Abstinência [2]

Nunca fale sobre o que você não domina. A ignorância é a fonte da bondade, e evita que o menos provido de inteligência passe vergonha diante daquele que sabe ainda menos do que ele. Vejo pessoas em suas casas confortáveis falarem sobre as ruas. E me pergunto se ao menos elas conhecem as ruas? Porra nenhuma! Nem ônibus elas sabem como funcionam. Afinal, deve ser difícil compreender as ruas de São Paulo quando você está preso numa escala de Barcelona para Amsterdam, ou então correndo atrás do Mickey na Disney feito um pateta. Nada contra nenhum personagem pitoresco do SBT e rede Globo.

Cass me dizia que nunca tinha visto desenho na vida dela. Cresceu vendo sua mãe se prostituir por um prato de comida que dividia com seus quatro filhos à beira da estrada. Vinha do norte para o sudeste, sempre. O pai mexia com venda de órgãos humanos, mas se arrependeu e largou essa vida quando viu Cass nascer, ela era simplesmente o bebê mais lindo que ele já tinha visto. Tentou trabalhar na lavoura, mas foi pego estuprando uma menor de idade, filha de negra, nada que duzentos reais não tenham feito a moça calar a boca. Mas e a garota, quem é que cala seus traumas? Mas não pensem que esses traumas que nasceram nela foi por causa do estupro não, a garota teve a coragem de se apaixonar pelo caboclo, que além de traficante de órgãos, era galanteador abusivo de menores. Mas antes de pensarem que ele fora contratado para galã da novela das 9 da Globo, lembre-se que essa garota tinha um vínculo de parentesco muito próximo dele, muito mesmo. Me dá até asco só de pensar no ocorrido. Pobre Cass. Viveu no meio desse submundo, viajando de caminhão, ouvindo os gemidos da sua mãe na traseira, lá onde ficam as cargas, bois e porcos congelados, e os dentes batendo de frio enquanto as coxas se chocam contra as nádegas da mãe de família que só quer um lugar seguro para ficar.

Ela conheceu diversos padrastos. O seu pai acabou indo para a cadeia após descobrirem sobre o acontecido na lavora, e nem precisou que Cass abrisse a boca, seus irmãos eram muito mais bocudos e inconsequentes, mas de certa maneira afastou o tarado da família. E imaginem só? Manuel, o estuprador e traficante virou uma pseudo-mulher na cadeia. Foi raspado, ficou sem nenhum pelo no corpo e teve que conhecer todos os detentos da sua cela. Após ter rodado por quase todo o presídio, e isso contando os policiais e presos, sua caveira estava feita, colocaram-no preso no banheiro, encheram de gás o cômodo, tamparam e acenderam diversos fósforos perto da porta. Não desperdiçaram o fogo, o comandante do pavilhão 7 distribuiu marshmellow para os presos desfrutarem. Esse foi o fim mais propício que ele pôde ter, até porque não tem cadeira elétrica aqui no Brasil.

Com certeza eu não tenho moral suficiente para falar algo negativo sobre Cass, a conheci há poucos dias do falecimento de sua mãe e seus irmãos estavam chorando atrás das grades. Traduzindo, ela estava sozinha e precisando de todos os tipos de ajuda imagináveis.

– Senhor, tem fogo?

– Toma, fica com você. – a entreguei o isqueiro.

– Não pense que sou uma necessitada, já não basta todos os outros.

– De quem está falando?

– Clientes, oras… você sabe! Afinal, porque está nessas quebradas?

– Me perdi, estou tentando cair fora daqui.

– Vá amanhã cedo.

Foi por aí que ganhei a companhia dela. Mulher nenhuma deve ser comprada e nem paga pelos seus atos. Antes de qualquer encontro que eu tenho com Cass, primeiro eu a chamo para um jantar ou almoço. Temos conversas agradáveis, sorrimos muito, pago um belo vinho, mas gosto mais quando tomamos uma gelada. E então na hora de pagar a conta eu me certifico se posso pagar tudo, só para não deixar na cara de que estou bancando sua companhia. Ela tem a cara de pau de procurar seu “cartão de crédito” mas insiste que esqueceu em casa antes de sair às pressas. Eu concordo e pago. A levo até a porta de sua casa e pergunto se ela quer estender a noite.

– Podemos sim, você é muito gentil.

Ela sempre me responde com essas doces palavras. Eu sugiro que cada homem que se utilize desse meio facilitador de prazer, conduza uma mulher como uma mulher, assim a segregação de prostituta ameniza, e a noite pode se tornar muito mais agradável do que uma noite de negócios com a melhor empreendedora das ruas. Cass sabia como negociar sem precisar citar valores.

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