A rua em mim

Eu autorizo que me filmem, sem problema algum, eu gosto e preciso aparecer nas câmeras. Essa pergunta é bem fácil porque eu tenho vivência nesses becos, e vou te dizer… a sensação de estar perdido é maior do que qualquer medo que você já pode ter sentido. Me escuta, morar na rua é um bicho de sete ou mais cabeças, você luta contra os pescoços enormes que te derrubam e zombam da sua cara. É como se fosse um monstro, mas ele não quer te matar, o único objetivo dele é te fazer ver o quanto você não é nada, e ele pode te matar, com um simples estralar dos seus ossos, mas ele prefere te ver sofrendo, se humilhando de joelhos, implorando por um pouco mais de vida, por um isqueiro com gás, e que o cachimbo esquente o bastante para você partir para a próxima fase. Uma tragada só e você chega até no céu e volta. Não tem mais nada que seja tão rápido quanto você, e nem a luz consegue te alcançar.  Mas de nada adianta entrar nessas viagens se você for sair pra arrumar um emprego e ninguém te der o emprego porque você mora na rua. Eu vou dar um emprego para um morador de rua? Ele pode chegar aqui e me roubar. Vai vir todo sujo e fedido. Então a pessoa já descrimina por aí certo? E vai se ferrar quem diz que isso não acontece, porque no mínimo essa pessoa não deve saber nada do que é pedir.

Você ta ali a Deus dará, entende? Não tem pra onde voltar, não tem pra onde ir, simplesmente está onde está e vai apodrecendo aos poucos, tanto o corpo quanto a mente. Vai se tornando parte dos lixos, dos esgotos, e não tem pastor que tire o cheiro de enxofre que fica impregnado, mesmo assim você fica acreditando que vai chegar um anjo, e te fala: você tem fome? Te darei o que comer. Você tem frio? Te darei o que aquecer. Você tem sede? Te darei o que beber. Entendeu? E morar na rua é você simplesmente ter compaixão de si mesmo e acreditar em si mesmo, e em que possa ser possível algo melhor pra você. Tipo, você não tem casa? Que aconteça de alguém chegar em você como a prefeitura, como algum ricaço, ou como algum outro pobre também que já está prestes a partir, e não tenha a quem deixar o seus pertences, e deixa ao teu próximo, como Jesus nos ensinou. Amai ao próximo e a porta do céu estará aberta para ti mesmo. Acredita? Eu acredito, mas não é porque veio algum irmão com bíblia na mão me dizer isso não.  Foi dia após dia que eu aprendi a pensar nisso, e os tapas na cara que me fizeram aceitar que isso pode acontecer. Parece que a gente está sozinho, mas não estamos não, tem alguém bem maior que tudo olhando por cada um, e não vamos ficar desamparado para sempre. É só uma fase ruim, Deus está me testando, ele vai mandar um dos seus anjos me buscarem e todos vão me invejar, mas cada um tem a sua hora, e é melhor a gente nem saber dela, porque se não… imagina a ansiedade que é de sair desse buraco? Isso num é vida não, é buraco mesmo, sou grato ao Senhor pelo dia de hoje, mas onde eu to é buraco e não tem ninguém que diga o contrario. Na rua você pode criar a sua própria realidade, porque será difícil alguém partilhar do mesmo dia a dia que o seu, entende?

Eu sei que tem gente que pensa em vir morar na rua só pra saber como é que é. Tem uns atores que fingem ser um dos nossos, eles até apertam as nossas mãos, e os assessores deles conversam com nós, e depois conta tudo o que a gente disse pra eles. E eles fingem ser um de nós na frente da televisão. E tudo mundo em casa acredita que ela seja. E falam: nossa, como esse ator ou atriz é boa, eles interpretam bem! É assim que se fala né? Interpretam? Mas como é que eles falam isso sendo que eles não sabem o que é acordar com o barulho do trem, ter a cabeça chutada por um policial mal humorado. Ser roubado enquanto tenta dormir. Essas pessoas não sabem o que é interpretar, e nem eu conseguiria, o mundo não merece que eu reproduza o que acontece por aqui. Prefiro que esses segredos fiquem guardados com nós, como se fossemos detentores de alguma coisa, só assim pra gente existir.

É perigoso ficar por ai igual andarilho, por isso a gente se apropria de algum lugar, mais ou menos quando os comércios fecham e fica com a calçada livre pra deitar. Mas tem que ficar de olho no trem pra não levar chute dos donos. Eu não fico muito tempo no mesmo lugar porque tenho medo de atentado, tem muito nego querendo tirar o que eu tenho, pegar os meus papelões e a minha camisa de marca. Não é sempre que encontro com invejoso, porque a gente costuma dividir das mesmas dores e não sobre espaço pra querer o do outro, entende? E depois as outras coisas, várias dificuldades aí, por exemplo até pra tomar um banho, tenho que esperar a chuva ou então aproveitar as poças de água, mas aí tem a doença do rato e sempre gela a costela, se eu adoecer, não tenho plano de saúde. O pronto socorro não gosta da gente não. Atender nós é como um ato de extrema caridade para eles, e tem os guardas que vêem com os carros deles, mas eles só querem é bater na gente e tomar a nossa pinga.

Eu não quero depender da minha família. Estou morando na rua pra não ser um peso pra eles. Um peso morto, entende? Era disso que eu era chamado. Eu não tinha mais nome, era só peso morto, e aqui na rua eu voltei a ter nome, e as pessoas sabem que eu não sou apenas um peso que fica vagando por aí, aqui todo mundo tem o mesmo peso e nós nos sustentamos juntos, até quando dar, se enfraquecer caímos todos juntos, e quem fica de fora da corrente tem o tombo maior. Não dá pra tirar proveito de quem já não tem nada. Morando na rua eu posso fazer o que eu quiser, e não terá ninguém jogando na minha cara, dizendo o quanto foi bem sucedido e como eu não sou, e essas coisas, entende? Peso morto é só quando eu morrer mesmo, e todos nós iremos morrer, não é verdade? Qual o problema comigo?

Na rua não tem como aprender, aqui é um mundo paralelo, você entra em contato com todos os tipos de dores e horrores, até que se acostuma e segue em frente. Tem dia que fecho os olhos e não desejo nem acordar, mas acordo e isso é um sinal de que ainda não acabou. Tem alguém lá em cima controlando tudo. Eu sei que tem. E o governo fica brincando com você, com os seus direitos que um dia eles escreveram que a gente tinha, e isso que é morar na rua, perder todos os seus diretos, que todo mundo tem.

Então eu acho assim, se eu tenho fome não adianta eu ir num restaurante, numa lanchonete, me sentar e fazer o pedido. Eles não deixam nem a gente passar por perto. Somos chutados das partes que os bacanas pisam, como se os nossos pés fossem contaminar o ar deles. Eles sentem o nosso cheiro de longe, somos perseguidos por pessoa que a gente nem conhece. Ninguém vê a gente se não for pra bater. Se eu tenho fome, tenho que esperar alguém passar por mim e me perguntar se eu to com fome. E eu sem escolha, ser olhado nos olhos, mesmo que ele não acreditasse, se olhasse pros meus olhos, visse o meu momento ali naquele êxtase, naquele frenesi de tremores e anseio por uma alimentação mesmo se a comida não for da melhor, tenho que aceitar pra não desmaiar ou comer meus dedos. Porque é só olhar pra mim que verá como minha fisionomia muda, minha barriga conversa com o corpo, e os ossos tremem a todo tempo, isso que é morar na rua pra mim.

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