Carmelita [2]

Parte dois

Peço desculpas se me prolonguei com a irradiação e réstia solar, mas meus olhos ficaram lagrimejantes e pensei até que nunca mais veria, ficaria cego por toda eternidade e teria de usar aquelas muletas retrátil equipadas nas pontas, ou ate mesmo um cão guia, ou na pior das hipóteses, iria depender dos guias humanos, os humanos… Ah, mas nessas criaturas eu não confiaria, não depois do meu súbito e oculto martírio.

Em cima do muro com as pernas presas ao concreto e uma das mãos se apoiando, cocei os olhos, esfregando o dedo indicador dobrado em forma de caracol, o meio do glóbulo ocular, pressionava e esfregava de forma que parecia estar acelerando uma moto, porem nada adiantou para melhorar, sendo assim estiquei o mesmo dedo e com os outros ainda dobrados, de forma que apontava para meus olhos, insisti em coçar, agora aplicando variados golpes de mortificação, trazendo minha visão de volta, e nesses momentos eu me sentia como um oculista que resolveria todos os casos de cegueira da minha cidade.

Tirei minha mão de apoio e levei aos olhos, permanecia na execução do método eficaz para aqueles reflexos indesejados que eu mesmo causei e escutei o som de carro velho se aproximando. Ele fazia tanto barulho que poderia parar a qualquer momento, mas não parou, percorreu toda a subida e parou em frente ao meu portão. Tirei as mãos dos olhos e espirei, lá em baixo, em frente à garagem e o portão, parou bem ali, assim como meus tios param quando vêem nos visitar, seria uma visita então?

A porta se abriu devagarinho, e eu apertei os olhos para tentar enxergar, aquela brincadeira me tinha desfocado totalmente, e com dificuldade vi uma sombra não muito alta, de lindos cabelos flamejantes rodopiarem e se materializar logo á baixo de mim.

– olá garotinho, ei, garotinho?! – gritou a sombra.

Eu era de extrema timidez, mal falava com meus familiares e amigos, quanto menos com estranhos, deixei-a chamar, como se não fosse comigo.

– garoto! Com licença, você poderia me ajudar? – a voz continuou.

O tom não era grosso, nem grave, era suave e parecia de mulher, senti uma ponta de solidariedade, mas a exterminei, falar com estranhos era contra as regras, deixei que me chamasse até se cansar e ir embora.

– ei garotinho, por favor, olhe aqui… Me chamo Carmen, agendei uma visita aqui, por acaso não é aqui que tem a casa para alugar. – ela parou de falar e verificou sobre todo o muro – ali esta! A placa de alugue-se, bom, acertei o endereço, o mocinho poderia por gentileza me ajudar?

A conversa realmente era comigo e eu poderia ser tímido e ter um bloqueio para responder, mas o que me impedia de simplesmente deixa-la falado sozinha em busca de ajuda ainda era maior. Tomei coragem, enchi o peito de ar e soltei demoradamente, enchi de novo e soltei um pouco mais depressa, meu corpo começou a descongelar, e virei o pescoço e o inclinei para baixo, queria ver o resto de quem me afortunava logo nas minhas pesquisas solares.

Não acreditei, apenas não acreditei. Meus olhos que estavam embaçados de repente vislumbraram um anjo, olhei para o céu e as nuvens corriam com toda sua pouca velocidade, e uma delas tinha formato de olhos e nariz, com sobrancelha e tudo, voltei a fita-la, petrifiquei novamente.

– Oi, vai me ajudar? – insistiu uma ultima vez, já quase nervosa.

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