Último texto

Talvez esse seja o último dos textos. E por mais que venham outros depois dele. Nenhum irá tirar o seu lugar de último, a peça que sela uma palavra de ordem ou algo que o valha. Falo sobre a escrita, que por tanto tempo me segue, nós não as escolhemos, ela que nos escolhe, você já deve ter ouvido isso em algum outdoor barato.

Vejo tantos ‘escritores’ vendendo suas ideias por tão pouco, e revistas falando sobre livros que nada tem a dizer. Infelizmente a corrupção afeta todas as esperas e a literatura não ficaria fora dela. Até mesmos os mais novos escritores não percebem que estão aprendendo da maneira errada. Haverá novos escritores a cada dia, mas não bons. A nossa percepção do que é bom mudou, enrugou, morreu. E eu que quando mais jovem pensei em ser um deles, por pouco não deslizei, mas sigo errando. E a cada erro percebo qual o certo, o difícil é como fazê-lo.

São tantas bocas cheias de dente me dizendo o que é que eu devo fazer, mas não vejo nenhuma delas fazendo nada, e isso me deixaria confuso se caso eu já não conhecesse esse modus operandi da nova geração. É ódio puro e coletivo. Existem mais juízes do que réu, e isso deveria ser bom se não fosse trágico. Muitas das vezes eu erro só para ver de qual boca sairá a primeira praga. Para a minha surpresa todas elas se abrem em uníssono e esbravejam ordens, em cima de jugos que alguns diriam ser justos, outros não. A mídia segue fazendo o seu papel, manipulando cada um de nós e mesmo quando pensamos que não estamos sendo manipulados, PAAAAN! Estamos também, pensas que pode fugir? Se enganou.

Ouço as pessoas dizendo que já tiveram suas fases de escritores como se isso fosse de fato uma fase. Gostaria de dizer que já tive minha fase de Médico, Advogado ou Engenheiro, mas não. Ouço-as dizerem que também escrevem, mas que guardam para elas, e é como se o mundo inteiro escrevesse e eu me torno obsoleto. Bukowski desejaria a morte de todos eles dentro do seu quartinho escuro de hotel, e eu faço o mesmo no meu quarto – da minha casa própria. Acredito que poucas coisas nos diferem, uma delas são as diferenças. Todos nós carregamos aquilo que nos torna diferente e por isso únicos. Não existe igualdade, querê-la é utópico.

Imagine se nós utilizássemos o nosso tempo que gastamos querendo a tão esperada igualdade, na busca de misturas entre as categorias e grupos. Só assim para tentar amenizar as diferenças gritantes. Querer ser igual é deserdar suas características únicas e se igualar ao do próximo, e isso infelizmente não é possível de acontecer. Você nasceu único, aceite, ou acabe logo com isso, a distância da janela da cozinha para a rua é o bastante.

Falamos, falamos, falamos. A todo momento, e nos intervalos das discussões mal notamos que não entendemos quase nada do que dissemos ou ouvimos e as informações são passadas para frente, sem o mínimo de compreensão, e então uma legião cheia de si e ao mesmo tempo confusa se ergue, e não há mais nada ao que fazer se não ouvir todas as baboseiras. O mundo nós está enfiando merda goela a baixo e não sentimos a menor vontade de impedir. Até que é gostoso.

Nem sempre somos os heróis. Há guerras em que somos os nossos próprios vilões e não há mal nenhum nisso, afinal, a quem você quer agradar? A síndrome da razão inabalável nas redes sociais nos veste de bons cidadãos, mas na rua é que mostramos o quanto somos egoístas e nos preocupamos apenas com nosso mundo. Azar daquele que não teve a mesma sorte do que a nossa. “Eu suei por isso”, “trabalhei duro pra conseguir”, “estudei pra chegar aqui”, “eu não sou egoísta, só não tenho condições de ajudar”. E então todos nós somos bons e solidários, mesmo não ajudando nem a si próprio, e o criador dessa merda toda se deprimiu por ver aonde chegamos, e o pior de tudo é que nos afundaremos ainda mais no poço, basta nos dar tempo.

Atravessaremos as merdas do fundo da terra e quando não houver onde mais cavar, continuaremos cavando, mesmo que a terra exploda, continuaremos nos afundando na lama da ambição, alimentando nossa pretensão natural, dizendo que são nossas necessidades, quando na verdade são nossos extintos de animais que se tornaram irracionais a partir do momento que pisamos na terra, e eu quero saber quem é que escreverá o final dos tempos. Por isso esse será o meu último texto.

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