabeça no caos. se dizia que era um surrealista, que vivesse no surrealismo e pingasse as gotas da morte e do fim.

essa paixão pela destruição e o fracasso vinha de Miller, passado para Buk e o século virou e eles morreram, junto deles a literatura também foi morrendo, minguando, se esvaindo. que lástima! ainda bem que uma vez o texto escrito e publicado se tornava eterno, e eu garimpava os autores e livros que mais me identificava, geralmente os autobiográficos, que falavam da miséria, dor, fome, derrota e tudo mais o que me cercava, isso sim era palpável. os best sellers estavam distantes da minha realidade e da realidade das pessoas que eu conhecia, mas por escreverem sonhos acabavam nos conquistando, lançando filmes, novelas, seriados… e toda a aparelhagem que forma o sistema manipulador. somos o que consumimos. aí que medo das prateleiras das grandes editoras e dos filmes recordistas de bilheteria em cartazes! pobre John… pensava que ser escritor era falar do que havia de errado e mal no mundo, mas não sabia e nem escrevia a solução, afinal, quem se importaria? a música estava alta demais para pensar adiante.

tentava explicar essa chuva de devaneios para Fetischa. ela partilhava de visões semelhantes a minha, o que sempre tornava as coisas mais fáceis. eu falava e ela concordava. hora ou outra discordava de algo, daí eu tentava explicar de uma maneira melhor e pronto, fluía. falávamos dos jovens e do rumo dessa débil sociedade cegamente consumista. aquele papo se repetia tantas e tantas vezes que parecia não ter fim. entre duas ou mais pessoas numa discussão só se ouvia eles falarem como os outros são errados e como as coisas deviam ser na verdade. nunca se via alguém confessar os seus erros e reconhecer que fazem parte da merda que tanto são contra. eu e ela não fugia dessa regra ridícula. eram obviedades de todas as manhãs, estampadas nas paredes de concreto, nos muros de pedra, nos vidros espelhados e arranha céus que tocavam o céu sem arranhar. estavamos fadados a reclamar e isso nos impedia de fazer, então só restava pensar e cuspir pra fora antes de morrer. mas eu não podia deixar de expor, já que estava vivo diante dela. queria que ela soubesse que nós éramos mais do que duas pessoas flertando ou algo do tipo. Fetischa não era uma garota, era uma constelação e seu corpo as estrelas, e por mais que pareça elogio, era uma analise do seu ser. com toda aquela beleza e as curvas sensualmente contornadas no quarto de luzes apagadas, tirava-me a concentração, mas eu não podia me entregar para o simples prazer e consumi-la de uma vez, tinha de ir com calma, aproveitar a nossa conversa, conhecê-la além das posições que conhecemos na cama e do tesão que pulsava em nosso sangue. nesses vinte e um anos as mulheres passaram como um cometa por minha vida, vagas lembranças estilhaçadas pairavam na nuvem que se dissipava no meu lóbulo cerebral. de corpos bonitos a cabeça estava cheia, podia empilhá-los, bunda em cima de bunda, peito em cima de peito, tinha de todos os tamanhos e quanto maiores mais belos eram aos nossos olhos. pobres olhos iludidos. o corpo dela também oferecia essa ilusão, nós sabíamos disso. eu queria vencer ele, não só montá-la e fazê-la mulher, pois ela já era uma. de repente caí em um dejavu. nossos corpos naquele quarto escuro, cada um em uma ponta da cama, o vinho aberto na mesinha de canto, um copo se esvaziando, fazia frio e o líquido cor de uva nos esquentava. o que estávamos esperando para terminar logo com aquilo? era simples, muito simples. podia começar com um beijo molhado e embriagado. mãos segurando firme a nuca, descendo pelas costas, suas unhas arranhando as sardas dos meus ombros, minhas mãos puxando seu corpo para mais perto, as bocas arfando entre os beijos, mordidas e gemidos suaves. as peças de roupa caindo no piso gelado, ela jogando as pernas sobre mim, deitado confortavelmente em dois travesseiros apoiados na cabeceira da cama redonda de material vagabundo, e sua cabeça pensa para trás, como se recebesse uma descarga vibrante do teto ou além dele, do céu, o teto do mundo. sua magnifica bunda que foi desenhada com tanta dedicação rebolando, subindo e descendo, gentilmente, sem afobação, um risinho canalha em sua boca como quem diz “hehehehe, tá gostando, né?”, os olhos revirando e voltando a órbita para fitar o seu rosto que se mantém com a concentração de que preciso para escrever. Fetischa não fode, ela maneja com precisão o meu membro dentro de sua vulva. foder seria pouco demais, e não gostava de pouco, queria mais, sempre mais e sabia como conseguir.

os seus movimentos em cima da cama iam além do discurso manjado que batalhamos durante a tarde antes de pegar o quarto. tentei fugir do término óbvio dos encontros que tinha, mas como? como sair de dentro daquela vulva que me sugava até as entranhas? não queria sair de dentro dela. mais uma vez o dejavu. quantas vezes não quis sair de dentro de uma boa buceta? a questão não era mais um homem e uma mulher tendo relações sexuais que os resumem depois do ultimo gozo e sim de um cometa que ao passar pelo céu, se juntou ao sol e os outros planetas e não foi embora. Fetischa era real. seu corpo era real. seu sexo era real. então o real não importava mais, estávamos bêbados porém lúcidos. transando e conversando ao mesmo tempo. não com vozes proferindo discursos, mas com nossos corpos dançando uma valsa ensaiada por telepatia. olhos nos olhos. via nela não uma beleza que ofuscava todas as outras, mas uma beleza que se juntava ao ambiente, ao quarto, as luzes, ao lençol, ao ventilador, ao espelho no teto, a televisão desligada na parede, ao piso gelado. enquanto engolia meu pau com os lábios de baixo, me tirava de um poço que eu estava cavando, procurando o gozo eterno. ali estava a mais simples das ações humanas, o prazer de duas pessoas, se consumindo como bilhões de outras estavam fazendo naquele mesmo momento, mas algo em nós era diferente dos demais, talvez o vinho escorrendo debilmente no canto da minha boca e sua língua secando-o e bebendo o suco do meu desejo, ou sua bunda apaixonante beliscando minhas bolas enquanto sentava com força, ou as luzes púrpuras que imitavam sem sucesso a um tipo de bordel que mais parecia o inferno decadente. não. a diferença era que isso nunca existiu e você está lendo agora e imaginando as cenas. foi a única maneira que encontrei de te esquentar nesse frio a distância.   

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