A vida e a festa

A vida das pessoas tem o mesmo valor? Geralmente podemos pensar que sim, elas tem. Só que mal sabemos a profundidade que essa questão se alonga. Não tem segredo, o nosso sistema determina quem é mais importante ou não pra sociedade. Tem duvidas? Basta você morrer para crer, que pena se for um pobre vagabundo assalariado.

Lá pelas bandas da vila madalena uma empresaria, filha de empresaria, vinda de família empresaria – burguesa – estava andando com seu BMW e mexendo no celular. Os faróis de uma avenida costumam abrir e fechar como os normais. Mas ela desprovida dessa informação acelerou enquanto o ponteiro estava no amarelo, vacilona.

O homem que limpava a rua ali perto, com sua roupa laranja, de baixo de um sol frenético, protegido apenas por um bonezinho de pano fino e ordinário, decidiu atravessar a rua na faixa de pedestre e chegar no seu próximo destino, a calçada imunda na frente do banco Safra. Bom, foi isso mesmo que ele fez, porque se ele não fizesse, quem é que faria? Não vejo multidões para limpar a bagunça da cidade que as mesmas multidões que organizam sujam.

É nessa hora que os dois se conhecem. É claro, o gari conheceu a moça, mas ela nem se quer soube qual a procedência que fez o seu carro perder o para choque e quebrar o pára-brisa. Estou tentando falar da melhor maneira possível, sem sensacionalismo e vitimização do sujeito pobre, até porque ele já se autodenomina uma vitima nesse nosso sistema funcional.

Boné para um lado, bota de aço para o outro, e a moça indefesa que dirigia sua caranga apenas bateu de leve com o rosto no airbag que inflou com o impacto. Ela precisava ir ao medico, seu nariz ficou inchadinho e como ir na festa de formatura da sua amigo depois das 19h assim? Toda deformada!

Sacou o Iphone, ligou para o pai, pediu pra que ele a buscasse porque tinha batido em alguma coisa e estava tão irritada que não ia conseguir dirigir mais por aquele dia. O pai, que tem a empresa no bolso, deixou sua sala e foi até ela, até porque essa é a função de um bom pai, todos nós temos um, então compreendemos o que eu estou falando, não é mesmo?

Ele trouxe o advogado da família, porque estava vendo televisão e soube da noticia, mas sua filha – no mundo da lua – queria aumentar o pacote de internet, porque já tinha acabado os seus gygabits. Ela foi pro braço dos pais, com aquela jeba enorme e inchada, enquanto ele cuidou de tudo, desde o acidente, ao corpo e até mesmo da policia, como um bom pai deve fazer.

A moça do acidente – ainda assustada – após três dias foi investigada, talvez pra nãos ter sido pega em flagrante, alguém tem outra resposta pra isso? E respondeu o seu lindo processo em liberdade. Mas é claro, a moça tem faculdade para ir, yoga, aulas de pianos para tocar na sua formatura e academia onde reúne com seus amigos em prol da saúde, ninguém tem o direito de tirá-la do seu mundo, e nem da sua vida, isso é invasão de privacidade!

Em uma casinha, logo abaixo de uns triplex do Morumbi, tinha algumas famílias cochichando, e dentro de uma delas, um garoto olhava para a caixa marrom/bege no canto da cozinha, via o saco de arroz amassado e todo empoeirado e se perguntava “o meu pai vale isso?”. Sua lagrima era a única goteira que a casa podia ter, não chegava água para as casinhas. Os que olhavam lá de cima pensavam que a comunidade era como se fosse um lego, que eles montavam e desmontavam, colocavam uma casa em cima da outra, arvores no meio da sala, escombros por todo lado, e cheio de escadarias. Brincadeira de criança?

Graças a Deus a moça conseguiu ir na festa de formatura da sua amiga, evitou uma chateação da colega. Mas lá não se falavam em outra coisa. A moça – que quase se machucou gravemente – reclamava sobre ter passado horas e horas dentro da delegacia, pois poderia ter feito o cabelo e as unhas, mas não! Teve que ir desleixada para a festa só por causa de mais uma morte de um desfavorecido nas ruas. Qual culpa ela tinha? Esses malditos policiais que infernizam a vida dessas pessoas de bem, mulher nenhuma deve sair de casa sem estar toda arrumada, isso deveria virar lei.

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