Na rua

Na rua não se dorme, na rua você espera o dia amanhecer. Na espreita, pronto pra escapar da paulada, do chute, do murro e do tiro. Eu já tive emprego, ou você pensa que eu nasci na rua? Ninguém quer vir parar aqui, nessas ruas você não ganha nada. O chão é frio e duro, nada dura mais do que um momento de adrenalina. A qualquer momento posso desaparecer daqui, mas só irei embora de espirito, porque meu corpo continuará no estirado no chão. Já me levaram o meu filho. Eu não podia pagar aluguel, e tinha o álcool que consumia todo o trocado que eu conseguia. Acho que meu filho nunca bebeu um copo de leite enquanto esteve comigo, então por mais que eu o queira comigo, é melhor ele bem longe, com um futuro mais certo do que o que eu tenho. Os voluntários que mantêm muito de nós. Ficamos esperando eles chegarem, geralmente são nos finais de semana e a noite. Quando não trazem água só podemos é passar sede, porque não é fácil ter que pedir em estabelecimento, parece que vamos roubar eles, mas a gente só quer um auxilio para passar a noite.

É na rua que aprendemos que o mundo da voltas. Quem está de baixo das marquises já foram grandes pessoas um dia, mandavam, sustentavam, brilhavam. Aqui nessa exclusão social nós só fazemos volume em cima do solo. Nem mesmo existimos, passam pessoas por aqui e não olham nos nossos olhos. Pés tropeçam na minha cabeça enquanto tento dormir. Buzinas tocam como se fosse para acordar o pessoal da noia. Muitos moradores de rua sabem apenas o próprio nome, e não tem mais nada com eles. Eles sonham em ter um lugar para poder deitar a cabeça em paz. Água encanada e um tapete para os pés não sujarem. É só isso que muitos olhos lagrimejados querem. Nós nos drogamos sim, quase a todo momento, mas é que você não imagina qual é a sensação de abandono e de nem ser quem eu sou. Como se o inferno fosse na terra e o diabo a madrugada fria e barulhenta. O frio é tão intenso que a pele chega a queimar, e é então que conhecemos a chama do inferno. Sem piedade, sem dó. Não fazemos mais nem parte do sistema, somos o que a sociedade não quis, e estamos invisíveis para os olhos de quem tem tudo, mas que sempre chora dizendo não ter nada.

Eu daria metade do resto de vida que tenho por madeiras, areia, pedra e cimento. Para construir um barraco e fugir da chuva. Nós vemos o quanto Deus é bom quando as enchentes não cobrem os nossos narizes, e ainda é possível passar por mais uma madrugada em naufrágio, mas pela manhã a pneumonia ataca forte, e aja ouvido para as tosses e os gritos de dores. No rim, no intestino, nas pernas, no peito, na alma… Dói saber que temos parentes que não entendem que ainda existimos, e que a nossa imagem suja e incorreta para a boa conduta deles não agradam, e que somos excluídos até das memórias. Rezo para quando eu for ir pra uma melhor, que eu morra num rio e que a correnteza me leve pro meio do oceano, assim será menos vergonhoso do que ter o meu velório vazio, meu corpo pálido e o coveiro. Não vou fugir da única certeza que temos na vida, a morte. Na verdade fiz dela minha amiga e a cada piscar de olhos mais longo que eu dou ela fica em alerta, a qualquer momento entrará em ação e me levará daqui, Deus queira que pra um lugar mais quente do que os meus papelões.

As ruas… muitos passam pelas ruas mas poucos sabem o que ela realmente representa. Só mesmo sentindo as pedras afiadas e as calçadas batidas na sola dos pés, para entender o que é estar nas ruas. Eu me sinto parte delas, como se estivessem no meu DNA. A cor cinzenta manchou meu corpo todo e não sai nem com navalha. As minhas tatuagens são por dentro da pele, feitas por agulhas grossas de dor e angustia. Mas eu espero sair um dia daqui, só que antes preciso que as ruas saiam de mim.

Um dia eu já estive no seu lugar. Jogava fora coisas que são preciosas aqui na rua. Sobrava comida no prato e ia direto para o lixo. Água potável no ralo, roupas que eu não usava juntando aranha no guarda roupa e nada parecia estar bom, e eu não me sentia completo, como se a vida fosse ruim e os problemas crônicos prazerosos para sentir. E que Deus abençoe aquele que trouxer algumas mantas e lençóis, porque o tempo virou e o inverno não será gentil.

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