New Horizon

 

New Horizon

 

vivia em São Paulo, a maçã mordida e envenenada do paraíso.

“vamos fumar um beque?! vamos fumar um beque?! só mais um, o último e você escreve”, ecoava na minha mente. eu acendia. tragava de olhos fechado, puxava toda a energia boa e criativa que tinha no fundo da carcaça e as ideias vinham em forma de desabafo sobre os anos que eu fiquei perdendo os culhões, aceitando tudo dos outros, ficando pra baixo, se vendendo pro trabalho pra poder consumir e comprar coisas que nem precisa, e cursos, faculdades, carros novos, casas novas, viagens. indo longe trabalhar e receber esporros de pessoas mais ricas e que não conhecem bem o sofrimento e ganharam seus cargos herdados, nasceram ricos e mantém a hierarquia de respeito com os funcionários.

queria ouvir música no trabalho, só assim para o tempo passar mais rápido e dar a hora de ir embora. estava sem fone de ouvido e minha amiga também. um cara acima de nós brincava com nossa necessidade, “eu tenho um fone muito bom aqui, empresto ele pra quem me der o cu”. lógico que eu não ia dar meu cu por causa de um fone e nem por nada nesse mundo, a não ser que minha garota tivesse fetiches mas isso era questão nossa. a guria que sentava ao meu lado também não estava nem um pouco interessada naquela proposta tão pretensiosa e suja. ele colocou os fones no ouvido e ficou ouvindo sua música eletrônica de merda, nos deixou em paz por alguns minutos. pediu um café. não era nossa função pegar café para ele, só que o homem mandava e a gente tinha de fazer. por essas e outras que minha cabeça flutuava numa nuvem de ódio estresse cansaço e humilhação juntas.

não estou tendo tempo para ver meu filho que acabou de nascer e o trabalho está comendo meu corpo vivo e meu cu com areia. o estresse está explodindo meus glóbulos e sinto ânsia de vômito ao ver os gerentes e corretores da empresa. toda a suas pompas e superioridade me repugnam. quero cuspir na cara deles e tacar fogo em seus cabelos e ossos e ver seus carros importados sendo guinchados na frente do hidrante. eles não entendem as bolsas negras de baixo dos meus olhos. trabalhei muito quieto e pensativo neste dia. depois de muito pensar e pirar e crises existenciais e de ansiedade, volto a ter meus culhões e mando tudo para a casa do caralho. sou de lua. quando a água bate na bunda volto a correr atrás dos serviços e aceito o primeiro que me aparece para não ficar sem comer e continuar levando a vida de escritor alucinado de vinho com minha garota.

sou pai e arco com as consequências que são financeiras e presenciais. minha garota entende, ele me entende mais do que ninguém e me apareceu tão de repente. fico encabulado com essas coisas. tenho problemas em confiar. vários abandonos e desilusões causam isso. independente dos problemas mentais e na alma ainda tenho outra boquinha para alimentar e um corpo frágil e sem forma para vestir, preciso de um emprego. não posso ficar na mordomia jogado em casa fumando bebendo e esperando a editora me pagar os mil reais que me devem dos livros que vendi nos tempos primórdios dois anos atrás. aqueles sacanas não soltavam meu dinheiro, de certo Mr Mahller não sabe do que está acontecendo, ele não admitiria isso e me enviaria o que me devem. daí escrevia um livro melhor ainda, dessa vez mandaria para uma editora grande que me pagasse nas datas certas, ou ao menos me pagasse.

vou pra casa, espero minha garota chegar, eles maltrataram ela hoje. ela me conta como está na clínica, mas ela vai entrar de férias e receber uma boa grana. pede que eu fique em casa que ela mantem o mes e faz um amor maravilhoso comigo e eu me sinto a mulher recebendo conforto, carinho e proteção do homem da casa, os tempos mudaram. saio de casa deixando a garota para procurar emprego e aceitar qualquer coisa, daí trabalho um pouco, desisto pelas condições, nao vou me vender a isso, tenho meus princípios, volto e encontro minha garota bebendo com as amigas. fico com vontade de fode-las mas tenho princípios. bebemos todos juntos até altas horas da noite e uma energia negra se apodera de mim e vou atrás delas e minha garota entende e eu não consigo dar continuidade, tenho escrúpulos. não sou mais o mesmo. o sexo consumiu o fogo infernal que me queimava os dedos dos pés. abraço minha garota em nossa cama e durmo o sono dos justos com a consciência leve e limpa.

o que falta é escrever o livro que gostaria de ler. acordo com essas palavras lindas e lapidadas na minha mente. mas para isso preocupação nenhuma pode me rondar, e estou falando de prazos, mesquinharias, neuras e toda a encheção de saco das empresas e pessoas sem mais o que fazer e que gostam de nos encher até ver transbordar pela boca e derramar o sangue puro que jesus lavou, e mancham nossas vestes com o dinheiro sujo que nao vemos sujeira, em funções que desfavorecem os mais pobres e favorecem homens engravatados e nos calamos para receber a sobrevivência no final do mês. estava fugindo de vez dessa vida no sistema. o envelope com meu dinheiro chegaria a qualquer instante, bastava esperar, o duro era o tempo. enquanto não aparecia dinheiro na caixa de correio, o jeito era editar o que eu já tinha escrito para arranjar meu novo sustento, o tão sonhado royalts dos meus escritos. editar. editar. foca. nunca editei mais do que alguns minutos na minha vida. esse hábito exigia muita paciência. eu não estava criando, sabe, totalmente. livre. leve e voando. editar era engatinhar. e me sentia parado no tempo. bom, a situação exigia mudanças. naquela noite não me pilhei com mais nada e fui dormir. o outro dia seria melhor. seria reescrito.

 

2 –

meu primeiro dia de editor. cheguei mais cedo em casa e ajeitei o notebook. preparei a comida. fritei linguiça. liguei a televisão, pensei em um filme ou série. o notebook iniciando a tela. bateria fraca. fui ao quarto, estava escuro, vi uns vultos. abri a janela, a luz do sol tímido clareou e me senti melhor. tirei o fio da tomada e levei a sala. conectei na máquina e sua vida foi poupada. o cheiro de fritura vinha da cozinha. abaixei o fogo do arroz e do feijão e virei as linguiças. coloquei um prato dos grandes na mesa e me servi. sentei no sofá e senti que dormiria logo após a última garfada. a tela branca piscava para mim, me esperando. me dei uma hora de almoço como tenho no serviço e coloquei no sense8, era como se aquela série fosse escolhida para mim naquele momento da minha vida – mandei a ideia para junta das outras tantas e coincidências que tem acontecido. assisito o primeiro capítulo com tesão. falava de energias, espíritos, oito pessoas diferentes se conectando. as cenas eram muito bem montadas e pulava de uma personagem para o outro com ganchos legais. terminei de comer e dei play no segundo episódio. depois veio o terceiro e eu não conseguia mais parar de ver aquilo. levantei meio zonzo de tanto assistir televisão e fui respirar um ar na janela. olhei todas aquelas casas, as janelas, as portas, as varandas, as lajes, os quintais, os quartos, as salas, cozinhas, banheiros, tudo em ordem como há vinte e tantos anos. o raque da televisão parecia bom para sentar e escrever. coloquei a máquina nele e uma cadeira. trouxe o cinzeiro e o isqueiro. ia encarar as pastas e arquivos de textos.

fiquei por um longo momento fitando a mim mesmo refletindo na tela da máquina. sentia que tinha escrito todas as palavras que podia e todas as histórias e lembranças. “eu tenho medo do novo. sou um acomodado. um encosto. um anjo caído.

qual é?

quem é que fica me segurando? e falando na minha cabeça.

pego a máquina, coloco na minha frente, sei de tudo o que tenho que escrever. as imagens dançam na minha mente, eu vou botar tudo pra fora. de repente fico parado, fitando o nada. um pó despencando lentamente no ar me toma a atenção como algo extraordinário e desvio os olhos das teclas. elas me chamam. são vozes minhas querendo que eu escreva. bloqueio. está tudo na cabeça, as cores, as sensações, as descrições minuciosas, cada detalhe e de frente as teclas elas somem. se embaralham, ficam embaçadas, distantes. fogem de mim.

 

3.

 

A carta chegou pelo correio. era um envelope bege, simples, sem emblemas, seles e nem nome. mais uma correspondência, pensei. mas abri por ter ficado intrigado. colocaram o meu nome como John, e eu sabia quem era que gostava de me chamar apenas pelo primeiro nome. Mr. Mahller, o editor chefe da Illuminous editora. meu coração acelerou descompassado. não esperava cartas dele. há muitos meses não nos falávamos mais, e para mim as crônicas não tinham sido aceitas. o gênero tinha mudado. escrevia as formas sinestésicas que vinham no negro da minha mente e me sentia um experimentalista sinestésico surrealista e assim passei a me intitular, se livrando da alcunha de um mero escritor. nisso, pensei que as editoras cairiam matando, com a certeza de ter encontrado o próximo Bukowski da era moderna, numa escrita que mantinha os velhos e clássicos signos da literatura boemia milenar como “bater a máquina”, escrever, “máquina”, notebook, “carta”, email, “ligação”, mensagem de voz. e assim, sem desvalorizar os processos que uma história memorável deve ter, mandei com a intenção de escolher em qual lugar aceitar a publicação. o silêncio que recebi das editoras durante seus meses me fizeram amadurecer e consertar as pontas soltas na narrativa. beber menos. editar mais. excluir o que não presta e reescrever. iniciei um novo ciclo agora que Zelda estava comigo.

 

 

 

 

 

 

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