Abstinência [1]

Estou vivendo do ócio, muitos devem pensar que sou vagabundo por viver do ócio, mas poucos sabem que essa palavra vem da oportunidade de escolher o que fazer e não necessariamente não fazer nada. Escrevo coisas que acontecem em minha vida pelo simples fato de ser mais fácil do que criar super histórias de vampiros e bruxos. O álcool misturado com a cocaína já é minha grande literatura fantástica. Me perdi no meio de tanto sexo e dinheiro, deixei que me levassem até as últimas moedas, mas continuei dentro desse círculo vicioso que é o sexo, sexo casual, sexo brutal e animal, sexo tranquilo, como se eu fosse o cara ideal para a mulher que acabou de perder sua virgindade, e sangra em minha cama como torneira sem regulador de fluxo.  Mas não sou, na verdade não preciso ser nada que tenha rótulo, quero apenas descobrir de quem é que eu peguei essa maldita AIDS, e que se o inferno for quente levarei meu guarda sol. Não vou assinar porque nem sei mais meu nome.

1.

Me levantei no meio da noite assustado, tive mais um daqueles sonhos em que sou vendado e jogado aos leões, algo um tanto medieval, pena que eu sempre gostasse das guerras daquela época. A neguinha ainda dormia comigo, eu queria que ela fosse embora depois de transar, só que tento ser cavalheiro no meio da madrugada, ninguém merece caminhar 8 km às duas da manhã. Tinha cigarro em cima da cômoda e um pouco de vodka, tomei tudo e acendi um. Ela gemeu se esticando sobre o lençol, seu cabelo enrolado fica lindo quando amassado no travesseiro. Sua boca fica entreaberta enquanto ronca e eu tenho o costume de beijá-la enquanto dorme, pois não quero fazê-lo quando acordada, sentimento não é meu forte.

Gosto de ver o dia clareando, embora não haja nada mais natural do que isso: ver o sol nascer e tocar os seus olhos com a primeira luz do dia. Essa que compramos de tantos watts não são nada comparadas aos raios solares, nem mesmo as fortes luzes dos holofotes, eu digo. O que mais entendemos como natural? Lanches? Peguei dentro da geladeira pão com salada e tomate, tinha peito de peru em rodelas, coloquei pra dentro, tentando matar a ressaca da noite anterior. Para mim, naquele exato momento, o lanche foi natural, mas estou extremamente enganado. Como posso chamar algo de natural sendo que ele não veio da terra? E nem fora plantado ou colhido por mim? Minhas próprias mãos. Bebi suco natural, mais um erro colossal. A laranja eu comprei no supermercado, que antes era um mero mercadinho atrás da minha casa, com a descarga de caminhão virada para a minha garagem e o peso daqueles grandões causando rachaduras até hoje pela rua, a ponto de minha casa desmoronar a qualquer momento, por isso não deixo de comprar cervejas e me embriagar fortemente a cada noite, não quero sentir minha morte, prefiro morrer dormindo e sorrindo.  Voltando pra laranja “natural”, é tudo fruto de nossas cabeças, mas pelo menos ingerindo esses produtos industriais, produzimos o nosso resíduo, defecamos o que há de mais natural vindo do corpo humano, quer algo mais naturalista do que isso?

Voltei para o quarto e a nega ainda estava dormindo, ela demorava para acordar, gosta de repor as energias. Seu nome é Cass, ela tem muito fôlego, como se fosse movida a gás, algo que de muita potência entende? Tem vezes que eu falo muita bobeira e nem entendo o que estou dizendo, e por isso indico que a encontrem na Freguesia do Ó, fui longe pra encontrar essa beldade. Na verdade essa teoria de longe ou perto é bem subjetiva. Agora, ficar parado, olhando o traseiro moreno de Cass enquanto o vento das dez horas da manhã bate nos seus cachos como se fosse desmanchá-los é divino. Não sou nada religioso, mas consigo encontrar muitos anjos nessa minha vida de ócio desmembrada.

Além de escrever livros eu vendo maconha, daqui alguns meses vou passar a vender Key, ali em Pinheiros, em frente a uma balada GLS, os gays mandam a ver no pozinho. Parece inofensivo, não é mesmo? Pozinho. Mas o barato é anestésico de cavalo, um tiro bem dado e você sai fora do seu corpo. A viagem é tão forte que você vicia em menos de um mês. E não quero fazer propaganda enganosa não, mas o negócio é bom mesmo, eu uso e recomendo, assim como o corpo esbelto de Cass.

Bebi boas doses de whisky pra segurar o gozo na noite passada, mas a danada sentou com gosto, trepei como há muito tempo eu não havia trepado. Estiquei seus tointoins enquanto ela estava de quatro em cima da cama, e eles ficavam tão grandes que nem pareciam serem seus, depois que eu soltava eles voltavam pro mesmo lugar retomando a mesma forma. Mas a bunda… a bunda parecia cada vez maior, me engolindo, girando e rebolando.

Preciso ficar famoso logo, conseguir muita grana e manter diversas Cass ao meu lado. Que se foda que seja por dinheiro, qual é a ideia de trabalhar para um patrão? Dentro de uma indústria ou comercial? Seja lá onde for, oferecemos nossa mão-de-obra em troca de um salário. As garotas farão o mesmo e eu irei pagá-las muito bem e que se foda os falsos moralistas que encontrarem problemas com isso.

– Acorda Cass, deu seu horário.

– Hummmm… hummm, deixa eu dormir… mais um pouco.

– Eu não vou pagar nem mais um centavo por isso.

– AHHH, eu te odeio, seu merda.

– Pega suas coisas, preciso sair.

– Não venha mais atrás de mim, seu grosso.

Cass acorda brava todas as vezes que dorme aqui, eu não sei como é em sua casa ou até mesmo se ela tem casa mas seus outros homens não devem gostar nada disso, ainda bem que sou o amante. Ela me chama de banco mas estou mais falido do que um alcoólatra no fundo do poço, de bolso vazio e olheiras profundas. Não consigo dormir e isso me dá olheiras também, meu bolso de vez em quando enche, mas não dura muito tempo, em São Paulo existem muitas mulheres, e você sabe como é, não é? Homem que é homem não passa noite nenhuma sozinho e nem com a boca seca.

Cass bateu a porta e saiu pisando duro, ouvi o barulho de dentro do banheiro do seu salto agulha. Mulher de fibra moral e gingado. Se tem algo que branco quer nessa vida é ser negro. Excluindo o fato de ser discriminado até pelos próprios irmãos, ter o pau grande é vantajoso, só não entendo como é possível ter o ódio ainda maior, e com motivos de tê-lo.

É só minha neguinha ficar longe que eu fico com saudade, nada melancólico, é falta de buceta mesmo. Me sentei no vaso e fiquei imaginando o Carnaval de rua que fomos no ano passado. A bateria explodindo nos meus tímpanos e vômito pra todo canto, mas a bunda de Cass acompanhava cada tom, cada batida, cada sentimento. Acho que ela consegue captar o ambiente e transformar em ondas sensuais que fisgam qualquer homem que ela quiser. Eu sou mais um de sua teia, eu sei disso, mas a deixo pensar que a domino, se bem que coloquei algemas nos seus pés e mãos algumas vezes. E me contento em fechar os olhos, agarrá-lo com a palma da mão e trucidá-lo como se fosse um detento, estrangulando o pescoço, deixando a cabeça vermelha e logo após roxa, a ponto de babar inconsciente, todo mole e cheio de veias pelo corpo. Cass, eu sei que você vai voltar na sexta à noite, o frio não está perdoando e tão pouco eu.

  Compra no boleto e paga na lotérica
   Baixa aí que é de graça

amazon-iconsaraiva icone clube icone google play  icone agbook

      twitter 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s