Aí Cunha, prende esse menor!

Tinha uma chamada para a zona sul. Os meus parceiros policiais não gostavam de ir atender na sul. Tinha muita criança e muitas mães, geralmente morriam em troca de bala e sem contar os adolescentes, quase todos confundidos com bandidos. Mas como é que a gente se defende depois? Escrevemos relatórios falsos pra dar uma amenizada, poxa, todo mundo erra!

Vesti minha farda e coloquei o revolver na cintura. Era dia de exterminar mais um menor infrator. O tenente Mauricir veio junto de nós, estávamos em cinco para prender apenas uma criança de seus doze ou treze anos.

– Não quero ver agressão física. Se der vontade de atirar, mira para o alto, mas não derruba nenhum menor! – Disse Mauricir.

– Essa molecada ta precisando de uma sova. Não quero sujar pro meu lado eliminando ninguém, mas da pra dar um choque. – respondeu o cabo Jeremias.

– Cheira aí ó – ofereci o pó – fica relaxado, não vacila, temos cinco processos administrativos pra responder e não vamos ganhar o sexto hoje não!

– Porra, passa isso pra cá, tem cartão aí?

– Tenho, ta em um dos bolsos – remexi na farda.

– Vê se dá a senha também.

Todos nós sorrimos um pouco encabulados. O clima de operações envolvendo menores sempre nos deixava tensos. Éramos o quadro de policiais que menos abusava do poder diante dos menores infratores. É difícil entender que eles são as vítimas primitivas quando estamos no conforto de nossas casas vendo o mundo pela tela do celular.

– Caralho, chegamos, chegamos. Linha de formação. Victor, vai na frente e fatia as esquinas, Frederico vem logo atrás na espreita, não deixa nenhuma janela passar despercebido. Parece que o meliante está em uma das escolas  descendo o morro, ele tem comparsas.

– Me passa a munição! Munição! – gritou cabo Jeremias.

– Porra, não carregou na base? Não da tempo, vai, vai, vai!

Saímos do camburão e entramos em formação. Cada segundo desperdiçado era uma vida indo embora pelo ralo. Corri para o front da equipe e fatiei as vielas. Tinha as mesmas pessoas de sempre: moradores acostumados com a ação da polícia e senhoras assustadas com as armas, mas ninguém fazia barulho algum, essa era a cultura deles, a invasão da parte branca e correta da sociedade.

Contornei a quadra de futebol, mas Jeremias entrou nela. Os garotos pararam de jogar bola e ficaram imobilizados, o filho da puta apontava a arma para todos os jogadores mirins.

– E aí seus trombadinhas, cadê o mineirinho? Cadê? Quem acobertar ele ta fudido!

– Vamos seguir o plano Jeremias, porra, não sai do foco! – exclamei.

– Fica sussa aí, esses merdas vão entregar ele, espia só!

Jeremias avançou no menorzinho e o colocou de joelhos. O garoto nunca tinha se envolvido com o crime e sonhava em ser bombeiro. Ficou calado e obedeceu as ordens do cabo.

– Você! Você é amigo do mineirinho não é?! Anda, porra, fala aí, cadê aquele verme? Fala!

O menor, chamado Inocêncio se manteve calado, os seus amigos o olhavam angustiados, esperando o pior.

– Fala logo seu lixo! Cadê aquele filho da puta?!

– Vamos logo Jeremias, a formação está entrando na boca, vai ser suspensão na certa pra você.

– Foda-se, eu tomo essas suspensões toda semana, Mauricir não vai com a minha cara. Não tem porque continuar nessa de seguir a linha, não consigo nem pagar todas as fraudas da minha filha.

– Porra… – Corri para se juntar a formação a tempo.

Jeremias me viu correndo e se enfureceu ainda mais, deu uma coronhada na cabeça do menor ajoelhado. Inocêncio caiu no chão inconsciente e sangrando, sua língua revirava na boca e seu corpo fraco estava tremulo. Jeremias ficou encabulado com a convulsão do menino  e seguiu meus rastros. Os garotos não tinham celular para ligar para a ambulância. Adeus Inocêncio.

Alcancei os outros e tomei a frente. Frederico me entreviu:

– Estou no comando agora, Victor. Você sabia que se abandonasse o a formação novamente iria perde o posto, agora fica no meu resguardo, não quero levar tiro, porra!

– Que se foda a formação, o menor está na biblioteca municipal. – respondi.

– Como assim, caralho? O esquema diz pra entrar nas escolas.

– Não, não, escola não, é na biblioteca.

– Não vamos mudar de foco, Victor, você só atrasa.

Baixei a cabeça e me segurei para não continuar a discussão. Apalpei o bolso e tinha munição o suficiente para me virar sozinho.

– Mantenham o foco, vou por aqui – avisei a eles – retornem se possível.

Me separei do bando e desci os escadão. Dei de frente a biblioteca, Jeremias seguia meu caminho há poucos metros de distancia.

Entrei no sobradinho reservado pela prefeitura para despejar alguns livros e colocar profissionais pouco remunerados e dei carteirada. Fui liberado apressadamente e vasculhei pelas salas, o menor estaria por ali. Jeremias me alcançou.

– O que ta fazendo por aqui? O menor não ta em umas das escolas?

– Não! Vi uma mochila e alguns livros na quadra, na mochila estava marcado com corretivo “João Falcão”. É o nome do menor, você leu o relatório de antecedente?

– Porra, quem é que lê aquilo?

– Me segue, vamos encontrar ele.

Seguimos pelo corredor sem fazer barulho. Tinha poucas crianças nas salas recreativas. Os funcionários olhavam pra gente e ficavam assustados. As crianças mantinham a atenção no orador, estranhei.

Sobrou uma única sala, onde estava mais cheio. Verifiquei a posição do revolver e Jeremias veio no meu encalço, com a arma engatilhada na mão. Dei sinal com os dedos para ele, um, dois… três!

Fatiamos a sala mirando em todos os presentes. Professora, garotas lendo, uma equipe de emissora, entrevistadora, crianças numa mesa redonda e um entrevistado. Fiquei atônito com minha aparição brusca. Ninguém nos notou.

A entrevistadora fazia perguntas sobre a literatura que tratava da cultura africana referente ao racismo no Brasil para um aluno negro e ele respondia com muito domínio e clareza.

– Você já conhecia outros contos africanos? – perguntou a entrevistadora.

– Eu já conhecia outras historias africanas. E gosto de ouvir e escrever histórias desse tema, porque se eu sou mesmo afro-descendente, esse afro é firme na sua luta, e mesmo que não pareça a moral como nas fábulas, tem uma moral ali escondida, que você pode tomar pra você, sendo negro ou não. Isso te torna forte e humilde, te ensina a respeitar os outros assim como a gente deve ser.

– E você acha importante esses contos que trazem todos esses ensinamentos pra combater o preconceito?

– É importante porque aprendemos a respeitar e entender que ninguém vive sozinho, ninguém pode viver isolado. Todo mundo que tá em um conjunto, em uma equipe bem grande, pra a gente poder combater o preconceito, combater a fome, combater a falta de oportunidade do morador de comunidade. No mundo sempre vai ter alguém rascista com opinião diferente, e isso eu gosto de sempre aprender mais, não pra você debater com pessoas, mas você mostrar pra ela como que é você ser negro do ponto de vista, mudar o ponto de vista da pessoa pra como você se vê.

– Mas isso não te torna fraco?

– Você saber pedir, você saber respeitar, não é você ser fraco. Ser fraco é você não pedir, não respeitar, não ajudar pra não parecer fraco. Isso é ser fraco. Por isso que nunca é bom ser arrogante com as pessoas, nunca é bom você tentar debater com a pessoa pra deixar ela no chão. Você tem que fazer a pessoa ter o seu ponto de vista. Entendeu? Isso que vai mostrar pra pessoa “ah você é negro e você é isso…” não: eu sou negro mas eu tenho dois olhos, dois braços, duas pernas, dois rins, um pâncreas, um figado. Tudo o que você tem. a unica coisa que muda é a cor da pele e a personalidade. Porque o caráter é a unica coisa que quase nada pode mudar.

Jeremias não se atentou as palavras do garoto e logo notou que era ele o alvo. Engatilhou o revolver e mirou em João. Me virei para trás e pulei no encontro dele, mas não alcancei antes que ele apertasse o gatilho.

– NÃO!!!!! – gritei.

Caímos no chão, Jeremias estava nervoso e sem reação. Sua arma não atirou, ele estava sem munição e uma gota de esperança para um futuro melhor havia renascido.

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