A despedida

Até quando iremos julgar as pessoas que não conhecemos? Até quando teremos uma visão errada sobre as formas de vida que não conhecemos?

Partimos de Santa Cruz até Moema. A noite só estava começando. Tocava Rock no rádio e o clima estava pesado. Muito álcool na cabeça e pouca consciência para desfrutar. Chacoalhei o cuca ao som de System Of A Down, o puteiro não chegava nunca, mas já estava feliz apenas de estar entre amigos.

Passamos por um guarda moreno e entramos. A recepcionista nos atendeu cumprimentado com beijos no rosto e fiquei a vontade no sofá. Duas moças distintas sentaram do meu lado.

– qual o seu nome? Perguntou uma delas.

– me chamo Charles.

– nome muito bonito, meu último namorado se chamava Charles.

– meu irmão se chama Charles. Disse a outra.

– quanta coincidência temos aqui hein garotas?

Sorrimos todos e elas ascenderam o meu cigarro. A mais baixinha pegou uma cerveja no balcão para mim.

– bebe, meu lindo, aqui esta calor.

– só se você beber comigo, baby.

Ela buscou outra e brindamos. A morena do meu lado acariciava meu peito, devia pensar que eu tinha grana, coitada.

Bebi pra caralho e fiquei chato. Peguei a baixinha pra cristo, não largava do pé dela.

– essa é minha primeira vez, eu não sei como é que eu devo agir. Disse a ela.

– é normal queridinho, a gente conversa, se acerta e subimos para o quarto. Ela respondeu com a maior naturalidade.

– mas então, eu não sei fazer isso, tenho vergonha, é a minha primeira vez, não sei como fazer.

– escolhe quanto tempo você quer, meia hora, uma hora, duas horas…

– quanto é que costumam escolher? Eu não sei nada, é a minha primeira vez.

– geralmente ficam uma hora… ou duas, mas como você ta indeciso, pega só meia hora e vê…

– mas você vai me ajudar? Eu realmente não sei, não levo jeito com isso.

– fica sossegado, não tem segredo nenhum.

– você vai me ajudar?

– vou sim queridinho, paga ali no balcão e vamos sumir.

Fui até o balcão e peguei outra bebida.

– vou querer trinta minutos, é a minha primeira vez sabe…

– tudo bem rapaz, pode subir. Respondeu a recepcionista.

Abri a cerveja e a baixinha me pegou pelo braço.

– vamos, sobe por aqui.

Subimos pela escada de espiral e fomos passando pelos quartos ocupados. O nosso foi o quarto. Entramos e estava tudo acesso. A bebida estava na minha cabeça, a baixinha estava bem, elas não podiam ficar bêbadas, o trabalho em primeiro lugar. Foco e olho no relógio, não podiam passar nem um segundo a mais do que era pago se não tinha multa e até advertência, e elas sofriam nessa parte.

– você pode tirar a roupa. Disse a baixinha enquanto tirava sua roupa.

– ah sim, é verdade, estou nervoso, até me esqueci, é minha primeira vez, entende.

– não esquenta a cabeça queridinho, é melhor, relaxa um pouco.

Tirei minha roupa e joguei em cima da cama, não queria perder nada que estava nos meus bolsos. Me deitei na cama e fiquei sem reação alguma, aquele não parecia o meu lugar.

Outros casais temporários faziam barulho nos quartos vizinhos. As camas rangiam, e tinha muito gemido forçado no ar, aqueles que mais parecem uma surra de PM á zero hora nas ruas de São Paulo.

– pode vir por cima, mas antes coloca a camisinha, você tem aí?

Olhei pra minha calça jogada em cima da cama e não consegui raciocinar muito bem, olhei pra baixinha de volta e não respondi.

– tudo bem, eu tenho aqui, não se preocupa, só relaxa, deita aqui.

Me dentei e ela pegou a camisinha, abriu com o dente e eu me ajeitei como pude na cama, como se estivesse compactuando com aquilo, que bizarro.

– coloca com a boca… você consegue? Perguntei.

– ah… sei, consigo sim, vamos tentar.

Meu pau estava tão mole que não tinha nem como mijar sem me molhar todo, era como se ele estivesse se recolhendo, entrando totalmente para dentro da base, estranhamente brochado.

– ele não é assim, eu não sei o que esta acontecendo.

– já falei pra não se preocupar, isso acontece queridinho, eu te ajudo.

Ela segurou ele com uma das mãos, não precisava nem de uma palmo, ele estava minúsculo e sem índices de que iria acordar. Ela bateu uma, foi otimista, colocou a camisinha com a boca com muita dificuldade e investiu na chupeta.

Sloop sloop sloop,

flap flap flap,

sloop, flap, sloop, flap

Tentou com a boca e com as mãos mas falhou. Me ajoelhei na cama e a empurrei para se deitar no meu lugar.

– eu vou tentar, ele me obedece.

Sorrimos sem graça. Bati uma, aumentei a velocidade pra ter efeito e nada. O bicho não acordava, talvez eu precisasse de uma sessão de choque. Olhei para a baixinha com as pernas abertas e cai de boca, sem o mínimo de vontade, mas não iria deixar minha honra sair ferida, aquele porra de pinto ia crescer e ia ser naquela hora. Fechei os olhos e prendi a respiração. Desci a língua e passei pelas bordas, depois no clitóris que estava apresentável na minha face. Chupei bem menos do que o normal, não era o meu lugar, não queria continuar fazendo aquilo, mas já estava na jogada.

A gerente subiu as escadas, era possível ouvir o seu salto agulha tocando o piso.

TEC TEC TEC

PÁ! PÁ! PÁ!

Já passou os trinta minutos, vamos meninas, não vão atrasar, já passou o tempo dos quartos, vamos descer, agora. Vamos! Vamos!

Olhei para a baixinha, ela fez cara de quem não tinha o que falar, eu fiquei expressamente decepcionado comigo, por vários motivos, um deles ter brochado e não estar onde deveria estar.

– não tem problema, isso acontece sempre queridinho, não grila com isso.

– porra, sabe… é tão ruim, eu não sei o que aconteceu, não é nada com você, é que é a primeira vez, e eu não sei o que aconteceu.

– vamos, se vista, vamos descer, deve ter sido a cerveja, você bebeu muito.

– é verdade, eu bebi pra caralho, só pode ter sido isso, pronto, encontramos a resposta, foi o álcool.

Coloquei minha calça rápido para não passar do meu tempo e a cueca ficou no chão, coloquei-a no bolso e descemos. Pensei que ela poderia falar pra todo mundo o fiasco que tinha sido no quarto, mas vi que ela se calou e não tocou no assunto com ninguém.

Parei com a cerveja. Fui para a varanda e fiquei fumando enquanto as outras garotas conversavam entre elas sobre viagens e atores famosos. Falavam sobre Tom Cruise, Beckham e Ben Affleck. Fiquei ouvindo, quase dormindo, até que o cigarro queimou o meio dos meus dedos, caiu no chão e não consegui recuperá-lo. Peguei outro e ascendi. Não deu um minuto e aconteceu de novo. Voltei a pegar outra e uma das garotas me impediu.

– ei, deixa disso, ta gastando seu cigarro e vai acabar se queimando feio.

– é verdade, é que to sem o que fazer, preciso fumar.

– conversa com a gente, não se acanha. O que acha das garotas? É sua primeira vez não é?

– como sabe? Perguntei.

A garota indicou com a cabeça para o lado onde a baixinha estava sentada junto de outro cliente. Prestei atenção na conversa dela disfarçadamente.

– Queridinho, eu não fui com ninguém essa noite e aquele rapaz que eu subi não deu em nada, ele não fez nada, brochou total. Acredite, estou pura hoje, peguei um primário, dei sorte – ela dizia.

– ah… não sei não… mas se for assim, tudo bem, vamos.

Eles se levantaram e subiram pro quartinho. O cara que estava com ela deu uma risadinha quando passou por mim. Eu sabia do que eles estava rindo infelizmente. As outras garotas na rodinha de conversa se controlaram, sabiam manter a ética e o profissionalismo, como se tudo aquilo fosse natural. Estamos apenas conversando e o momento em que eu quiser posso comprar a intimidade delas e elas venderam as suas maneiras de produzir prazer sem prazer na verdade, mais vazio do que o silencio, é o grito sem motivo, o gemido sem ter sentido, nada sentido. Sentimento comprado, dinheiro mal gasto, se quem procura isso pelo menos tivesse tentado de outra maneira com a garota que já teve nos braços. Solução pra quem nasceu culpado, ir pra cama com a puta de muitos outros pés-rapados.

Me levantei e ascendi outro cigarro. Fumei esse até o final, joguei no chão, resvalou no meu sapado novo de couro, apeguei-o com raiva.

– vai mais uma cerveja? Perguntou a recepcionista que também era balconista.

– me vê só mais uma, já bebi demais, mas estou com sede ainda.

– toma, e espera aí… olha a braguilha, ta aberta.

Olhei para minhas calças e fechei o zíper. Notei que estava tudo muito refrescante ali dentro. Coloquei a mão no saco e não encontrei a cueca. Merda. Perdi.  Olhei para o sofá de madeira que eu estava sentado e nada, voltei para dentro e olhei pelo sofá de lá.

– o que está procurando? Perguntou a balconista.

– ah… eu perdi…

– perdeu o que, cara?

– minha… minha cueca, eu estava com ela e não estou mais.

– como assim? Você deve estar bêbado, não vou mais te vender cerveja.

– porra, eu quero a minha cueca… a baixinha… acho que…

– ei, ei, ei, eu confio nas minhas garotas, não me venha com essa, ninguém iria roubar a sua calcinha, meu irmão!

– não… não, não é isso…

– pode arrumar essa bagunça que você esta fazendo no sofá, anda, as almofadas não estavam jogadas no chão. Vai!

Eu baguncei tudo enquanto procurava atônito. Frisei na minha cueca, eu precisava dela, precisava muito dela, mais do que qualquer coisa naquela noite e a baixinha tinha tudo a ver com isso.

– qual o nome da baixinha? Por favor!

– espera aí, vou chamar a gerente e você resolve com ela.

– não precisa, só quero saber o nome dela…

– Fernanda!!! Por favor, dá um pulo aqui. Gritou a balconista mal encarada.

Ouvi aqueles salto agulhas voltarem em minha direção.

Tec tec tec tec tec

Descendo as escadas.

Tec tec tec tec

Loira, baixa, corpo de violão, vestido simples, mas tão bonito quanto a lua que estava no céu lá do lado de fora. Se postou na minha frente com o rosto sem expressão.

– me chamou Ju?

– então, esse cara aí, oh! – apontou para mim com o dedo – ta dizendo que uma de nossas garotas pegou sua cuequinha, vê se pode!

A gerente loira me olhou profundamente, senti meu sangue gelando, tinha alguma naquelas mulheres que nos tirava as palavras, era como se você tivesse muito a falar, mas não conseguir a partir do momento em que você as olhava no fundo dos olhos e não encontrava exatamente nada que fosse concreto ou vivo.

Entre suores tentei me defender.

– calma, garotas, não é isso…

– é melhor você se retirar, oh comédia! E vê se compra outra calcinha. Respondeu a gerente.

Não tinha jeito. Terminei minha cerveja e dei meia volta. Bati a porta e ganhei a rua. Cheguei ao meu carro, abri, entrei, me afundei no banco. Respirei fundo, sequei o suor da minha testa, apertei os olhos, a dor de cabeça começará a apontar no meio da cuca, ia doer muito pela manhã. Olhei para o retrovisor, desalinhado, arrumei-o e vi um corpo pequeno se aproximando do carro. Pronto, ia ser assaltado, merda.

Esperei o que o pior acontecesse. Fechei os olhos e esperei, não era minha noite, com certeza.

TOC TOC TOC TOC

Bateram no vidro, merda, bandido tem educação agora? Pensei.

Sem enxergar muita coisa, desci o vidro e dei de cara com ela.

– queridinho, ta aqui sua cueca, passei meu perfume nela.

– obrigado… – eu não sabia como reagir.

– vê se não se esquece de mim, ta?

Dei partida. Ganhei a radial. O vento desbravava meu rosto, o melhor remédio para o álcool. Aumentei o som e fiquei pensando naquele pedido. Interessante, como eu esqueceria minha primeira vez?

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