Amor urbano

E eu disse “que noite bonita para começar uma conversar que terminaria com os olhos fechados de sono”. E ela me respondeu com entusiasmo, como se fosse sua primeira conversa em anos. E não paramos mais de falar. A noite vira, o dia amanhece e os olhos cambaleando em baixo dos cílios finalmente se fecham, é hora de pausar as emoções, ou dormir – como vocês costumam dizer

Qualquer dúvida sobre a falta de amor de São Paulo é mera coincidência. Como negar todos os sacrifícios que fazemos pegando o metro lotado pra passar um pouco mais de tempo com a namorada? Ou quando ficamos esperando por horas e horas na catraca mais movimentada que já vimos, tantos rostos passando, a cada rabo de cavalo eu penso que é você chegando, mas não, se atrasou de novo.

Te levo na cafeteria e peço o mesmo de sempre. Café com pão de queijo pra dar tempo de esperar a janta. E rimos tanto que nos esquecemos do que estávamos falando. E eu abro um site da internet, que diz ter um teste que nos dirá se estamos apaixonados ou não. Você nem acredita que isso possa ser possível, mas eu tento, não tenho nada melhor a fazer. No final das perguntas desse tal teste tudo continua a mesma coisa, acho que não funcional. Como dizia Marechal “computador não capta mensagem espiritual”, e já é tão nítido ver se a paixão ou não no nosso olhar.

Volto pra casa antes que o trem pare de funcionar e os vagões estão tão vazios. Posso sentar onde eu quiser. Eu dançaria se soubesse, ninguém irá perceber, é só eu e os trilhos percorrendo a cidade. As placas de propagandas passando tão rápidas que nem posso ler o que devo comprar ou usar. Esta cada vez mais difícil escolher o que iremos fazer, como se isso fosse dever de terceiros nos conduzir, prefiro não, tenho meus próprios gostos.

O cheiro do churrasquinho de gato alarma o meu estomago. Tiro os três reais da passagem do dia seguinte e compro o espetinho com farofa e pimenta. Sujo toda minha camisa e o banco do ônibus até chegar em casa. Giro a chave duas vezes para a esquerda, levanto a maçaneta e empurro. Minha casa, meu abrigo.

Tiro todo o peso das minhas costas. Coloco o prato pra esquentar no micro-ondas. Abro uma cerveja pra matar a sede da madrugada que está entrando e me jogo no sofá. A televisão narra os acontecimentos principais do dia e todas essas manifestações me fazem lembrar o quanto estamos matando nosso tempo sem propósito algum. O que era felicidade a igreja tirou, e essa corja de político não me tira mais o sono.

Te escrevo palavras de boa noite prevendo o momento em que eu fosse dormir, mas só apagaria duas horas depois. Parece não ter romantismo na cidade de pedra, mas só quem dobra a grande metrópole sabe que essa nova relação urbana, e todos os e-mails ainda por enviar, emoticons de coração e flores, é o mais perto que chegamos de Shakespeare. O importante é não perder o ponto enquanto dorme. Estamos há um pouco mais que vinte estações de distância, e nem por isso deixamos de curtir o perfil do outro, quando apareceu pela primeira vez na tela do nosso celular.

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