Ilha fria

 

Ilha fria

 

uma hora você vence o sexo.

é um sonho.

eles buscavam ser felizes

não eram felizes,

buscavam muito a Deus

não tinham Deus.

soavam para ganhar dinheiro,

porque não tinham dinheiro.

matavam para comer,

não sabiam se alimentar.

matavam para os ricos vestirem,

não tinham outra fonte de sobrevivência.

entregavam seus filhos para os abutres das industriais,

não tinham caminhos alternativos ao abatedouro.

e por fim bebiam e se entorpeciam

por não conseguirem dormir sóbrios.

 

naquela manhã em especial me abdiquei dos vícios quando acordei. fiquei em perfeito silêncio contemplando o nada, e mais importante, grato por mais um dia de inúmeros que tive até então. de repente era improvável não ser grato por ainda existir e coexistir junto da natureza e dos animais. mas conhecera apenas o cativeiro. tanto do corpo quanto do espírito. vivia em um quintal remendado em tantas outras casas servidas de moradia ou aluguel para os mais desafortunados do que nós. eram montes, montes que não acabava. saia um vinha outro no dia seguinte, a placa de aluga-se mal ficava na entrada. eles se proliferavam num ritmo veloz e se amontoavam nos subúrbios, nascidos ali ou vindo dos estados mais pobres e precários de futuro com secas, falta de escolaridade, emprego, saúde… áreas tão excluídas que não se pode descrever. é pura falta de respeito com a dor e sofrimento.

como na minha atual posição, nada podia fazer para mudar o mundo. para onde se olhava via marketing de heróis revolucionários ou conservadores, ambos vestiam as máscaras que mais lhe beneficiam entre os gostos e requisitos da massa. os perfis atuais eram de empresários grisalhos e charmosos, estudados, donos de empresas, homens de negócio e com uma mulher jovem e atraente nas capas de revistas populares. vestiam sempre terno e gravata. aquilo simbolizava a honestidade e prosperidade, como uma identificação de poder. o terno preto, camisa branca, e gravata vermelha. um lenço meticulosamente dobrado no bolso do peito, uma insígnia dourada e impositiva do outro lado do peito seguidas de outras menores e subordinadas, demonstrando mais valores do que o próprio caráter. para os homens do comando os títulos eram indispensáveis. mostravam quem eram e para onde queriam ir, e olhando para minhas mãos trêmulas, e a falta de vontade de levantar da flor de lótus que me pus a meditar na cama, confirmei pela centésima vez  que de fato eu era apenas um homem vivendo, observando, aprendendo, errando e escrevendo. nada mais que isso. o mundo não mudaria. estava tudo escrito e nos aproximávamos do fim dessa história milenar.

 

temendo pelo horário levantei para lavar a louça. nenhuma verdade universal lavaria as panelas. a servidão, lavar, passar, cozinhar, limpar, organizar, estudar, obedecer. a servidão acercava a rotina de um enjaulado. e quando me refiro a um enjaulado não quero dizer alguém que viva dentro de uma jaula comum que serve para animais, mas a casas pequenas, estreitas, empilhadas, e mantida por contas mensais e diárias. para manter o mínimo de uma sobrevivência o indivíduo serve como uma bateria de energia, entregando tantas horas do seu dia para receber uma quantia que o manterá nesse ciclo de aperfeiçoamento de suas habilidades mecânicas e decoradas para reproduzi-las na sociedade encubida em uma profissão, dando forma ao sistema, por exemplo, se alguém sair na rua e matar uma pessoa terá a perícia para averiguar o ocorrido, a polícia para prender, o detetive para investigar, o interrogador para interrogar com as mais óbvias perguntas, os enfermeiros para socorrer a vítima, os médicos para operá-la, os operadores de trânsito para interditar o local, jornalistas para noticiar o crime, comentaristas de salas e cozinhas artificiais de donas de casas para discutir sobre o que aconteceu sem o menor sensacionalismo e por aí vaí. daí tem o lado obscuro que dificilmente vemos. de onde surgiria a arma que esse sociopata usou para matar um inocente num acesso de loucura sanguinária? produtores e comerciantes de arma, munição, bombas, em lojas convencionais de canivetes e pistolas teaser, vendendo drogas, aliciando o crime, incitando a violência e colaborando com a indústria de segurança. ladrões de carro não são remunerados por fazerem a vítima tornar a adquirir outro automóvel, mais atualizado, girando as engrenagens da maquinaria. os ladrões de celulares não são remunerados por contribuírem com o consumo frenético de celulares. os lançamentos enchendo as prateleiras e há muito não se acompanha as evoluções controladas de seus produtos, estimulando preços exorbitantes e criando uma classe doentia totalmente dependente dos recursos tecnológicos que no fundo nada contribuem para a mudança que tanto dizem do mundo, tornando as pessoas visivelmente mais individualistas e egocentristas, dando-lhe a oportunidade de conversar com infinitas pessoas em qualquer canto do mundo e lhe mostrando a cara modificada, enaltecendo sempre a beleza, reparando as imperfeições que não constam no padrão de beleza que adoram, emoldurando as cinturas e aumentando os donativos sexuais que sinalizam a sensualidade do feminino: os peitos, cintura, bunda e coxas em específico. terminei de lavar a louça. quando fazia as tarefas de casa meditando em reflexões o tempo parecia passar menos doloroso e cansativo.

Ainda com a linha de raciocínio na cabeça fui a sala onde a cama estava instalada. dobrei o cobertor que soprava pelos de gato ao cair na cama. empilhei os quatro travesseiros. dois em dois. fechei a cortina de modo que não entrasse vento mas que ventilasse. com os afazeres em ordem me sentia no comando dos meus sentimentos. a servidão me dignificava. sabia que Noah ficaria satisfeita quando chegasse e visse garfos, facas, colheres, conchas no escorredor verde de talheres, os pratos grandes e rasos enfileirados no escorredor, os copos bem lavados em baixo, as panelas areadas, a pia seca, bucha e detergente no lugar. ela não agradeceria e nem elogiaria. cansada das dez horas diárias de trabalho presa a firma de cimento, limpando toda aquela sujeira que os peões sempre fazem tão bem como se fosse um dom. habilidades incríveis de como emporcalhar todos os recintos que utilizam, tanto de trabalho como de refeição e necessidades fisiológicas. apenas Noah poderia explicar o que é lavar degrau por degrau de escadarias com rodinho e uma caneca e botas enlamaçadas passando e resmungando da sua presença no caminho deles, como se ela fosse um obstáculo desprezível, vestindo uniforme de limpeza, a categoria mais baixo na hierarquia corporativa, não só nos escritórios mas maiormente nas metalúrgica e firmas de bairro. o pessoal assistia muitos seriados e filmes americanos que dignificavam os que vestiam social e trabalhavam de frente a computadores, logo a ambição de um funcionário seria seguir aquele modelo de funcionário, feliz e confiante diante de uma máquina, operando sistemas, prosperando, enquanto os funcionários da limpeza maiormente formado por senhoras de seus cinquenta anos pra cima, entram ressabidas nas salas administrativas recolhendo o lixo que os mórbidos não são capazes de esvaziar. passando álcool desinfetantes em suas mesas, teclados, mouses, monitores, cadeiras, e deixando tudo cheirando a limpo e novo. daí eles chegam na manhã do dia seguinte e se sentem de certa forma melhores por estarem iniciando o dia de trabalha num ambiente cheirando agradável e com suas porquices limpas como num passe de mágica. será que se lembram quem foi que deixou tudo arrumado para as suas bundas sentarem e sujarem tudo de novo? o café que tomam de monte na cafeteira? foram eles que fizeram antes de iniciar sua jornada? não se lembram de terem mexido um músculo e lá estavam, pretos, adoçados, na medida certa. ninguém torcia o nariz. gostavam. bebiam de monte e passavam horas concentrados ou simplesmente curvados as teclas e suas múltiplas funções.

desde que conheci Zelda não tinha mais desejado outra mulher como a desejava. tivera outras aventuras, como sempre acontecia, mas nenhuma delas destronava Zelda e aquilo me perturbava. como podia uma desconhecida me deixar aos prantos, imaginando nossos momentos tantas e tantas noites seguidas, aparecendo em rostos que não eram seus, se projetando nua e sensual com aquela sua falta de preocupação com o belo e o certo, e sua atenção direcionada ao seu Eu interno, como uma deusa buda, reencarnada num corpo jovem de meio século, traços delicados, sardas, e um castanho flamejantes nos olhos, lábios de framboesa, expressão de complacência misturada com nulismo, um tipo de neutralidade as energias negativas, fortificando o seu lado sensitivo que filtrava e expelia as conjecturas malignas das trevas, e paralisados, ajoelhados, de frente ao outro, sentimos as vibrações de nossos espíritos se colidindo, tentando dividir o mesmo espaço, e o roçar de nossas faces nos fez sentir como felinos, se entorpecendo de satisfação com o mínimo dos toques, constatando o temperatura, a textura e o peso da pele, dos pelos, do sangue a pulsar nas veias azuis e verdes visíveis no braço branco e no pescoço pálido, com uma criatura monstruosa e poética na jugular. a mistura do horrível com o divino. um misto de certezas e incertezas. paz e solidão. segurança e desolação. conforto e desamparo. ela estava comigo. sim. naquela noite.  dividimos o mesmo teto. e presenciamos os acontecimentos sob o olhar das mesmas estrelas. e isso passaria num piscar de olhos se eu não estivesse desperto. mas mesmo assim, sua presença escapava-me os dedos e adormecemos depois de nos amar como Adão e Eva. pela manhã o sonho havia acabado. o retorno para a maquinaria. os horários. as responsabilidades. a distância. a diferença de nossas vidas. a nuvem misteriosa que rodeava sua aura. Zelda não se decifrava em uma noite, e nas noites seguintes sumia como uma estrela cadente que passa pelo céu radiante e que se apaga no caminho, deixando rastros no espaço e lembranças na minha mente.

Deitei meu corpo rente ao colchão. a espinha se alinhava com dificuldade. pontadas nas dorsais. as juntas dos cotovelos estalavam. os calcanhares também e aos poucos a musculatura ia relaxando. os fones de ouvido guiavam meus pensamentos com a música celta. piano e flauta resgataram sensações nostálgicas nos primeiros acordes. pássaros cantavam ecoando os seus pius que sumiram com as notas do piano e a suave erudição da flauta celta. sentia que esses pássaros voavam entre os galhos de árvores gigantes encobrindo a luz do sol de uma mata digna de se dedicar tardes em admiração de seu verde e seus troncos grossos e o farfalhar de andorinhas trazendo as cores das flores da primavera. com a coluna alinhada, a cabeça deitada confortavelmente em dois travesseiros, o piano sublinhando uma doce e lenta melodia que regressava meu espírito a um abraço maternal e podia sentir os braços e pernas pesados como se meu corpo finalmente tivesse se soltado, depositando seu real peso no mundo. meu peito pesava. como uma bola de tênis presa a uma artéria. concentrei a respiração. só fazia isso quando prestava atenção nela, ou seja, quase nunca. depois de cinco minutos confirmei que a boa e longa respiração era o remédio inicial para os nossos males. parar. prestar atenção. e respirar pausadamente, como os velhos e eternos budas faziam. logo sentia o corpo flutuando, viajando com o espírito, sobrevoando os problemas nas fugas viciosas. se escondendo das ameaças que chegam cada vez mais perto. com as forças netruzalidas. não conseguia me defender pois quando tentava bater o punho perdia a força e os golpes vinham, então o certo a se fazer era fugir. fugir. fugir. arrancar voo e correr para longe dos males, mas não desta vez. os olhos fechados aguçaram o tato. Tom pulou na cama e o colchão tremeu. ele andavam por cima do meu corpo, passando o rabo peludo pelo meu nariz e minha cara. procurou o ponto que mais pedia socorro e se aconchegou ronronando no meu ombro direito. a mão que cavava a alcova do prazer. uma culpa muito grande caiu por terra e todas aquelas estimulações que me elevavam para um estado de gozo que duravam frações de segundos e tinham de ser repetidos infinitamente, desgastando a musculatura e queimando as vergonhas com ácido da paixão. era um homem preso. escravo do prazer. preso às armadilhas que a libido apurada me metia. esvaziando as luzes do meu espírito. me perdendo no vale escuro e incerto de noites mal dormidas, cutucado pelo garfo do diabo, metendo, se contorcendo feito uma cobra, queimando, gemendo, arfando, metendo e gozando. sem descanso, sem fim. sem sentido. estava próximo da tão esperada transcendência e ela não tinha rosto de Zelda e nem de mulher alguma a não ser o meu desconfigurado, esperando o próximo admirável chip novo que me implantariam.  

o telefone tocava, incansável. as operadoras de cobrança passavam raiva comigo, me procurando em todos os números e emails que tinham. saciando o pagamento dos juros de minhas divinas. Minie latia para os tiriririn. mas era um latido de sofrimento como se os toques do telefone lhe afetasse e ia uivando com melancolia até que parasse de tocar. ela se machucava com aquela perseguição tanto quanto eu, seu dono, uma das características mais marcantes do cachorro, a empatia com nossa situação. sabia que ela não me abandonaria nem que morássemos na rua ou que eu não escrevesse mais. estava comigo não pelo teto e pela ração, mas porque sabia que eu estava com ela e que não a abandonaria num terreno baldio como a maioria dos cachorros de subúrbios temiam. se não era o telefone eram marteladas de alguma construção inacabada, e se não eram marteladas eram músicas populares tocando no ultimo volume em alguma casa. esquece. não tem como meditar por aqui a não ser que acorde junto do Sol lá pelas cinco seis horas da manhã, mas daí Noah interferiria, já que é a hora que ela levanta para trabalhar, e eu acabo afundando no sono até às sete, quando acordo e me arrumo as presas para pegar a estrada de duas horas e chegar ao escritório. resumindo, querer um pouco de paz era sim pedir muito nos cafundós de Diadema.

As páginas de A Ilha de Huxley tomavam meu pensamento numa fantasia profética de um lugar nunca encontrado, no meio do oceano, longe das câmeras, dos jornalistas e das pessoas comuns. as imagens pareciam carton. montanhas de picos arredondados e um marrom puxado para o laranja e um céu rosado e nuvens fibrilantes percorrendo o céu, e um verde luminoso dando vida as baías da ilha. o mar calmo. as árvores imóveis. as folhas caindo. os pássaros cantando. os macacos pulando os galhos. os simpós balançando como um ponteiro daqueles relógios antigos de parede, e muita serenidade no percurso do Sol pelas planícies douradas da ilha dos sonhos. o melhor lugar para se morar, pensei, antes de começar a ler. o personagem descobria cada canto daquele lugar, se deslumbrando com os seus habitantes exóticos e puros. até que ele descobre a hierarquia daquele mundo e minhas esperanças caem por terra. não há saídas. Huxley não mentia. a corrupção e maldade estava presente nas mais sofisticadas obras fictícias, e no seu último romance lançava as linhas mais bem escritas que já li na vida. ultrapassavam a acidez do erotismo de Bukowski e a fibra moral das páginas sem fôlego de Kerouac. de fato a literatura era o que mais me impressionava e a cada livro novo que eu devorava as viagens ficavam mais detalhadas e com significado. e aos poucos o sexo casual e as bebedeiras perdiam seu sentido e eu não mais queria habitar naquele ciclo. era sujo e errado como mijar na cruz ou cuspir na cara de Deus depois de sacrificar seu filho pela nossa vida. o pecado que matava a alma. lágrimas se reuniam em meus olhos. uma súplica enforcava minha garganta e mantinha meu corpo pesado e imóvel na cama. não mais viajava em harmonia com o espírito mas em descompasso com o meu plano astral e os calafrios estremeciam a espinha que perdia o alinhamento e atrofiava. eu era um smigol. pobre criatura vergonhosa e encurvada procurando por uma dose a mais de paz. a paz que não existia a não ser no imaginário.

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