a sexta tragada

A primeira tragada, a cabeça pesa, em cima dos olhos, as pálpebras parecem formigarem bem lentamente quase imperceptível, as coisas a sua volta começam a lhe chamar mais atenção, a musica é realmente boa de se ouvir por mais que seja a milésima vez que a escolho e que sinto os mesmos efeitos, tão iguais e tão diferentes ao mesmo tempo. Segunda tragada e as coisas só ficam mais lentas. O bom de fumar de barriga cheia é que a viagem da fome fica menos aleatória no estomago e sobe para a mente, mais concentrada, e daí vem o termo fazer a cabeça, ficar alto, viajar, brisar, chapar, tantos nomes que roubaram o significado de se buscar algo além de nós como sinais onipresentes do zunido do som, a musica tocando como se tivesse pausas sequenciais imperceptíveis e o ritmo é constante, dando uma esfera sonora permanente. a cabeça pesa de tantas coisas que chegam até elas, como a não subjetividade dos nossos pensamentos, e se parar por um momento para pensar em como estamos usando o nosso tempo e como essa ansiedade generalizada nos tem consumido de nosso corpo presente e dos jantares de frente a televisão, e o almoço engolido para ter tempo de passar no banco, e as conversas jogadas fora entre um cigarro e outro.

Segunda tragada, de repente uma agonia enorme cresce dentro do peito, e preciso fazer todas as coisas que tenho planejado fazer, isso numa escala de dia, semana, mês ano e piro por um instante, volto a realidade e ainda nem comecei a fazer nada, estou deitado com o bloco de notas no colo, pernas cruzadas no ar, mãos doendo de tanto escrever letras miúdas dentro das linhas do caderninho cheio de anotações, historias, contos pela metade, cronicas inacabadas, historias sem começo ou sem fim, sonhos, flashes de sonhos, ideias soltas e frases famosos de pessoas do cotidiano ou de algum autor famoso que tenho lido, e não pode ser ninguém menos do que jack ou buk, nomes para os meus personagens usurpados de livros sobre bebedeira, fumo, sexo, noites infindáveis nas ruas acesas pelo demônio chamado carne em becos e portas do pecado sedendo sedento pelo proibido, se afundando sem a menor vontade de submergir, se afogando em lagrimas secas da cidade da garoa De bar em bar, chutando pedras, o vento na cara numa tarde abafada ao invés das quatro paredes e aparelhos eletrônicos do curso. vagando por praças atras de cantos e picos vazios para fumar um em paz, sozinho ou com os amigos, companheiros junkbeats. Não gostamos muito assim das pessoas. Nos sentimos bem entre nós, mas as pessoas em geral tem algo de errado com nossa turma. Na rua, pessoas passam por você, e a primeira coisa que pensa é que esta sendo julgada, estão te OLHANDO, te ANALISANDO, te OBSERVANDO de longe e quando olha se escondem, estão te SEGUINTE e sabem que você FUMA, e que trás no BOLSO e com quem COMPRA. Corre para casa e se livra de todos os OLHARES curiosos que não pararam de te perseguir. Cada passo, e mesmo sob o olhar de terceiros usurpadores da privacidade social de uma bolha anti encaradas e pedidos de informação, momento encabulante quando não sabe a responder mas inventa algo para não dizer que não sabia e torce para não se reencontrar com a pessoa.

na terceira tragada está cantando, fazendo beets com a boca, os braços inquietos, pernas dançantes, o corpo mais leve, toda aquela comida deve ter ido para algum lugar, o corpo simplesmente flutua na gravidade e os pés ficam ágeis, e o pescoço mãos braços quadris querem se mostrar, quebrar, e mexer, seguindo um swing imaginário, reproduzindo os passos que se projetam na mente, graciosos, rindo por ter reproduzido da maneira exata em que pensou, ascende, suga, traga, filtra, solta, essa foi a quinta, senta, letras em quadrados pequenos alinhados, com números, símbolos, palavras em inglês, esc, home, end, insert, page up, print screen para fotos, scroll lock, num lock, ENTER. Dançando, neuronios, o sangue, as teclas, as luzes coloridas da musica, sons, repetições, palavras para o cenario sonoro, ritmo, batida, beepop, os velhos beats, os novos junkbeats, bêbados, comicos, hilarios, cinicos, engraçados, sérios, extrovertidos, elegantes, persuasivos, pervertidos, são vários os tipos, e todos reunidos em mesas de bar, festas nos confins das cidades, fumando por ruas longas, perdidos em praças, escadarias, calçadas, garagens, quintal, no inconsciente dos companheiros, conhecendo novos integrantes ou recebendo novas caras para a família. Como os hippisters nas suas convenções de rock psicodélico, alucinógenos, amores livres, a cultura do poliamor, bigamia da sodoma e gomorra moderna e cool, penteados diferentes da época, roupas mais confortáveis e coloridas, ideologias orientais, perspectivas aguçadas e questionadores das verdades universais e gêneros sexuais, biblioteca farta de vidas russas, francesas, alemãs, americanas, e as religiões, os malfeitores e benfeitores de outros mundos, a arquitetura emocional das velhas judias, os capitães de exercito americanos, os super agentes secretos russos, galantes escritores vagabundos, zanzando por paris á nova york atrás de um bar aberto, uma mesa nos fundos e um copo de cerveja que nunca secasse, a boca sempre seca, a barguilha por abrir, lençóis machados de suor, paredes abafando arfadas de ar suprimido em gemidos constantes, estalos de coxas e o urro do gozo explosivo eterno no meio da madrugada, “AHHHHHHHHHHNNNNNNNN”, olhos revirando, o branco, veias vermelhas, o sorriso pendendo dos cantos dos lábios, formigamento no quadril, deitada sente o leite molhando seu corpo por dentro, em cima, montado, a torneira jorrando por todos os poros, pernas queimando, flexionadas, na continuação pertubantemente rápida e explosiva dos quadris, batendo, batendo, batendo, jorrando, em múltiplos orgasmos recíprocos, como uma cena perfeita de uma transa de outro planeta, duas criaturas insaciáveis buscando o ponto máximo do prazer, predestinadas a darem suas vidas pelo caminho ao final do arco iris e o ouro, o premio, o tesouro, o êxtase infinito, o final da vida, a chegada, o termino de tudo, o findar de todas as coisas e o preenchimento completo dos espaços vazios do peito e da memoria, a tampa que fecha o caixão e abre o pote de sorvete, aquele sol na beira da água, cortando o horizonte em dois, mar e céu, e toda a extensão que seus raios alcançam e o quebrar das ondas como dos quadris, sincronizados, plock plock plock, estão ouvindo, sem pudor, escrúpulos ao leu, meu momento, nosso momento, momento tempo vento respeito, são apenas palavras, mas estar ali, dentro do ato, no meio de uma ação, provocando reações e você sabe, vivendo, ali é que tem sentido, não gramatical mas experimental, é possível tocar na sensação e senti-la, e os junkbeats são poços de sentimentos a caminho da sexta tragada.

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