Mestiça

Faz um ano que tudo começou. a intenção era cair na estrada, mas não tinha carro e nem meios de sobreviver fora do sistema, e isso consistia em ter de vender minha semana para uma empresa em troca de um salário no final do mês. até então, tudo bem, temos que trabalhar, todos nós da classe baixa entendemos que o trabalho dignifica o homem, coloca o pão na mesa e nos dá moral, mas uma criança de doze anos não é um homem, e hoje com vinte e um ainda não me considero um homem. muito se diz de como ser um homem, e o que um homem deve ter. muitos manuais e procedimentos que não são seguidos. em geral o homem é machista, mandão, folgado e inseguro, é claro que ele não demonstra nitidamente essas peculiaridades, ele deixa notar ao longo do tempo e quando está no seu pedestal urra as suas machesas e precisa de um coral de fêmeas para aplaudir os seus feitos e sua genialidade. bom, eu não me encaixava nessa categoria de homem e nem estava no caminho para ser, em algum lugar da minha tenra infância devo ter desviado, acho que foi quando caí da escada, do décimo degrau e bati a cabeça com muita força no chão, não tive um arranhão, a não ser o galo enorme na cabeça quando acordei de um semi coma.

Faz um ano que a busca começou. a busca sem destino. a busca de prazer. a busca de erva. a busca de festas. a busca de bares. a busca de cigarros. a busca de música e conversa. a busca de pores do sol e trilhas. a busca de novas praias e ondas. a busca de madrugadas a dentro, rindo, chovendo. a busca de mais doses. a busca de ilusão. a busca de conhecimento. a busca de espiritualidade. a busca de novos autores velhos. a busca da árvore genealógica literária. a busca dos navegadores das palavras. a busca dos tripulantes do barco junkbeat. a busca da transcendência. a busca da experiência. a busca do novo. a busca.

ativei a máquina de combinações.

tecla:

mulheres.

Kojihara, mestiça de japonês. morena, olhos puxados, cabelo longo e liso, sorriso de garota meiga, extrovertida daquelas que fala alto e não liga pra quem ta passando e que se expressa do mesmo jeito onde estiver. a gente estava conversando no terminal perto de casa. eu tinha uns doze anos e ela também. Bia fazia parte de um grupo de cosplayers, que eram pessoas que se fantasiavam de um personagem de anime ou outro desenho qualquer e ia para esses eventos em universidades. no evento eles competiam quem tinha a fantasia mais parecida ao original, e a melhor performance com ela, daí tinha show dos caras que tocam as músicas dos desenhos japoneses e a galera ia a loucura. os hits de mais sucesso dos desenhos clássicos emocionava a galera e uns choravam de rolar lágrimas e se abraçavam e lembravam de como foi acompanhar o desenho na televisão quando era pequeno e se reunia com os amigos depois da escola ou paravam o futebol ou o videogame pra não perder o episódio e sabiam que no outro dia todo mundo estaria falando de como foi a luta, e foi nesse mundo dos quadrinhos e bonecos de olhos grandes, lutadores, treinadores de animais esquisitos e viajante das estrelas que conheci Bia. eram tardes que não conheciam o agito de viajar São Paulo para trabalhar ou estudar. a escola era relativamente perto, no bairro ao lado, em Diadema. então o terminal há quinze minutos de casa era o melhor lugar para encontrar ela, que morava na cidade ao lado, vinha da escola, estudava no colégio Bandeirantes, uma das melhores da região, ela tinha boa estrutura. e beijava bem, eu não entendia porra nenhuma de beijo, era uma das primeiras que estava beijando e a mão dentro da calça dela me fazia mais homem. puro sexismo da idade.

Koji conversava e ria alto, eu ficava olhando para os lados, envergonhado, pedindo pra que não estourasse assim e ao mesmo tempo achando uma loucura tudo aquilo, a primeira Junkbeat garota que conheci. trazia vinho barato na mochila, íamos para a sua casa. ela disse que a gente ia jogar videogame ou algo do tipo e eu na maior inocência acreditei e fomos. ela tirou a garrafa de vinho da mochila, fiquei em choque, tínhamos doze anos e estávamos andando por aí com uma garrafa de vinho barato, o que pensariam? e se chamarem a polícia? eu tinha essa esquizofrenia aguda com bebidas na rua porque há duas semanas atrás tinha sido detido no jardim de um shopping por transitar e consumir álcool, o que foi muito cômico, porque veja bem, eu saia com um amigo do mercado do shopping e abri a garrafa de cerveja, e ele uma latinha de refrigerante, nós dois bebemos na mesma hora e um guarda que passava nos viu beber, e viu o meu tamanho e o que eu levava a boca, hummmmmm, me ganhou no ato, fiquei em estado de choque supremo, piripaque do chaves. ameaçamos trocar as garrafas na tentativa de enganar o guarda mas ele vinha ofegante para abordar a ocorrência, e disse no rádinho “pshuuuu, é… temos um… menor embriagado”, como assim? eu tinha dado um gole apenas, não era pra tanto, pensei. ss outros guardas chegaram de moto e fizeram a maior cena. meu amigo infelizmente era maior e isso deixou as coisas feias pro lado dele, os guardas queriam acusá-lo de indução de menores ao álcool mas o na verdade ele nem bebia, estava no guaraná numa boa e tinha de passar essa dor de cabeça. os guardas liberaram ele mas me detiveram e tentaram contato com Noah mas ela era esperta, estava curtindo a noite, e eu que iria fazer o mesmo detido, em choque, aflito.

Fiquei umas duas horas no chá de cadeira que me deram nos fundos do shopping, numa área administrativa onde traziam garotos mais morenos, de blusões e bonés, caras fechadas, suspeitos de lojas de tenis e roupa de marca. eles ficavam me encarando, outro menor chorava com medo dos pais lhe darem uma coça, ele não pensou nisso na hora de colocar os três wiskys na mochila do parceiro, porque não pensou em beber umas latinhas enquanto andava pelos corredores fingindo consultar os preços e fazer de fato compras, daí ia colocando as latinhas vazias entre as mercadorias e dava o fora deixando o carrinho parado em um canto. ouvi a moça no telefone falando sobre pegar os meus documentos e me fichar, hummm, pensei, meu nome vinculado com esses garotos, não vai dar certo. perguntei docilmente onde era o banheiro, ela tampou o fone e apontou pra direita, deixando aparecer um sorrizinho de surpresa por eu ser tão educado em vista dos garoto que chegavam ali, na maioria algemados, aos gritos, tremendo de arrependimento e sórdidos, doidos para fugir correndo e sem ter pego seus dados, escapavam sem vestígios, e eu fazia o mesmo fingindo ir dar uma mijada, dobrei a esquerda quando ela não estava mais vendo e ganhei o jardim. a garrafa que tinha aberto e sido abordado estava em cima do balde de lixo. não jogaram fora, de certo voltariam para beber, fui mais rápido. terminei ela e a quebrei dentro do próximo lixo, não podiam me pegar mais, mas a nóia permanece e dividir aquele vinho com Koji dava calafrios e eu olhava para os lados, entre os carros e as pessoas na rua, procurando um fardado ou luzes azuis e vermelhas, bom, o bairro era nobre, então não se via muitas pessoas, chamávamos de deserto, rua deserta, bairro deserto, e Koji demonstrava certa habilidade em beber por aí, daí fiquei tranquilo e terminamos o vinho antes de chegar na casa dela. entramos cambaleando, ela foi direto para o quarto e eu a segui. soltamos nossas bolsas no chão, bia deitou na cama, esparramada, braços abertos como quem espera um abraço e nesse momento notei que não ia ter videogame porra nenhuma e que as coisas ficaram sérias, e eu tinha de agir. vinho na cabeça, a visão balançando serenamente e as cores ofuscadas como se as retinas estivessem anestesiadas. cai de boca nela e chupei-lhe os peitos. naquele dia, ao perder minha virgindade, descobriria o caminho mais vicioso da ansiedade, o gozo, mas não descobri, não conseguia gozar. ficamos umas boas três horas transando sem parar e nada do jato branco adormecer minha cintura e ejacular pelo meu pau. Koji cansou, paramos, ela tomou banho, daí voltamos a meter e nada de eu chegar lá e o melhor de tudo era que não me importava, não queria terminar, a sensação de estar quase lá era melhor, mais duradoura, mas para dois virgens estava ótimo. quando se tem doze anos a importância da virgindade é bem maior.

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