Green Dreams

Green dreams

Pingos cor de ferrugem no infinito negro do universo. o domo, uma camada transparente que separa a terra dos limites dos céus.

Quando a gente menos esperar, o inevitável pode acontecer, e descobrirá o que antes nem existia.

Será possível ou é um sonho?

acordei. chovia. os pingos caiam na lavanderia e na janela do quarto. um braço abraçava Zelda e o outro pendia tranquilo em cima das pernas brancas e carnudas da minha garota. as gotas beliscando o vidro como uma série de estalos úmidos de língua no céu da boca, fez meus dedos deslizarem as mechas que lhe caiam no rosto numa valsa até as costas das orelhas de Zelda. seu rosto branco, traços fortes, sobrancelhas expressivas, nariz pequeno e fino, lábios rosados, e sardas claras em volta da porta da alma de seus olhos, pareceu brilhar feito a luz do amanhecer. meus olhos arderam seguindo fielmente ao que via, a luz do novo dia, o despertar ao novo mundo, o sonho fora do sonho, meus olhos viam essas coisas, e seu rosto mostrava o caminho, feito um mapa escrito há vinte e cinco anos. apertei-a juntando todas as partes do seu corpo ao meu e Zelda suspirou em arfadas seguidas de ar com a quentura da minha pele em atrito com a sua gelada. afundou os dedos gelados no meu peito queimando como um gelo derretendo em você.

Tateei o tapete sem fazer movimentos bruscos, tênis, meias, fones de ouvido, carregador, humm, bloco de notas, maço, peguei. tirei um cigarro com a boca e acendi quase queimando a cara. puxei, carburou, traguei, soprei, uffa, ela não acordou. olhei as horas. números iguais. isso acontecia frequentemente e tinha algo de misterioso por detrás de tantas coincidências com os números. a cada tragada vinha um filme na mente com as lembranças da madrugada passando, flutuando, sumindo, retornando, horas nítidas com as cores e os cheiros e sabores daquele momento, hora embaçadas e confusas, atropeladas. terminei o cigarro.

Apertei o abraço respirando alto e bocejando e era como se o corpo tivesse descarregado a carga que trazia a vera. Ela esticou os braços, um por cima da minha barriga, o outro ladrilhando a espinha o que me fez endireitar a coluna. nos sentamos no colchão calma e lentamente como num ritual que já conhecíamos há muito tempo e ficamos de frente pro outro com as pernas cruzadas no meio das pernas. era assim que a gente ficava quando ia meditar. Zelda fechou os olhos. me preparei para aquele momento. deitou o pescoço para direita, estalou, para direita, estalou. pode parecer bobeira mas eu via a expressão serena naqueles nós sendo liberados, e daí fazia o mesmo em seguida.

Zelda arrumava o cabelo sem pressa, eu procurava o mantra no celular. som de cítara indiana. notas calmas, zen, como se estivessemos naquelas montanhas do himalaia ou na frente de um rio. nos aproximamos deixando o corpo rente, olhos fechados, a cabeça se esvaziando, concentrando na melodia suavizante e energizadora da cítara. os acordes tocando a alma.

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