Independência

Você não é escritor. Fase de escritor não existe. Ninguém consegue ser um escritor apenas porque quer. Não, você não é um escritor.

Minha família evangélica e tradicional não aceitou as drogas. Muitos deles são alcoólatras e fumantes, mas continuam batendo na tecla de que drogas licitas tudo bem. Bom, eu já esperava que seria expulso. Peguei minhas coisas e me mandei, não tinha muito o que levar, apenas uma bolsa com algumas mudas e roupas e uns livros de poesia do bukowski, o resto eu voltaria pra buscar depois, talvez quando eu soubesse onde ficaria.

Não tinha como eu ir para a casa de algum parente levando em conta que a historia da droga se espalhou por toda a família. Riscando o nome da tia/mãe da lista. Muitos procurariam os avós, porque avós são legais pra caramba, pena que os meus faleceram quando eu era muito pequeno. Pai? Não tenho. Meu pai era um grande mágico, me lembro de sua ultima mágica, quando eu nasci ele sumiu. Nunca mais voltou, truque de mestre.

Amigos? Bom, levando em conta que a família do meu melhor amigo é colada com a minha, tipo carne e unha, então eles já devem estar sabendo sobre a minha situação de doente, como disseram. Ouvi minha tia dizendo para me levarem pra cracolândia, algo como uma revolta contra as drogas. Eu não entendo bem a percepção deles sobre a maconha, mas deve ser porque não tiveram contato algum.

Peguei meu celular e fiquei vendo. Vendo os nomes passarem, todos aqueles nomes que eu mal conhecia. Quem era Renata? Godofreda? Mãe? Tinha diversos números, mas eu nunca liguei pra ninguém. Meu celular na verdade era mais um deposito de números inexistentes e impróprios. Eu nunca consegui ficar com o mesmo chip por mais de um ano, era difícil alguém ter o meu contato por muito tempo. Perdi todos os meus amigos de infância nessa brincadeira. O pessoal do ensino fundamental, do médio e da minha primeira faculdade, todos morreram no meu campo virtual.

Eu comecei errado, como sempre costumo fazer. Direito. Entrei na faculdade pensando que iria me dar bem e que o mundo melhoraria cem por cento. Fui influenciado por boa parte da minha família, tinha meia dúzia de gato pingado cursando Direito, então dava pra mim. Não aguentei nem seis meses e desisti. Foi a pior fase que já passei, porque eu nunca fui fã de parar algo no meio, por mais que não consiga ir até o final sempre.

Foda-se. Mudei pra jornalismo e pensei que minha vida viraria uma malhação, mas me ferrei novamente. Fiquei sem grana alguma pra pagar o curso e deixei nas costas do governo, como se todos os meus problemas já não viessem deles.

Não importa o quanto eu tentei ser alguém na vida, o que me resta é que tentei e me frustrei, agora sou visto como um vagabundo drogada que não tem o direito de dormir na própria cama mais. Eu entendo que a casa é da minha mãe e ela que dita as regras, mas para onde eu irei?

O único que podia me ajudar no momento era o Mário. Ele tinha mais que 40 anos e tinha sua própria casa, algo que eu não conseguiria nem com meus cinquentão. Mario foi do exercito e se gaba todos os dias por conta disso. Ele diz que recebe informações extraconfidencial, mas nunca mostrou uma prova de que elas realmente existem. Tem pinta de atirador de elite aposentado e fede a cigarros. Seu boné sempre esta na sua cabeça careca e brilhante, por mais que sua revolta contra o estado e o governo seja gritando, ele tem seus momentos de genialidade. Bom, pelo menos a sua jornada não foi em vão.

Liguei pra ele. Fazia tempo que eu não ligava pra alguém. Ele me atendeu surpreso, há uns meses atrás eu estava enchendo o seu saco com os meus papos de depressão. Sua mulher é psicóloga, me ofereceu ajuda, mas eu recusei, estava com medo de estar certo. Não passou muito tempo e meu quadro deu uma melhora, voltei a me afastar de tudo e de todos. É como se eu só precisasse dos outros por algum interesse pessoal. Eu entendo que sou egoísta, mas como é que cheguei a esse ponto?

Ele me aceitou em sua casa. Eu não tenho emprego, não sei como vou ajudá-lo com as contas de casa. Fui ensinado de que quando se utiliza algo, deve pagar toda a manutenção, e a minha estadia não seria de graça, é claro. Não falei com ele sobre preços, ele entendeu que a situação não é das melhores, mas com o tempo poderia melhorar.

Peguei o metro e fui. A casa dele fica ali na Saúde, não muito longe. Antes de chegar lá, imaginei uma caverna cheirando a cigarro e chulé, com as roupas dele todas iguais separadas, uma para cada dia. Sua mulher é magra, não me lembro o seu nome no momento, acho que é Beatriz, Berenice, ou… ele deve ser solteiro, ninguém agüentaria o seu cheiro por uma noite inteira. A não ser que eles morem separados. Não me lembro dele ter dito sobre ser casado, apenas que tinha alguém.

Seu cachorro é a sua cara. Um buldogg cinza triste. Mario é triste, por isso ele gosta de me ajudar, encontrou a sua tristeza na minha. Juntos somos a dupla mais triste de São Paulo, mas é claro que ele tem muito mais motivos para ser feliz ou não. Ele viu coisas que quase ninguém viu e isso o torna sábio. Existem poucos sábios no mundo, meu pai era um deles e seu ato mais racional foi ter nos deixado, imagina ele cuidando de uma família com vários filhos e uma mulher gorda em casa, querendo cobrar todas as roupas da moda, carro da moda, moveis da moda, seria a sua falência. Hoje ele vive com outra e ela que paga as suas contas, ele deu sorte.

Eu poderia ter a mesma sorte do que ele, encontrar uma senhora rica, me casar com ela e esperar que ela morra e me deixe sua fortuna, assim eu pagaria minha estadia na casa do Mario, ajudaria a minha mãe só pra quebrar as pernas dela por ter me expulsado e daria o resto para os pobres, assim todos ficariam bem de vida e eu seria o único menos favorecido, é sempre bom ser único.

Eu não gosto do jeito que a mulher do Mario me olha, é como se ela não estivesse gostando que eu fique aqui, acho que ela deveria falar o que pensa, assim a gente conversaria e chegaria em algum acordo, mas esse jogo de olhares não é comigo. Eu sempre me avancei nos relacionamentos com as minhas namoradas, esse papo de flerte é um porre, eu ia logo para o “tenho chances ou não”. Apesar de ser a maneira mais pratica, ela é a mais dolorida porque o não vem tão rápido que muitas vezes não estamos preparados pra sentir. Mas é inevitável, não gostamos de todos ao nosso redor, e nosso sensor de identificação nem sempre funciona. Sempre tem a pessoa que só iremos gostar no futuro, é como se fosse programada, para tal dia o sentimento mudar, e caralho, porque somos tão complicados assim?

Falei com Mario. Disse para ele que não estava conseguindo ficar por lá. Eu não me sentia bem vindo. A mulher dele não saia mais da sala, ficava com cara de cú, parada, estagnada, no sofá, olhando para todos os lugares que eu ia. Como se fosse uma supervisora, e eu odeio supervisores, porque eu nunca consegui ter um chefe legal. Me lembro de quando entrei na minha primeira empresa. Eu era menor aprendiz e então os caras deitavam e rolavam em cima de mim, mas eu não dava mole pra eles não. Certa vez fui assinar as minhas férias junto com as férias da escola. Marquei tudo beleza no caderno e quando o meu chefe chegou no setor foi logo me perguntando sobre o que eu tinha anotado.

– porra, Victor, como assim você quer férias em dezembro? É quando mais precisamos da sua mão de obra.

– vou tirar férias junto com a escola.

– não vai não, você nem falou comigo antes.

– então eu vou ficar na sua casa com sua mulher, porque o pessoal da minha casa vai viajar e eu não posso ficar sozinho.

Ele arregalou os olhos e eu tenho certeza de que queria me matar naquele exato momento, se não antes também.

– porra, você só quer me fuder, não é?

Essa historia nunca morrerá, eu fui o herói de todos os funcionários oprimidos. Eu deveria fundar o sindicado do bocudo, algo que desse voz a todos os cuzões que engolem todos os tipos de ordens e opressões.

Entrei num acordo com o Mario, eu ficaria na sua casa no período que ela estivesse trabalhando e nos finais de semana eu escolheria outro lugar, como eu conheço muitas mulheres, foi propício.

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