China In Lover

 

China in lover

 

vinho barato. cerveja. cigarro. erva. buk. lovers.

Curtir o momento girava em torno disso. eles sabiam. elas sabiam. Eles tomavam e fumavam, elas também, a cada ano mais. Essa noção de que os dias atuais estão de certa forma piores ou mais avançados do que os de antes se repetia geração após geração. Não era exclusividade de nossos dias como alguns pensavam, os moralistas. Quem gosta de estar perto de um moralista, a não ser que seja outro, daí um se apoia na ignorância do outro e debatem como se fossem os seus pais, vivendo nos anos deles. Esse saudosismo arrastado por séculos separava os pais dos filhos nas mesas de jantares pesadas, falando sobre os negócios da família, os tropeços dos concorrentes, e do sonho pessoal de carreira do filho. As crias se sentavam à mesa não para fazer parte dela, mas porque por lei tinham de ser alimentados e a situação permitia isso, e de cabeças baixas ouviam os mais velhos falarem de suas vidas e das dos outros. Sem encaixe e voz, o jovem procurava mesas que pudesse ser ele mesmo e colocar tudo que não podia em casa, para fora, e essa foi a do bar.

Estava no bar com a sra. chinaski. Ela, musicista. Eu, bêbado. tomávamos umas brejas na brigadeiro. Tinha passado uns tempos na kitinet de um amigo naquela avenida. Perto do meu trabalho e da universidade. Perto dos bares e das baladas. A paulista, onde trabalhava, ficava há cinco minutos subindo a rua. a agitada Augusta há quinze descendo. A universidade logo em frente e o metrô na próxima quadra. Além disso tinha bons restaurantes, padarias, docerias, hamburgueria, academia, que era um prédio todo preto, misterioso como um homem de capa preta enorme parado na rua, te olhando sob o crepúsculo do luar no meio da noite. Foi uma boa temporada. Lembrei coisas além da boa localidade, enquanto bebericava o copo de cerveja e via a desenvoltura de uma garota bukowski, solta e melancólica, deixava estar e ansiava pela próxima palavra, o próximo assunto, e soltava o corpo na cadeira tomando a sua cerveja, ouvindo minhas palavras rápidas, contando as inúmeras carreiras que tentei seguir e que o importante eram as experiências, e tinha repetido esses mesmos assuntos centenas de vezes, eles flutuavam na minha cabeça como roupas no varal e eu as recolhia e emendava umas nas outras, perdendo o fio da meada mas falando, falando, falando, a boca secava e tomava um bom gole de cerveja, repousava o copo na mesa, prestando atenção nos meus próprios movimentos, sentindo eles, como se o corpo tivesse acordado e eu o sentisse em cada centímetro, tanto dentro, a pulsação das veias, os leves espasmos musculares, o fluxo sanguíneo, quente e nauseante se parar para senti-lo calmamente, os batimentos do coração na cabeça, clareando e escurecendo as bordas da vista como se mexessem na luz, e isso tudo num segundo, o copo repousado, as mãos livres, as palavras alinhadas, o corpo relaxa confiante de que vai dar cabo de terminar aquele pensamento e ouvir a retórica. Uma conversa de bar.

Os dias frios de Abril nos vestiam jaquetas de couro. China usava a sua, com aspecto nova, assim como todas as jaquetas que eu via pela rua. Pensava assim porque tinha a minha há uns quatro ou cinco anos. Ela estava caindo aos pedaços no colarinho, por dentro na região do pescoço, onde antes havia uma etiqueta linda, era forro espumado, mais macio porém ridículo, mal trapilho. As mães sonhadoras de Diadema não deixavam que seus filhos saíssem mal vestidos, o que diriam? A soberba nos privou de certos constrangimentos socioeconômicos expostos na calça curta, nos tênis surrados, nas meias furadas, nas camisas degoladas, nas jaquetas desbotadas e nos shorts que pareciam da sua irmã mais nova. Apesar de tudo, estávamos de Jaqueta e eu sentia Hank. é, o Bukowski. China conhecia os livros de buk. Tinha trechos de poesias e de algumas narrativas em alguma parte da mente, só não sabia onde, e recordamos de sua filosofia boêmia de vida entre olhares, goles e alinhamento na cadeira. Eu tinha uma mania esquisita e corriqueira de se arrumar todo o momento na cadeira ou onde estivesse sentado. O motivo era que meu corpo de certa forma ficava desconfortável ou deslizava para baixo, como que caindo lentamente, era inevitável, quando percebia estava com as cuecas aparecendo. Na empresa tinha vergonha nos maus dias, e nao ligava nos bons, que sao aqueles que escolhemos melhor a cueca e seu caimento na cintura. Em casa não me importava, ninguém estava vendo e quanto mais despreocupado melhor. Naquele bar, bom, naquele bar ajustava as costas na cadeira para ajustar a musculatura e continuar cuspindo a cerveja que bebi em formas de som. Daí sentia Jack. é, o Kerouac. China não conhecia esse escritor mas tinha visto o filme, que cá pra nós, era uma obra prima, bem fiel ao manuscrito, tinha assistido dezenas de vezes, inclusive. O fascínio pelos autores que lia, as linhas descrevendo suas vidas exatamente como quando comecei a escrever, contando num fôlego só a vida de uma pessoa normal. Um escritor. E seus dias vivendo e tentando escrever. Essas eram as que eu mais amava. Os meus dias foram escritos por eles. Nos anos trinta, John Fante e Jack London. Nos anos quarenta, Jack Kerouac. Nos anos cinquenta e sessenta e setenta, Charles Bukowski. Porra, quantos números. Eu odiava números e contas e cálculos e raízes, E não gostava necessariamente de Português. Eu só queria as palavras. Linha após linha. Nada mais. Não queria cursos, não queria faculdade, não queria diplomas, não queria cargos mais altos, não queria aumento de salário, não queria vender as minhas horas em escritórios fechados e estressantes, não queria seguir a manada direto ao matadouro, Eu só queria as palavras, linhas após linha como é na estrada.

Eu não parava de pensar em mim e nos meus escritores e esquecia de escrever como eu, John. E nesse processo de querer ser como eles era o que me dava os picos de ansiedade. Daí para canalizá-lo, escrevia freneticamente breves anotações das histórias, lembranças, ideias e pensamentos que vinham na cabeça. Eram pobres. Pretensiosos mas preguiçosos, como linhas ansiosas pela sua próxima linha e desatenta no seu caminho. Palavras jogadas sob o teclado. Vômito. Um autêntico vômito incolor e sem cheiro. Segurava o caderno de notas, lia o que tinha escrito num desses acessos sobre o encontro do dia com China:

“sra. chinaski, musicista, tomamos umas brejas na brigadeiro, os dois queriam transar e era certo de que isso aconteceria. sem novidades. a vida monótona de ir para a cama com uma mulher depois da mesa do bar. comi seu cu. ela ficou enfeitiçada por mim, e eu por ela, só trocamos os momentos, eu antes, ela depois, de queimar”.

Viram? Puro vômito. Ah! a vontade de terminar logo o conto e escrever o próximo, e o próximo, daí ia anotando apenas as sinopses das ideias. Fazia isso desde sempre. Tinha acumulado uma pilha infinita de anotações e ideias e histórias somente começadas, assim como esta que você está lendo.

Porra. Eu era um Homem ou um rato? Na minha cabeça os livros estavam todos escritos e geniais, na vida real não passavam de anotações e começos de histórias sem pé nem cabeça. A merda da ansiedade me corrói a cada dia querendo mais e mais linhas. Querendo que eu lesse mais e mais livros. Querendo que eu conhecesse mais e mais coisas, mais e mais experiências, daí virou uma bola de neve e eu tentava para-lá para descrevê-la e ela me esmagava, rolando, rolando, batendo nas pedras, se desfazendo nas árvores. Cansado de pensar e ansiar, ia dormir. Ou fazer qualquer outra coisa. Não queria ver aquela tela branca pedindo por letras na minha frente. Quando não ia ler, conversava com uma guria, ou ia encontrar com elas. Bebia. fumava. Conversava. Transava. Seguia o protocolo. Pensando que assim conseguiria escrever o próximo livro milenar. John Di Gasperi. Uma mistura americana e italiana. Esse era meu nome e ele estamparia os livros ao lado de Buk, Miller, Nabokov. Ah, na escrita me sentia Arturo Bandini de J. Fante em Pergunte ao Pó, autêntico, corajoso, produtivo e adorador de sua auto imagem. Na vida real buscava ser como um buda, só que bêbado, não ligando muito para as coisas até se embriagar de ego. Daí vinha a pretensão no que escrevia, o bloqueio da alma. Quando ficava ansioso, também vinha o nervosismo, que atacava o estômago com crises de desinteria. Eram literalmente uma merda e merda saí do cu. No geral acontecia quando estava esperando para encontrar uma garota. Aquela sensação de primeira vez misturado com um tédio de estar repetindo situações que me deixavam bem momentaneamente, e depois do gozo vinha o arrependimento e a vontade de sumir, ficar sozinho no meu canto. às vezes fumar amenizava, quando não aumentava a ansiedade de fazer alguma coisa. beber entorpecia os músculos e acalmava os ânimos mas não era uma solução e nem remédio. parei de querer escrever, fui dormir.

 

Sra. Chinaski apareceu. Fomos procurar vinho barato. tínhamos no total de sessenta reais, trinta de cada. pesquisamos em dois mercados gourmets. mini extra e carrefour express. apenas uma catuaba de marca duvidosa, cinco reais cada. peguei duas. precisávamos de pelo menos cinquenta para o quarto. fomos ao bosque da praça da árvore e entramos no segundo hotel da rua. a moça correu para a recepção. um quarto de quarenta e cinco e outro de cinquenta. pegamos o mais em conta. os cinco reais de volta ao bolso. “vocês tem gelo?, um copo de gelo?” perguntei para a recepcionista “sim, sim, levamos no quarto…” ótimo, pensei. ninguém merece beber coquetel de uva com álcool quente. entramos no quarto. cheiro de produto de limpeza. bom. estava limpo. tínhamos o vinho. duas garrafas. o gelo chegou. nos entregavam as coisas num tipo de gaveta giratória. um trambolho no meio da parede ao lado da porta. fez um barulho de madeira rangendo quando girei para ver a encomenda. um copo dos grandes e cilíndrico de gelo. tinha muito gelo. tanto que dava para dividir em dois copos grandes que ficariam até a boca de tanto gelo. rasguei o lacre verde da garrafa. o líquido vinho sangue espumava a medida que eu despejava sob os gelos que derretiam tintilando, dançando, empilhados, um fez “track”, rachou. fumaça fria subia pela estrutura do copo. os gelos vão derreter antes de abrir a próxima garrafa, pensei, mais preso no futuro do que tudo. porra, a tarde era pra relaxar e deixar estar. prometi isso para mim. porra, porque não conseguia seguir o planejado? desabotoei a camisa lilas social, uma das minhas novas, nem tão novas assim. China se jogou na cama casualmente e foi desamarrando os cadarços do seu tênis preto. ela estava de meias pretas. era uma garota de fibra e moral, comecei a respeitá-la mais. nao tirou as meias. tinha os dedões levemente achatados para dentro como um joanete prematuro. ela tinha seus motivos para continuar calçadas apenas os pés, não á incomodei como faria com qualquer outra que estivesse de frescura comigo. fizemos um propósito “oh, vamos com calma, ok? devagar. aos poucos, temos cinco horas, bastante tempo, então, vamos aproveitar. beber, sao duas, eu disse duas garrafas, toma, você nem ta bebendo!”, disse oferecendo o copo gotejante para China.

“Nossa, essa parede é uma ilusão”, ela falou desolada, estava deitada na cama de barriga para cima e a cabeça pensa na beirada da cama. “é papel de parede, nossa cara… acabou a minha vida, aaaahhh, não é de verdade”, olhei pra parede. os blocos de pedra quebrados, sombreados, quase reais, ilusão de ótica. ri com ela. bebi um bom gole. matavamos a metade da garrafa. sóbrios. levemente alegres. pensos. lutando contra as chamas flamejantes do desejo expresso. tínhamos o mundo as nossas mãos e o estrangulavamos queimando cedo demais, atropelando o desejo grande hotel. a carne ansiava. a peguei de pé, enquanto fumava um cigarro de maconha na janela. a visão do seu quadril sentando com força no meu. porra, o sangue subiu. o tesão estourava  a cabeça do pau. senti o gozo subindo o muro peniano, prestes a jorrar e pintar de branco viscoso o céu do seu ventre, tirei-o para fora, vesti a cueca “vamos com calma…”, repeti “você não ajuda…” reclamei como sempre fazia transferindo a culpa para o outro, livrando o meu cu da jogada, um belo covarde este John Di Gasperi. “ahhh, cê que vem pra cima de mim, aí não dá…” ela retrucou dengosa. seu telefone celular tocou. ela pegou para ver e ficou ajoelhada na cama. aquilo era uma arma, irresistível para mim e a filha da puta sabia bem disso. Daí o sangue voltou a pulsar, aquela voz rouca e dominadora passava a ficar leitosa, ao meu dispor, e voltei a agarrá-la por trás. me posicionei atrás do seu rabo e encaixei moldando meu quadril baixo no dela, como cães e gatos fariam caso transassem. ela encolhida como uma concha, eu a rasgando a boca do rego. Ah! se tinha algo que John sabia fazer era meter em um rabo de mulher, e você não sabe como escrever isso me traz certa vergonha, sem ruborizar, mas um desconforto á minha moral intelectual e a garota em questão. mulher não era objeto ou carne, mas de quem importava isso no momento?

 

 

Escrevia trechos do que tinha acontecido naquela tarde. As imagens vinham como uma avalanche. O jazz de fundo, a garrafa de vinho na cabeceira da cama, o copo cheio gotejando na mesinha de parede, os bancos que sentava para escrever e China vinha esquentar as coisas, ajoelhada aos meus pés, bebericando o vinho e beijando me nas panturrilhas, coxas, virilha, abocanhando meu pau com o teto e paredes de sua boca gelados, refrescantes, e sentando ousadamente, tirando minha concentração do caneta e caderno que mal conseguia pegar, daquele jeito que pegamos e entramos na escrita, horas escrevendo, mas não, quando John Di Gasperi escrevia a mão, alguma coisa interferia a sua atenção e China e seu Chet Baker não me atrapalhavam, estava mais para um retiro do caos e das energias de São Paulo. Daí a caneta corria sob as linhas do caderno como se eu as dirigisse na estrada a noite, a luz do quarto apagada, a iluminação fraca apenas na cama, China falando “nossa, você escreve muito rápido, cara! que isso! nossa!”, aqueles elogios me soavam pretensiosos mas sabia que ela não fazia por mal. Seu signo leonino dominador se invertia numa submissão induzida, que ela te tronava em cima de suas costas, no caso de John Di Gasperi, cavalgava sua bunda dedilhando-lhe o cu, alternando os buracos, ouvindo jazz melancólico, parando para fumar perto da janela e molhar a garganta com o vinho.

 

 

China tinha planejado pegar um quarto com espelho no teto, mas nossas condições enforcavam o orçamento e a categoria decaia uns reais. No quarto tinha um espelho que também era uma espécie de quadro. o espelho-quadro tinha uma mulher desenhada nas fissuras do vidro, o pico de seus peitos demarcados por uma sutil e quase imperceptível meia lua, belos bicos, pensamos.

 

Cheguei em casa com fome. Destampei a panela no fogão, torci o nariz, Noah tinha feito sopa para o jantar. sopa. Abri a geladeira imaginando a peça de carne, temperada como só Noah sabe preparar, nada. Uma caixa de leite aberta, azeitonas, creme de leite e leite e moça, salame passado, uma garrafa de água á três goles de ficar vazia, tomates e limões num saco transparente na gaveta. Apostei minhas últimas fichas no freezer. Puxei com força a portinhola, as borrachas imãs se desgrudaram num assovio mudo “vruuuuuuuuupt”, um saco grande de batatas para fritar. batatas? á essa hora? muito trabalho e não me enchiam como uma peça de carne. Fui na minha tia na casa ao lado. Luzes apagadas. Apenas a do banheiro acessa. Bati. Os cachorros começaram a latir, primeiro um latido rouco, depois outro, e mais outro, daí estavam em uníssono “uauauauauauauau”.”psiiiu, vão dormir, calem a boca”, brigou baixinho com os cães,  eles obedeceram diminuindo o tom e o ritmos dos auauau, deitaram, ela girou a chave duas vezes e tentou abrir, fechada, abriu o trinco de baixo e outro de cima, nunca nos protegemos tanto dentro de casa na nossa bolha, pensei com meus botões flutuantes. Tinha acabado de sair do banho. Cheirava a perfume de sabonete natural. Não usava desodorantes e nem perfumes, “são fedorentos, prefiro mil vezes meu polvilho granado, não dá cheiro, e oh”, batia com a palma da mão debaixo do sovaco, “sequinho, não mancha a roupa, passa aqui e usa ele amanhã, bem melhor que esses negócios fedidos de espichar que vocês usam”. Entrei e os cachorros vieram, o Bob era serelepe, rebolava o rabo num tipo de axé, o duque era mais quieto e velho. Os dois foram retirados da rua e sabiam manter sua nova casa. “essa hora… o que você quer? devia estar dormindo,  vai trabalhar amanhã? “, ela perguntou rotineiramente bocejando, “sim… vou tia, tem carne aí?” perguntei abrindo a geladeira. Tínhamos essa mania feia e evasiva de entrar na casa dos outros e ir abrindo a geladeira e conferindo as panelas, sempre famintos, guiados pelo cheiro bom de mistura que pairava no quintal lá pelas sete horas da noite, quando Noah terminava de lavar a louça e começava a temperar o feijão e o arroz, “Joooooohn, vem provar o feijão…”, me chamava na beira do fogão com uma concha e um bocado para eu experimentar, aquele momento era o que mais sentia fome, e sentir o aroma e a textura do caldo enquanto ela estava cozinhando era mais apetitoso do que pôr no prato e comer. Provava e lambia a colher “não coloca ela de volta na panela que azeda…”, tsc tsc, mito isso daí, pensei,  respeitando sua ordem. joguei a colher na pia, “precisa de sal? muito salgado? “, ela perguntava mesmo sabendo que estava uma delícia e que tinha mãos divinas cozinhando, todos do quintal amavam sua comida. A disputa era injusta porque uma das minhas tias não usava tempero e a outra salgada muito pouco. “parece comida de hospital” diziam, com a boca cheia,  mastigando mastigando, triturando o frango frito, engolindo o macarrão, bebendo uma taça de vinho pra descer melhor,  glup glup, gostávamos de carne. Ela tomou a frente da geladeira e pegou um tapauer vermelho, “tem esse pedaço de bife, só temperar, alho e sal e fritar, faz lá na sua casa que ninguém vai mais mexer no meu fogão hoje, estava tomando meu banho pra ir dormir, cê devia fazer o mesmo,  fica até altas horas da madrugada aí, escrevendo… deixa pra escrever no outro dia, de manhã que é melhor,  tá descansado,  dormido…”, aquelas palavras, o sermão, os conselhos, todos os dias… “eu trabalho tia, lembra? “, “quando você chegar, então, não de madrugada…”, não adiantava discutir, os fundamentos dos mais velhos da minha família eram crostas permanentes e não havia escavação que chegasse aos seus cérebros, viviam bem assim, eu que não compreendia isso. Levei a peça de bife cru e uma panela de feijão. Temperei em casa com alho picado, limão e tempero baiano. Meus dedos cheirava a alho. Liguei o fogo do arroz, misturei com o feijão. Noah conferia o que eu fazia, “hummmm, quanta coisa você coloca, hummmm…”, “deixa eu fazer, mãe…”, pedia sem alterar o temperamento, era seu jeito e John compreendia perfeitamente, “tá, o óleo tá quente já,  não vai pôr a carne lá?”, “vou mãe, vou…”, respondi guardando o que tinha pego pra fazer a janta, “deixa, eu coloco!”, falou como se eu tivesse a decepcionado com uma promessa não cumprida, “tsssxiiiiiiiiii”, fez a cartilagem do bife entrando em contato com o óleo quente. O cheiro do alho subiu. “Bruuuough”, grunhiu meu estômago como um monstro das montanhas, podia sentir ele pedindo socorro, pedindo comida. Era um tipo de reviravolta no centro da barriga. o sulco gástrico queimando as paredes do estômago,  caso tivesse uma bela carne com fritas e suco ali esses estrondos estomacais não aconteceriam e eu estaria escrevendo. Fixei na cabeça,  cozinhar é escrever. E realmente era, para mim.

Antes de dormir, fiz umas anotações para não esquecer:

 

“Cinco horas de motel com china

Masturbando-a com os pés

Um penetrando, outro massageando o clitóris,

Ela quase caiu da cama

Esvaziamos uma garrafa de vinho e queimamos dois beques.

Ficamos de cabeças pendidas na beira da cama,

Os espelhos do hotel eram desenhados com uma mulher sensual que.mostrava um pedaço da calcinha

Parecia barroco mas era erótico no fundo no fundo, bem no fundo”

 

Elas continuavam parecendo vômitos. Uma massa sem forma girando no seu colo e suas mãos devem moldá-la ao seu gosto, dando forma, fazendo ganchos, ligando as linhas. Uma hora eu conseguiria. Lendo Bukowski, lembrando de China.

 

 

 

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