Aquela carta

Fui até o correio e nada da carta chegar. Voltei para me embriagar, tentando fugir do que eu chamava de saudade. Duas horas depois, já corroído pela angustia do álcool voltei para o correio, e lá estava sua carta. Vibrei por longos instantes, mas não mudei minha fisionomia, queria controlar as minhas emoções para não tomar um tombo.

Peguei a carta e levei para o lugar mais longe que pude, a pureza de suas palavras não poderiam se corromper com a turbulência cinzenta das ruas de São Paulo. No alto da vista da cidade li suas frases de quem sentia pura saudade. Não aguentava as nuvens de lagrimas que rodeavam os meus olhos, ela realmente não estava comigo, eu não podia senti-la se aproximando para ganhar um beijo. Relutei o máximo que pude, então tive de tomar a pior decisão da minha vida. Apaguei.

Acordei voando, com a velocidade da luz nas pontas dos pés, e eu fugia de todos os tipos de lembranças dela, mas não conseguia sair da linha que me distanciaria dela. Os ventos sopram forte para eu parar meu vôo que aterrisso no telhado de casa. Ela estava incrivelmente bonita com seu vestido longo, passeando pela minha vista. Acenou para mim e eu fui até ela, queria que ela conhecesse as nuvens comigo. Ela aceitou sem relutar, fomos direto para as nuvens, num pulo tão rápido que não tinha explicação para o que nos impulsionava. Ela tem medo, mas não consegue resistir ao vento no rosto e a sensação de poder olhar para todo o mundo.

O céu escurece e ela precisa ir embora. Volto para o solo sem a mínima vontade de ficar nele, e quando ela some na neblina da noite eu volto ao vôo, fugindo de tudo o que me faz lembrar dela. No outro dia ela volta e não me encontra, estou voando por aí, me sentindo mais superior do que tudo e todos, até que ela me vê e seus olhos brilham olhando para o sol. Eu volto para a realidade e a abraço, ela parece contente, como se a distancia não fosse nada.

Eu a beijo e sinto seu corpo se desfazer nos meus braços, como um holograma sendo desprogramado. Ela se transforma em cinzas de presença e eu não sinto mais seu cheiro ardido de colônia francesa. Vôo até os fragmentos dela e tento junta-los, mas nada reproduz a imagem dela de novo. Ela desapareceu.

Saio pelos ares descontrolado e pego o caminho da praia. Eu nunca tinha voado por lugares tão distantes assim, mas sigo o fluxo dos carros e das montanhas. O trajeto é difícil e eu não desisto, enfim chego às areais amareladas de baixo do céu quente. A água continua tranquila, com ondas baixas e nada de eu encontrar os seus olhos.

Vago pelas esquinas enquanto o dia vai escurecendo. Luzes se acendem e eu ouço o barulho da cidade aumentando para convidar os casais a passear. O dia vira e eu vejo os rastros do seu cabelo passando pelo farol vermelho, corro até onde as solas dos seus pés tocaram, e a vejo indo embora da universidade. Ela anda rápido como se tivesse alguma pendência para resolver, o seu rabo de cavalo balança para lá e para cá, entro em transe, tropeço. Vejo sua silhueta se afastando e ficando cada vez mais embaçada. Você se vai.

Adormeço em clemência da sua presença e vejo duas luas no céu, como se fosse o dia escolhido para o crepúsculo desse novo mundo. As luzes brancas do centro da praça se ascendem e ela passa pelo meio, por de baixo das trepadeiras grudadas na estrutura de madeira. Seu vestido reluzia mais do que os postes, e toda a luz do mundo emanava do seu corpo.

Tento voar até ela para fazê-la lembrar de todas as nossas viagens, mas meu corpo não sai do chão. Sinto que perdi os meus poderes e sou como um mortal qualquer. Forço as minhas pernas a se locomoverem até ela e a surpreendo com um Oi sutil. Ela não esperava que eu fosse. Por mais que eu soubesse como acabaria minha noite com ela me entreguei para o prazer. Passamos uma noite de amor e eu sei como terminaria. Pela manhã eu acordo e ela já tinha sumido, sem deixar nenhuma pista, e eu nem sei se ela realmente existiu.

Me levanto e vou respirar um ar fresco pela janela e a vejo no meu quintal, com o mesmo vestido reluzente e as bochechas rosadas. A nostalgia do sonho me ataca e eu vou até o seu encontro. Ela me olha como se não me conhecesse, mas eu a conhecia muito bem. Fico pensando se eu já a conhecia ou apenas entrei em outra camada de existência. O cheiro, toque e sabor dela eram tão reais que eu era capaz de reproduzi-los, mas nada provava que ela já havia existido, e eu começo a conversa com um “Oi, qual o seu nome?”. E ela me diz que deve me conhecer de algum lugar.

Guardo a carta no meu bolso e fico com todas aquelas palavras passando pelos meus olhos, formando outros sentidos para tudo o que você tentou me contar. Minhas viagens até o corpo espiritual dela estavam sendo o remédio para me manter com ela em mente. Poderia desistir desses momentos dolorosos que as ondas trazem, mas com todas as emoções que você transportou dentro do envelope me disseram para continuar.

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