Anônima

Eu nunca passei de um pobre vagabundo, bêbado e perdido pelas ruas solitárias de São Paulo. Minha vida era apenas sentar-se à mesa de um bar e esperar até que eu apagasse de bêbado e no outro dia acordava a vassouradas.

– sai da minha calçada seu vagabundo!

– já estou saindo minha senhora, não precisa bater.

Existem pessoas que pensam que a vida de um vagal é simples e fácil, estão completamente enganas, não há ninguém no mundo que apanha mais do que a gente. E o pior de tudo é que nosso cu fica a mercê, Deus tenha pena de nós e olhe pelos vasos duros de quebrar. Bêbados, crianças e prostitutas, os que mais precisam de proteção.

Pode parecer engraçado e até mesmo clichê o que eu quero dizer aqui para vocês, uma paixão heterossexual e avassaladora, igual a que todos nós vivemos pelo menos uma vez na vida, talvez não, depende dessa intensidade ao qual eu quero relatar.

Garrafa de Corona Extra cheia em cima da mesa. A luz estava acesa, meus sapatos fediam, eu não sabia o que fazer para comer. Minha barriga roncava e a única coisa que tinha dentro da geladeira eram ovos. Me levantei e fui até o freezer, nada de latinhas. Voltei para o sofá e me joguei. O calor me corroia de dentro a fora. Tomei um gole de cerveja e fechei os olhos. Nem dormir era possível, os vizinhos reservavam os finais de semanas para fazer todo o barulho que conseguissem.

Vesti meus sapatos furados e coloquei a garrafa de baixo do braço, bati a porta e ganhei as ruas. Os faróis estavam todos fechados e garotos negros jogavam bolinhas coloridas para cima presas a uma linha minúscula e quase invisível que as deixavam em sintonia, era uma boa maneira de se ganhar dinheiro em nome da arte e do equilíbrio, eu precisaria de uma dessas enquanto estivesse de porre e tentando recitar um dos meus poemas porcos.

Radiei o quarteirão e não tinha nada de novo. Não conseguia escrever em casa, não tinha mais bebida na geladeira, nada no bolso, o final da minha existência chamada vida, que fase. Em outros momentos iguais a esses eu estaria me deliciando em algum bordel pela Augusta, nada que fosse ruim, muito pelo contrario, tinha saudade daquela época, a vida era agitada, não tinha nada de importante para se preocupar e nem paginas para preencher de palavras vazias quanto minha barriga. Ovos? Quem é o maldito que consegue viver só de ovos?

Olhei para cima, o sol era o meu maior inimigo. As gotas de suor me escorriam pela testa, contornando meu nariz de coxinha, descendo pelos lábios e salgando minha boca. Merda, logo precisarei de um banho, mas estou tão longe de casa agora. Esse era um daqueles momentos em que lembramos do nosso lar doce lar. Pensar que na época do bukowski, lá pelos anos 40, a época da depressão, durante a segunda guerra mundial. Então, com toda certeza, o que eu entendia sobre depressão não se comparava a fome mundial e a falta de desemprego que aquele povo passou, amém.

Vi uma livraria do outro lado da avenida, decidi atravessar. Me aproximei e logo na vitrine adivinha o que eu encontrei? É claro que não é um fardo com seis latas de budwaiser geladas, mas o meu ultimo livro “morte as xoxotas”. Fiquei feliz, realmente feliz, não tinha visto aquela linda capa em formato de buceta pessoalmente, o pessoal da editora tinha me dito que iam caprichar e os filhos da puta tinham palavra mesmo.

– vou entrar, pensei. Terminei o restinho da minha garrafa e estraçalhei na calçada. Minha visão não estava das melhores. Esbarrei em uma estante de livros de auto-ajuda, e fiquei na eterna questão: quem diabos colocou essas merdas aqui dentro da livraria? Não é difícil de distinguir as pessoas que lêem livros de auto-ajudas e as que agem por si própria sem precisar de algum escritor engomadinho, metido a sabe tudo ordená-las a resolver os seus próprios problemas, com técnicas mirabolantes e suficientemente novas para o nosso cotidiano.

– posso ajudar? – me perguntou o ajudante da livraria.

– pode sim, dá o fora da minha frente.

A garota que sempre me atendia se aproximou.

– deixa ele comigo Caio, eu cuido disso, não tem problema, tem uma garota na ala de literatura estrangeira, vá vê se ela precisa de algo, ela estava procurando por Victor Vitoriano, parece nacional.

Sorri com a maior naturalidade do mundo, aquela humildade que o egocentrismo oferece para um escritor. Fixei os olhos na Josi – a atendente – e toquei-lhe o queixo.

– quando é que vou ganhar seu beijo, hein?

– quando tratar meu amigo melhor, o que acha de começar por aí?

– aquela bixa? To fora, ele me olha parecendo que quer me comer com os olhos.

– Caio é muito respeitador, e eu te garanto que ele não teria a capacidade de fazer isso.

– e você, teria?

– eu já te disse que não gosto de álcool e você esta sempre fedendo cerveja ou whisky, isso quando não entra fumando aqui dentro.

– o que seria das suas tardes de domingo sem minha presença fedorenta, baby?

– realmente nãos seriam tão boas. Alias, qual o teu nome mesmo?

Olhei para a estante de livros nacionais e vi meus livros antigos, o meu nome estava bem grande estampado em branco, qualquer um podia ver, mas não seria justo fazer isso.

– meu nome é Victor, e o seu é Josi, sem cerimônias. – estendi a mão.

Ela tocou e balançou suavemente.

– mas é Victor de que?

– Vitoriano! – disse uma voz feminina e aguda atrás de mim.

Me virei surpreso por terem me reconhecido, e me deparei com uma pequena garota de cabelos longos e nariz fino. Ela sorria de orelha a orelha e segurava meu ultimo livro nas mãos.

– estou apaixonada por esse livro, vou levar, quero autografo!

– eu… eu… eu não sabia… – balbuciou Josi.

Caio me fitava de longe, vermelho de inveja ou seria ciúmes da pequena leitora?

– claro, as suas ordens, baby. Você bebe?

– não bebo, mas posso te pagar um cerveja, vamos?

Deixei os dois atendentes e ganhei as ruas novamente. O sol continuava queimando lá de cima, mas a depressão não era mais eficaz. Ainda existiam momentos que o jogo virava, e eu estava nessa partida.

Fomos ao bar mais próximo dali. Drink Nigh Club. O aspecto dele era pesado para a garota, mas eu estava com muita sede pra pensar nesses detalhes.  Mulheres dançando, cafetões de olho nas suas garotas, bandidos de alto nível rodeando o bar e facilitações sexuais na pista buscando negócios, e nós sentados numa mesinha no canto, como que se estivéssemos escondidos.

– legal esse lugar, mas eles só vendem bebida alcoólica?

– eu acho que sim baby, vou pedir minha cerveja, eu to duro, não esquece.

– eu sei, fui eu que chamei, não se preocupa, beba quanto quiser.

Chamei o Hank, o balconista e garçom além de amigo meu. Cuidava do bar enquanto seu pai estava internado com suspeita de câncer. Hank era como um irmão mais velho que eu nunca tive, me dava os melhores conselhos e me conhecia como ninguém. Chegou na minha mesa com a garrafa de Bud, não precisava nem pedir.

– obrigado Hank, você é o cara.

– você ta sem grana Vitoriano, vai pendurar de novo?

– hahahahaha, hoje não meu amigo, ta vendo essa garota aqui? – apontei para a minha companhia ironicamente – além de livros ela também compra cerveja, e o mais engraçado, não bebe!

Hank sorriu sem ter sentido a menor graça. Eu o ignorei, estava vridado na minha lata gelada. Ne servi e tomei um trago.

– a senhorita vai pedir o que?

– você tem coca?

– coca-cola?

– é… eu não queria beber hoje, estou dirigindo.

– é mentira, viemos a pé, pode trazer uma vodka pra ela – interrompi – garota, mentir é feio.

Ela ficou vermelha e confirmou o pedido com a cabeça.

– ta bom, vodka e outra bud – saiu anotando – quero ver quem é que vai pagar dessa vez – resmungou.

Enchi outro copo, esvaziei a garrafa e a levantei pra cima, coloquei perto dos olhos para verificar por dentro.

– é, parece que acabou mesmo, merda.

Ela sorriu.

– você ri de tudo né, baby?

– só quando é engraçado, e aliás, essas historias dos seus livros, são reais ou você cria?

– olha pra minha cara de quem cria alguma coisa, me respeita.

– me desculpa, eu só fiz uma pergunta.

– está tudo bem, estou tirando uma com sua cara.

Ela corou, olhou para baixo enquanto mexia com os dedos, o meu livro estava em cima da mesa em evidência.

– o que acha dessa capa de buceta?

– eu confesso que foi o que me chamou atenção?

– jura? Uma buceta? Eu não acredito, não em diga que…

Ela arregalou os olhos, me deteve com as mãos e ficou vermelha de novo.

– claro que não, não é isso que você esta pensando. É que o desenho, e por ser um homem falando sobre essas coisas de sexo, eu me interessei, não devo ser a única.

– é verdade, tem muitas loucas por aí, não é mesmo?

– se você está dizendo…

A vodka chegou, veio gelada e com limão. Bebida de mulher, como se fosse limonada amarga, descia queimando na garganta. Um bom bebedor sabe apreciar bebidas que descem bem e que não te derrubam tão rápido, assim como a cerveja, era preciso pelo menos dez daquela garrafa para me derrubar, e não era que eu apagava não, eu desmaiava de sono, sem problema nenhum. Não dava trabalho pra ninguém, um bêbado comportado, quase sempre.

Ela pegou o copo, levou até a boca suavemente e cheirou. Pensei que estivesse prestes a degustar da vodka, sorri sem conseguir desfarçar.

– o que foi agora, deu pra rir que nem bobo?

– cuidado com o jeito que você fala comigo, baby, tenho um palito e não tenho medo de usá-lo – segurei-o sorrindo.

– acha que me bota medo né? – perguntou revirando a sua bolsa – então toma isso daqui!

PCHIIIIIIIIIIII!!!

Espirrou espraie de pimenta nos meus olhos. Fui pego de surpresa.

– aahhh!!! Sua maluca! Você ta louca?

– me desculpa, eu não sei porque fiz isso, só queria me defender.

– mas o que foi que eu te fiz?

– não fez nada, me desculpa.

Se levantou e me afagou com um lencinho que umedeceu na vodka. Meu olho ardeu ainda mais.

– aahaagr! Tem álcool nisso!!! Sai de perto de mim!! – gritei.

– ahhhh, santo Deus, fiz merda de novo, eu vou embora, me desculpe.

Pegou sua bolsa e saiu as presas. Fiquei coçando meus olhos e Hank veio até mim.

– o que foi dessa vez?

– essa maluca espirrou pimenta nos meus olhos – falei enquanto coçava incessantemente os olhos.

– deixa eu dar uma olhada.

– levantei o rosto para Hank. Ele olhou bem, declinou a cabeça para o lado e enfiou os dedos nos dois olhos.

– AHHH!! SEU, SEU, FILHA DA PUTA!

Sorriu pesadamente e voltou ao seu balcão. Fui até ele vermelho de raiva e o peguei pelo colarinho.

– escuta aqui, quem você pensa que é pra enfiar os dedos nos meus olhos desse jeito?

Ele me olhou de baixo pra cima com toda a calma do mundo e falou:

– sou a pessoa que vai pagar esquecer as cervejas e a vodka de hoje, porque pelo visto a maluquinha não deixou dinheiro algum pra pagar, ou deixou?

Soltei-o na mesma hora e arrumei a gola da sua camisa. Alisei o seu topete e sorri desconcertado.

– Você é um grande amigo Hank – eu disse me afastando – um grande amigo!

Ganhei as ruas antes que Hank mudasse de ideia por sua generosidade. Voltei para casa e cai no sofá. A noite ia chegando e eu estava com os olhos vermelhos e ardidos. Mal pude conhecer a maluca e nem ao menos soube qual era o seu nome. Talvez porque alguns anjos só são chamados de anjos.

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