Imagine Street[4] – Realidade idealizada

As seis semanas passaram, e eu mantive meu rabo magro o maior tempo possível dentro do escritório. Fazia relatórios o dia todo, e cheguei a escrever mais do que vivia. Não queria sair fora da linha e ir para as ruas de novo. Eu não sabia como me virar em Imagine Street.

Assim como a coruja sabia falou, o meu chefe realmente se ausentou. Ninguém sabia quem era ele e nem onde ele ficava dentro do setor, mas todos diziam que ele via tudo, até mesmo o que acontecia nas ruas. Na manhã daquela sexta feira, o ultimo dia dele na empresa, fui chamado para a sala do final do corredor, sua possível sala. Ajeitei minha gravata, respirei fundo e fui.

Entrei na sala, e era tudo muito simples e modesto, nada de alta tecnologia. A poltrona estava virada de costas para mim, e de frente para a cidade, dava pra ver tudo de lá de cima, como se fosse um muro bem alto, o mais alto da cidade eu diria.

Esperei que ele se virasse e me dissesse o que queria comigo. Fiquei parado do lado da porta, riscando o chão com o sapato e olhando para as paredes limpas. Nada. Podia ouvir grilos se estivéssemos perto de alguma arvore. E então a cadeira se virou. Vi os pelos amarelos e laranjas balançando lentamente, de cima pra baixo. O rosto era inconfundível. A grande raposa observadora.

– Muito bem, meu caro. Pelo que eu analisei nesse pouco tempo em que esteve aqui na minha empresa, o senhor é o mais indicado para cuidar desse monte de idiotas.

– É uma honra… senhor…

– Sem cordialidade, por favor, como deve se lembrar já até brigamos, e me desculpe pela patada naquele dia, eu senti na pele, pode acreditar, meu caro.

– Não foi nada meu senhor, eu a mereci.

– Meu caro, ninguém merece apanhar e violência não resolve nada. Na verdade ela é a fonte de muitos problemas que demoramos vidas para resolver.

– Mesmo assim estou honrado pela escolha. Espero continuar o seu trabalho excelente até que o senhor possa voltar.

– Quem disse que eu voltaria?

– Mas… eu pensei que… se afastaria só por algum tempo. Pelo menos foi isso que a coruja me disse.

– A coruja… sempre aquela coruja. Não acredite nela. Ela tenta induzir todos os jovens e talentosos rapazes dessa cidade. No final ela quer apenas um exercito voltado contra os nossos escritórios. Coisa de hipister. Você não é só um maconheiro e bêbado, não é mesmo?

– Claro, meu senhor. Tenho trabalhado muito desde então. Os relatórios podem comprovar isso. Estive acima da média comparado a todos do setor.

– Isso é muito bom, sem duvidas. Mas não é por esse motivo que eu o escolhi.

– E porque seria, que mal lhe pergunte?

– Meu caro… meu caro… Em todos esses anos administrando diversos escritórios da Imagine Street, eu nunca encontrei alguém que siga as regras e ainda faz o que agrada a si mesmo. É uma balança que me surpreende, parece que eu cuido de maquinas sem opiniões próprias. Mas você… você não!

– Eu não sei nem o que dizer, meu senhor.

– Não diga, é hora de ouvir agora. Bom, a morena que te atendeu no bar e te apresentou aquelas poesias…

– Sim! Ela é uma grande poetiza, sensacional, o senhor precisa conhecer o seu trabalho.

– Meu caro, não deixe que imagine street te engane. Ela realmente é uma prostituta, nunca escreveu poesia alguma. Não projete coisas que gostaria de ver em pessoas que te cativaram.

– Eu… eu não entendo…

– É simples. Milhares de pessoas vêem para Imagine Street a procura de enriquecimento, fama e poder. Todos, sem exceção. Essas ruas chamam por isso. Como você pode conhecer, aqui tudo é fruto do que há de maior dentro de você. Resumindo, você vê e vive aquilo que quer ver e viver, nada mais do que isso.

– Senhor… eu juro, ela é real, ela realmente escreveu as poesias, eu a vi com o lápis na minha frente…

– Meu caro, esperava mais de você. Mas isso é normal, a realidade nem sempre está nos nossos primeiros planos, mas não se preocupe, te provarei o que estou lhe dizendo.

A raposa tocou o sino em sua mesa com sua calda e a Morena apareceu rapidamente. Dei-lhe caminho para que ela entrasse na sala. Ela não olhou nos meus olhos. Eu não a conhecia mais.

– Minha doce Madalena. A morena mais linda dessa cidade, nos mostre o que você faz de melhor?

A morena caminhou sensualmente em direção a raposa, levantou sua saia e sentou no seu colo. De alguma forma bizarra a raposa a penetrou e a morena soltou um gemido alto, como se estivesse tendo o seu maior orgasmo. Foi digno de inveja pois eu não consegui tirar nem suspiro dela quando esteve nos meus braços.

– E então, o que me diz, meu jovem rapaz?

Sorri com desdém e me aproximei da porta. De costas para eles eu disse:

– Aqui na Imagine Street eu aprendi que há uma linha tênue que difere o sonho da realidade, e não perderei mais tempo agora que eu sei qual é a minha realidade.

Os deixei na sala, fui até o meu computador e abri o Word. Coloquei a fonte e negrito e comecei a digitar frases de minha autoria, essas levariam o meu nome.

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