Infelicidade

Eu não imaginava que fosse viver algo tão marcante assim na minha vida. Aprendi que devemos acreditar, e nunca desistir de acreditar naquilo que almejamos, pois não há ninguém mais indicado para ir atrás dos nossos sonhos do que nós mesmos, os pobres sonhadores, e o meu sonho foi este…

7 de Fevereiro, era o meu primeiro dia de trabalho, logo em uma sexta-feira calorenta. Minha entrevista de dois dias atrás não tinha sido tão difícil, na verdade, poucos dias depois de minha prima Vivian – professora da Escola – ter me indicado, eu fui chamado sem precisar de requisito algum. O trabalho não era dos mais fáceis e nem comuns. O cheiro diante aos serviços costumeiros poderiam ser fortes, as cenas desagradáveis e o psicológico deveriam estar preparados para o que der e vir, mas como nunca recusei nenhum desafio, acabei aceitando, e a vaga era minha!

Fui apresentado para a Professora Munisa – escrever o conto da Monisa -, uma autentica figura esbelta, de cabelos curtos, encaracolados cor de madeira, extremamente comunicativa e alegre. Se eu disser que ela não me cativou nas primeiras conversas que tivemos estarei mentindo, a mulher era baixinha porem de uma grandeza formidável. Em suas primeiras palavras, lembro-me que me advertiu sobre os regulamentos severos da Escola, e de como os alunos eram exacerbadamente alterados em certos momentos. Fiquei assustado no começo, mas no decorrer da historias será possível notar a minha adequação no meio daquele novo mundo que chamamos de “maluco”.

No meu primeiro dia fui requisitado para desenhar um cenário infantil na parede de uma das salas. Eu era dotado de um dom incrível para desenhar, tudo ganhava forma em minhas mãos, e não deixaria de lado esse meu lado útil, talvez o único que eu pudesse exercer naquele momento. A professora dessa sala era a agradável Célia… ou Lucélia, não me lembro muito bem. Loira, com seus quarenta e poucos anos, me lembrava muito minha mãe, que também era loira, e também era uma chaminé ambulante. A loira era espírita me ocupei muitas vezes com seus assuntos religioso, e confesso que passei a me interessar mais por espiritismo depois de todas as conversas nas tardes longas que tive com ela. Tão tranquila… reclamava de uma forma amistosa e sem preocupação sobre suas dores na coluna e de quanto queria sair daquele trabalho, talvez trabalhar com crianças normais, quem sabe? Para ser gentil eu sempre consentia com a cabeça, sempre afirmando, mas no fundo eu achava uma chatice aquele papo de dores no corpo e insatisfação constante. Pensava eu que quando alguém esta insatisfeito com algo, o que deveria ser feito é a solução do problema para cessar a reclamação e priorizar o bem estar de si próprio, e não apenas reclamar e reclamar, enchendo a cabeça dos outros de nossos problemas. Mas, coitada… sua sala era afastada de todas as outras, e seu jardim no quintal não era um dos melhores atrativos, as flores estavam todas secas e sem cuidados, o jardim tinha mais um ar “fantasmagórico” do que de floresta encantada.

Sorriso. A morena Paula tinha um dos sorrisos mais brancos e bonitos que eu já vi. Sua pele era de um tom escuro, brilhante, como se tivesse passado algum creme, e seus músculos eram bem torneados, posteriormente fiquei sabendo que ela se dedicava bastante nas seções de exercício da academia. Sua desenvoltura era de tirar o meu fôlego, sempre que passava por mim, com presa, seu rabo de cavalo que prendia fios pretos quase azuis, balançavam, ziguezagueando meu queixo, como se tivesse hipnotizado por sua imagem. Oh morena… porque nunca olhou para mim? Será que era porque peguei muita amizade com ela, e contava sobre minhas experiências passadas e ela as suas? Eu devo ter caído na famosa “friendZone”, traduzindo: virei teu amigo, e iria continuar no campo da amizade.

Tardinha. Os poucos feixes de Sol atingiam o final da sala, onde ultrapassava o vidro da porta entreaberta, num tom tênue alaranjado. Eu estava lá, fazia algumas horas, desenhando alguns personagens dos filmes infantis “Rei Leão, Madagascar e Rio”, para quem apreciava de longe poderia imaginar que fosse uma tarefa simples, desenhar aquelas criaturas enormes na parede e depois ainda pintar, seguindo fielmente a cor de cada um, até mesmo porque não teria sentido usar cores diferentes, estragaria minha obra-prima – a mesma que acabei tendo que apagar com muita dor no coração meses depois – caso tudo desse errado, eu iria ser desenhista e já estava decidido!

– Toc Toc – alguém bateu de leve na porta de madeira que se encontrava aberta.

– Quais são esses personagens…? Acho que conheço eles – disse amistosamente.

– Sou pago apenas para desenhar, não posso lhe dar mais informações – sorrimos os dois.

– Você tem talento em garoto? Já sabe em que sala vai ficar?

Ela era de uma forma simples e robusta, mas bonita. Do meu tamanho, ou menor… e estava puxando assunto diversas vezes, isso era um bom sinal – alguém gostava de falar comigo – eu estava fazendo amizade com facilidade no meu novo trabalho.

– Ainda não sei, mas parece que irei auxiliar em todas as salas que precisarem – respondi tranquilamente, sem demonstrar a aflição que sentia pelo que poderia vir pela frente.

– Ah, é verdade, ira auxiliar todas nós.

O dia seguiu tranquilo, apenas com o desenho a ser feito, e algumas conversas de apresentação com o resto das professoras. Os alunos chegariam à segunda-feira da próxima semana, e eu não sabia o que esperar. O medo e a ansiedade eram completamente visíveis no meu rosto e isso era motivo para todas rirem, e eu as acompanhava rindo também, para descontrair e entrar no clima. “Quantas mulheres! E as alunas… será que são bonitas?” Que audácia era a minha… não deveria pensar que poderia existir beleza física naquele lugar, não naquele lugar, não naquela Escola.

Depois de conhecer quase todos os alunos, comecei a entrar naquele mundo deles, entre os autistas acabei me identificando, passei a imaginar que nos compartilharmos do mesmo mundo, um lugar diferente onde todos riam de nos por sermos diferentes, e nos riamos deles por serem todos iguais. Tinha também uma aluna com síndrome de down, uma graça. Com um pouco mais de um e trinta, era uma senhora com cara de sapo, que andava com as mãos para trás como um mordomo, e sempre brava. Fui descobrir depois que os síndrome de down são extremamente nervosos, e não podemos repetir muito as palavras para eles não ficarem nervosos e estourarem… mas imaginem o que eu mais fazia? Era incrivelmente engraçado ver ela brigando comigo, quando eu pedia para que ela fosse lanchar “– Eu vou comer sim, obrigado; já disse que vou comer, que saco, fica quieto!” ou então quando eu perguntava se ela já tinha terminado sua lição “- já acabei professor; sim, já acabei; para de encher o meu saco!”. Eu me lembro que ela tinha uma mania muito engraçada de abrir a boca e falar algumas coisas bem baixinhas, como se só ela ouvisse. Imaginava que ela falava sozinha, e estava certo, além disso, quando estava em seus ataques de raiva, dizia muito sobre “loró” “- para de gritar, parece loró; como você é chato parece loró; – ou apenas – parece loró”. Suponho que escrevendo essas falas da senhora Diva não seja tão engraçado quanto quando eu as ouvia pessoalmente, velhos tempos…

José Carlos Junior. Guardem bem este nome. O aluno mais terrível daquela escola. O mais birrento e mimado, que me presenteou com muitos hematomas. Como eu poderia deixar ele de lado? Jamais. O meu amor pelo Junior cresceu de forma gradativa e estranha. Estranha porque ele sempre judiava de mim, com suas cóleras de loucura, raiva e violência. Mas eu sempre entendi que era o problema dele… autista com um grau alto de ansiedade. Não podíamos falar data alguma que ele ficava no encalço até aquele dia chegar. Sem contar que ele era super inteligente, lia que era uma beleza, e estava bem a frente de quase todos os outros. Um gênio em um corpo e mente limitada. Queria tanto poder tê-lo tirado daquela prisão, porem pode ser que ele fosse feliz daquele jeito. Do seu jeito. E tristes somos nós, infelizes.

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