Estrada

Eu deixo você escolher o que quiser, mas meu salario é oitocentos e oitenta, então pega leve, foi o que ela disse, e se eu fosse dizer o que eu quero, não só daria com seu salario como com metade dele, ou sem nada no bolso,  precisaria apenas do interesse e a vontade verdadeira de descobrir, afinal, o que é que eu quero. AH! Sim! Eu já descobri mas vou fingir que não, é mais legal assim, ela retrucou, rindo como quem sabe de todas as manobras da humanidade. Descobriu? Indaguei impressionado. Sou mestre em descobrir as coisas, quer dizer… não… ela soltou, menos confiante do que antes. Humm, vamos ver, me descreva alguns exemplos embutidos nisso que eu digo querer, desafiei-a a uma partida de exploração, mesmo nem eu sabendo ao certo o que queria. As variantes são tantas, posso querer de tudo um pouco, e como você, leitor amigo, não sabe de bulhufas nenhum de quem é ela, e nem do que eu guardo comigo, fica nessa duvida mortífera, tentando descobrir o que é esse desejo, e de certa maneira sua cabeça já deve ter percorrido nos alhures da safadeza, imaginando nós dois num canto da cidade, fugindo dos olhares, se concentrando nos nossos próprios cus, e olhos, e bocas, e toques, e não é um querer material, eu quero descobrir, conquistar, tocar – ela dizia. Continuando com a mesma entonação na voz, cada vez mais convicta: é um querer por enquanto leve, digamos, os motivos reais eu ainda não sei, sorriu, sei é deixar as coisas no ar, assim como você fez, mas da minha maneira.

                Engraçado como os flertes induzidos são mecânicos e ao mesmo tempo crus. A vontade está ali, em um ou em outro, até mesmo nos dois, só que ninguém coloca as caras, as cartas não são postas á mesa tão rápido. Nós humanos, desenvolvemos uma característica muito forte e universal de contracenar, ou melhor dizendo, enrolar, a grosso modo falando “encher linguiça”, e é o que nos fascina, o processo até chegar ao objetivo, e se caso não conseguimos chegar, ficamos ainda mais interessados, porque a rejeição nos instiga, pensamos “porque raios não somos suficientes?” e essas perguntas nos movem e nos levantam. Daí vem a reciproca, dita por uma boca só, fora das regras de uma vontade mutua, um conjunto de um só. Como o exercito que se formou pra chegar aqui. E o querer vai ficando afinado, mas resguardado nas surpresas de uma das partes, pra manter o valor e não escancarar assim, tão cedo pra quem logo aparece e decidi levar, onde é que assino? Eu perguntava antes, com outras mercadorias no mercado das afeições. E lapidando o meu querer dou de cara com um bem precioso, mas a que nível de preciosidade? Que traste eu me tornei! Que crápula! Competidor sacana! Querendo rotular tudo, e gritando por “fim aos rótulos”, na pura hipocrisia que vi no meu berço, e não estamos falando a mesma língua. Ela responde que todo querer é precioso, mas na verdade quero saber se o que eu quero é precioso para ela?

                Caro leitor amigo, não só é precioso como o que quero não é todo mundo que quer, mas é precioso porque ninguém conseguiu, e isso muda tudo, pra quem vê as diferenças e dá atenção á elas muda tudo. E não sou o primeiro, tem os que acham que conseguem, risos aos montes, mas todo mundo tem ilusão, porque a ilusão faz parte do show da nossa felicidade. E será que tem como achar que conseguiu sem sentir que conseguiu? Ah! Mas não dá pra saber quando nunca foi sentido, só ilusões é o que ela pode se basear e isso cria uma folga, um espaço pra “silêncios e não respostas”, ou se joga logo nesse caminho desconhecido e descubra o que é que está por de trás desse querer tão instigante.

                Me pergunto, e se algo maior do que nós, tivesse criado o dialogo, pensando no exato momento em que entraríamos em tais assuntos, dando a cada um a experiência de vida que lhe coubesse, mas que a falta ‘de’ não fosse um cadeado para haver expansões de todos os níveis que pensar. E se isso fosse o passado de algo do futuro que já fora feito, e estamos só discutindo, sem ver a trilha invisível que fora traçada antes de nós termos consciência sobre trilhas, e a duvida permanece enquanto não houver certezas sólidas o bastante pra aguentar o impacto da primeira vez. Então, ela responde séria, esse algo maior vira esperança, é uma coisa grande, mas lhe pergunto, de qual tamanho? Ah… como responder? Talvez daqui até o Japão, quem sabe?

                Aceitar é fácil. Difícil é se calar quando vemos as injustiças. E lhe disse apressado “tão grande como uma volta ao mundo, mas e se no caminho nos perdêssemos?”, o que não é improvável se veres o meu histórico.  Sou Japão, e vim de longe pra cá. Encontrando uma casa pouco visitada, e ali me sinto em casa. Penso em alto e bom som “com certeza farei da minha estádia, algo que iremos querer prolongar”, e observando no canto escuro do meu alojamento dentro de você, vejo as bagunças que os visitantes passageiros fazem. Ela confessa não receber muitas visitas, e eu de que não tenho casa, me sinto ganhando uma competição babaca que só eu concorro. Ela vive se mudando e se sente cansada. Nem mesmo as minhas noites geladas e duras são cansativas como as que ela vara com a esperança distante. E se ela ficar parada, a esperança, num ponto fixo, e nós que corremos atrás dela, chegando próximos, tropeçando, caindo, e nos distanciando, nos perdendo, mas nunca parando de procurar, e o que é encontrar? Ela diz “é o querer disfarçado, se querer muito, sonha em encontrar, ou talvez seja se encontrar, pra querer algo…” aquele silêncio eterno “essa é uma pergunta bem difícil”, e o que é fácil? Sonhar é fácil. E são tantos sonhos que não consigo colocar aqui. Mas você acha que tenho? E ela responde docemente “tem muitos, e estão todos guardados, porque está sem casa!”, e o que mais quero ir pra ela “quer vir pra casa?” o coração pede, “cansou da estrada?” ela se questiona. É que de tempos em tempos temos que parar para abastecer, dormir, encontrar alguém pra dividir o volante, pra não nos deixar dormir na estrada, e quem sabe conhecer outros lugares? São tantos. Quer pegar a estrada?

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