Ponto de impacto

Vai parecer mais uma viagem isso que eu vou te dizer, mas quando estávamos juntos, mesmo que de longe, com três andares nos separando, era como se a gente sempre estivesse perto. Eu esperava dar a hora do intervalo todos os dias para poder vê-la. Ficava no bebedouro, olhando para os lados e tentando encontrar o rosto dela no meio de tantos outros.

Quando eu via aquele sorriso esticado no seu lindo rosto, eu entrava nessa viagem que estou tentando te contar. Imagine tudo em sua volta ficando menor e você passa a ser o olho que vê tudo, e a única coisa quem que consegue fitar é o sorriso dela. Como que ele iluminasse todas as partes do pátio, e eu a vendo pelo bebedouro.

Meus amigos não acreditavam que ela vinha até mim me dar um beijo no rosto, e perguntavam como eu conseguia. Eu não sabia responder, não tinha o que falar, simplesmente tinha acontecido. Eu não sei quando e nem como, mas viramos conhecidos.

Eu não sei como é que chamamos quem a gente só admira de longe, encostado no bebedouro, mas para mim era o meu namoro. E ninguém mais precisava saber disso, porque dizer para os outros o que acontece com nós? Mas não tinha como esconder, estava na minha cara, como se o seu nome estivesse tatuado na minha testa.

Eu comecei a desenvolver uma teoria. Era do momento em que eu te via e passava a te sentir, eu o chamava de Ponto de Impacto. E isso porque as pontadas vibrantes chacoalhavam minha vista e meus sentidos, vendo o seu cabelo balançar enquanto anda, e ouvindo os rastros sonoros da sua voz quando conversava. De repente seus olhos cruzavam os meus, e eu tímido, abaixava a cabeça para o chão, tentando disfarçar.

Ela sorria para dentro, e vinha até mim, e a cada passo que ela dava na minha direção, os pontos de impacto me penetravam, tremendo, tremendo e meu sangue esfriando, fervilhando friamente, e nada em minha volta emitia som, só os seus passos, na minha direção.

Eu limpava a garganta e ajeitava os meus braços no bebedouro, tentando parecer o mais qualificado para ganhar o seu cumprimento, e que os seus lábios passassem mais pertos do meu possível, esse seria o clímax do meu ponto de impacto.

Seu cabelo de fogo dançava na altura do seu ombro e meus olhos seguiam a fumaça das suas cinzas, e não tinha nada mais perigoso e excitante para se apaixonar. Você brilhava entre as outras mulheres, e assim eu podia manter a minha visão no seu gingado, balançando de um lado para o outro, como que me chamando com o quadril, e minha mente delirava.

Por mais que o tempo tenha passado, as sensações impactantes continuam sendo a mesma, como força motora acumulada, esperando por recriar a física, peso e velocidade, balançando, rebolando e me tremendo todo, como um terremoto. E eu a olhando do bebedouro.

Tento imaginar como seria essa sensação nos dias cinza de hoje. Talvez os anos não tenham consumido com toda a nossa alma. E o brilho ainda continua no mesmo lugar que sempre esteve, tanto nos seus olhos quanto no seu sorriso, e aproveitarei o momento como todas as cores que já passaram por seu cabelo desde o vermelho ao preto, e os castanhos que mantinham a chama do ruivo. E os traços perfeitamente arredondados das suas bochechas e queixo se fixará no pó das minhas Lembranças e quando penso em você não me resta nada.

Escrevo pela necessidade cruel de ansiar-te, e nada mais tem valor e nem sabor se não for da sua boca, que eu ainda nem provei, mas tarde a tentar na imaginação. Brigo com o tempo que acelerou e não nos deixou se esbarrar na rua, mesmo tão perto pode ser tão longe, e nada fará se reencontrar? Não estou mais no antigo bebedouro.

O meu ponto de impacto termina no novo lugar que criei para ficar te esperando, o meu bebedouro interno que não há relógios para contar as horas em que te espero. Esse lugar é o que chamo de eternidade, não na dos humanos que é tão momentânea quanto a posição das nuvens no céu, mas eterna na medida em que as horas não consigam passar, e o ponteiro permanece congelado, e esse é a minha eternidade. No fim você irá aparecer e eu me ajeitarei no bebedouro, pronto para ganhar um beijo seu no canto dos lábios.

Nada foi tão bonito quanto poder ver vocês nos meus anos de ouro, e a memória daquela época é o melhor presente que eu poderia pedir de natal. São tantos natais que passando sem se dar conta de que um dia fora melhor, um dia encostado no bebedouro do pátio.

  Compra no boleto e paga na lotérica
   Baixa aí que é de graça

amazon-iconsaraiva icone clube icone google play  icone agbook

      twitter 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s