Você nem sabe o meu nome

Naquela tarde você entrou pela porta do bar e pediu que eu te pegasse uma cerveja. Mal olhou nos meus olhos, mas eu pude ver toda a sua beleza enquanto me apontava qual a marca queria no cardápio. Esperei em que ela falasse todas as palavras só para ter mais tempo de ouvir e conhecer a sua voz. Só depois de tê-la sentido falar dentro de mim que atendi ao seu pedido. Fui para a cozinha como que em transe e peguei outra garrafa. Dei-a e não consegui mais afastar os meus olhos de cima de ti. Você tomou em leves goles, sua garganta dilatava para o liquido descer. Seu rosto voltava cada vez mais rosa para a direção de todas as suas amigas em sua volta.

Você sorria bastante, como que se não houvesse problemas alguns no seu mundo, e aquele dia era o melhor dia que você podia ter, e por isso bebia com suas amigas. Admirei por mais alguns eternos minutos o quanto que seu sorriso era gostoso de ouvir. Sua expressão fácil era de que no final da noite chuvosa há sol, e que os problemas no final sempre são resolvidos, e isso me fazia viajar com ela, como se nós agora pertenceremos a esse mundo onde tudo era resolvido. E eu no aguarde para te atender de novo.

Quando você me olha e grita o nome de algum prato. Eu mal entendo o que me disse, pois só de ouvir o timbre da tua voz meus sentidos estremeciam, e o que eu queria era o espaço e tempo para voltar a te olhar. Outra cerveja, e eu lhe traria toda a embriagues que seu corpo poderia aguentar. Mas não deixe que essa noite passe despercebida, virei seu rosto só mais um pouco para encontrar com o meu.

Você nem sabe o meu nome, mas eu vi o seu na lista de clientes. E eu poderia colocar os nossos nomes juntos no papel. Você não ia se arrepender de passar as tardes comigo vendo a chuva cair lá fora. No nosso quarto de apartamento de dez andares no subúrbio de São Paulo. Não era a vida que os seus pais disseram que você teria, mas tem como passar bem, e cada dia é melhor do que o outro, acredite.

E eu guardei o seu nome num papelzinho de pão, do mesmo pão que te levei fatiado com as calabresas fritas. Por mais que você não soubesse o meu nome, nada adiantaria pois não tinha como saber se eu te reencontraria. Fiquei semanas esperando que entrasse novamente pelas portas do bar, na ânsia de que aparecesse logo e pedisse um copo comigo dentro.

Por tudo o que é sagrado, ela entrou no momento em que pensei sobre ela realmente entrar, e sentou na cadeira mais próxima em que eu estava atendendo. Me chamou bem baixinho, tanto que não consegui ouvir nas dois primeiros assovios. Me chamou como os pássaros cantam na mudança de estação. Teus olhos nunca estiveram tão pintados e você me fez seu pedido. Queria aguá, talvez fosse voar por aí resgando todas as arvores que dá o seu fruto.

Você me tratava como se já nos conhecêssemos, ou pelo menos foi isso que eu consegui entender. Imaginei que fosse perguntar o meu nome dessa vez, mas só fez o seu pedido. E mesmo que sorriso mais para os meus olhos, você continuava a não me olhar, simplesmente cruzávamos os olhos sem se encontrar. Talvez se eu gritasse o meu nome bem alto, você pudesse ouvir aí do outro lado. Mas me limitei a ouvir os pingos da chuva, que sempre caem sem o menor esforço.

Noites a frente eu a encontrei num bar dançante. Eu não estava trabalhando daquela vez e ela ainda mais linda. De vestido escuro com brilhos, balançando a cabeça no ritmo da música enquanto caminhava. Me viu involuntariamente e talvez parou pra pensar, que era eu que te atendia e ficava esperando você me chamar de novo para mais um pedido. Outra ordem de amor que só era cumprindo vendo seus olhos de satisfação. Você tinha todas as minhas entregas e regalias, e nos encontramos aqui dessa vez, e olhe… me notou? São tantas pessoas a procura de algo mais cheio aqui dentro, que fica difícil notar o meu rosto, que deva ser só mais um entre tantos outros tristes, mas que se apaixonaram quando te viram voltar. Você se lembrou de mim.

Me contou que não esperava que fossem as mesmas pessoas e que já tinha me visto em outras noites, mas que nunca se aproximou por causa do medo de gostar. Tiveram outras dessas crises de sequelas passadas, e preferiu nem tentar. Me olhava de longe do outro lado do balcão. Esperando que eu fizesse o meu pedido para o garçom para ouvir minha voz. Quando eu dizia as primeiras palavras você entrava em transe com o som que emitia dos meus lábios, e entrava em transe, no final nunca sabia o que iria chegar para mim. Nunca conseguiu ouvir um pedido meu em sã consciência.

Vinham todas as noites que podia para o mesmo bar dançante esperando que eu aparecesse, mas não era sempre que eu ia. Tinha que trabalhar nas noites em que poderia ser atendido. São consequências que temos que aceitar, e por mais que houvesse desencontros, os encontros ainda eram mais memoráveis.

O país entrou em crise e eu não pude mais sair para beber. Você nunca mais me viu naquele bar dançante com as musicas mais antigas e bonitas dos anos 90. E eu não a vi mais no bar em que trabalhava, você ficara triste por não encontrar mais o homem sozinho do outro lado do balcão que não saiu mais de casa. Até que o destino no aplicou a sua droga que é a bifurcação dos caminhos e nos separamos por espírito. Não mais a vi por anos.

Não esperava reencontrá-la depois de tanto tempo. Você segura as mãos do seu filho mais novo enquanto o outro corre na sua frente. Eu vejo o quão lindas são suas filhas, com todos os seus belos traços, a sua personificação mais antiga que posso ter. Eu vejo o quanto você era graciosa enquanto pequena, e que nada mudará para os dias de hoje. Poderia ser eu os pais dessas crianças se pelo menos você tivesse perguntado o meu nome. Mesmo que esquecesse depois eu voltaria a te lembrar em sonhos. Mas você nem sabia o meu nome.

Saiba que poderemos nos encontrar mais vezes ainda, e que não haverá cidades que não nos faça batermos com os rostos de encontro por uma dessas ruas. Vê se liga, quero conversar com você sobre todas as lembranças que nem tivemos, mas ainda podemos ter. Eu não quero saber se você já está com alguém, ou nem que esteja com o coração já preenchido, tem algo que você ainda não sabe: quem você queria era eu, e o que você procurava na verdade era o meu nome, que você esqueceu-se de me perguntar naquela noite no bar. E por isso que tivemos tantos desencontros. Você saiu e nem perguntou o meu nome.

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