O SANGUE PULSA

O ar quente e inflamado do sol de sábado não se igualava ao clima de sexta feira a noite. Na madrugada interminável de sirenes vermelhas, inserindo medo sem motivo e agitação descomunal, guiava nos quatro para o buraco mais negro das alucinações. Passávamos a garrafa verde de mãos em mãos. A boca seca, a garganta queimando, a cabeça pulsando. As vozes ao nosso redor estavam mais nítidas e sabíamos dos assuntos alheios finalmente, mas nada poderíamos fazer, são tantos problemas que nós mesmos criamos, que passamos noites a fio tentando resolver o que causaremos logo após.
A noite que deveria ser embalada de álcool e narcóticos na medida em que nos deixaria despreocupados, fora o motivo chave das nossas preocupações. Eu via as luzes dos postes se dilatarem, como se fossem coladas como modelo para foto de uma lente com o diafragma menos lento. Capturando o maior foco de claridade possível, iluminando cada esquina do centro da cidade, seguindo as motos em alta velocidade, até mesmo a que estacionou do nosso lado.
Minhas alucinações deram início quando fomos surpreendidos por um gesto em formato de arma apontado para um dos nossos amigos. Por sorte era um de seus conhecidos,  que queria apenas assustá-lo com a abordagem. O motoqueiro ainda de capacete nos trouxe as garrafas verdes, bebemos na ânsia feroz da sede, mas logo nos deleitamos no desânimo da angústia que nos assolava. Júlio fora o primeiro a sentar na quina do bar, como se fosse fugir das maliciosas miragens da marijuana, tomando apenas água tentando limpar seu organismo, ele queria manter o controle, assim como todos nos fazemos durante a semana em nossos empregos caretas e maçantes. Vestimos máscaras e seguimos boa parte das regras da constituição, esperando pelo breve momento em que teremos a sensação de não pertencer mais a esse sistema, e ser donos de nossos próprios atos.

Um cara que era amigo deles e metido a político apareceu falando sobre mulheres e querendo em ensinar a me relacionar com uma. Deixei que ele dissesse tudo o que tinha pra falar e então contei algumas poucas coisas sobre mim que ele se calou. O fato de ele cantar vantagem por causa de piadas de duplo sentido, que eram correspondidas de forma educada pelas mulheres que ele conhecia, era o fato principal em que ele se mantinha como um galã. Me contive para não deixá-lo constrangido e comecei a passar mal com o tanto de merda que aquele sujeito cagava pela boca. Cheguei a ponto de querer esmurrá-lo a cara e arrancá-lo o bigode falsete de suas fuças. O meu sangue fervilhava mais do que as veias podiam conter e fiquei vermelho de fúria, me levantei e sai do saguão. A droga nos mata ou nos faz matar, a não ser que já tivermos mortos, e eu me sentia morrendo.

Os carros passando sem frear nas lombadas acelerava a minha mente. Entrei em uma camada individual de realidade e senti as vibrações inconstante, pulsando na minha cabeça, deixando tudo grande e pequenos depois, pirando as ideias, girando em forma de portal, ficando leve e convicto. O morador de rua que talvez estivesse sentindo a mesma sensação que eu ou pior, com certeza, me olhava de longe, e como se sentisse convidado veio em minha direção. Ele esbarrava em tudo na sua frente, as pessoas não eram obstaculo para ele, e enfim eles ficaram na mesma posição social e moral. Ninguém se via aquela noite, contava seus problemas e não ouviam os dos outros, falavam sobre suas derrotas e não compreendiam as dos outros, não eram conversas, eram informações próprias. Eu via todos se vendendo verbalmente, como se não tivesse descanso para a pretensão meritocrática. Eu sou, eu posso, eu vou. Os diálogos eram iguais em cada canto da rua.

Não perguntei o nome do meu parceiro de alucinação, mas decidi chamá-lo de Silva, já que muitos Silvas sofrem diariamente e na nossa frente. Silva encontrou com o meu nariz e analisou minha cara enfadada da sua existência. Soube o porquê eu estava ali e não encanou com os meus amigos. Fez o sinal com os dedos sobre sua luta, e eu o compreendi, quis tira-lo dali mas senti que não era o momento, ele tinha outras almas para salvar além da minha. Silva se afastou para fazer flexões, alguns bêbados riam, Silva era mesmo um comediante dos bons. Ele não escolheu levar a vida que tem, foi uma questão de necessidade, que muitas vezes nos fazem agir por extinto, nos transformando no animal primitivo que somos por dentro. Silva conseguiu domar o seu animal interior e treino-o, por isso eu o respeitava, tinha a força de um monstro dentro de si, mas se limitava a andar na pele de um humano.

Bebemos o máximo que podia, ou a embriagues nos derrubaria ou as alucinações não falhariam. Subimos para onde se podia ver a cidade inteiro e nos sentamos na grama, era só eu e a garota. Notei que ela estava sentindo as mesmas visões que eu, então quis mostrá-la um remédio que era eficaz para mim. As luzes das casas acordadas vistas por cima, era uma longa injeção de suavidade, para controlar as viagens ruis e se manter consciente. Acredito que ela tenha melhorado, até me beijou. Eu o sentia como forma de convida para nos deitar por de baixo da arvore no crepúsculo da praça. Rolamos por cima de tudo que tinha matéria e massa, suamos por toda a terra, transformando-a em barro e nos sujando por inteiros.

Vi o sol nascer junto com ela se contorcendo em cima de mim. A bola de fogo solar subia pelo horizonte junto com o pescoço dela, e os dois encontraram o ponto fixo no céu, e eu a olhei com os olhos dilatados pelo brilho, e pude ver seu rosto radiar sentindo as contrações do orgasmo. Qualquer um se viciaria nas alucinações da sua droga, se corroendo pelas piores abstinências. Matando por amor, ou pelo que entendemos como amor.

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