Se eu fosse mulher

Estaria usando vestido florido assim como aprendi quando criança. Não seria ensinada a andar sozinha, por causa dos perigos da rua, e só o meu irmão iria á escola sozinho, porque para homem é menos perigoso, e aí de mim se eu contestasse meus pais por isso.

Se eu fosse mulher teria que usar batons e maquiagens na cara, como se eu fosse uma pintura que todos os dias precisasse de retoques. Eu teria sido ensinado a gostar de bonecas e não de bonecos, brincar de casinha e não de carrinhos, lavar a louça e não jogar bola com os outros garotos, cuidar de casa e não se cansar de brincar na rua, como todos os garotos geralmente fazem.

Se eu realmente fosse mulher, teria mais obrigações desde pequena. Começando pela atenção até na hora de ir ao banheiro, ao verificar se a privada não foi toda mijada por algum órgão masculino cego. Será que é tão difícil mirar o mais próximo possível do centro do mictório? Como se tivessem barreiras que impedissem de deixar o banheiro limpo.

Eu não sei se aguentaria ter que ver todos os homens de uma casa após uma refeição se retirarem da mesa, para ir ao sofá ver o futebol ou conversar sobre política enquanto as mulheres se encardam da sujeira que ficou. Como se fosse obrigação natural da mulher.

Se eu fosse mulher, eu engoliria o fato de trabalhar o tanto de horas que o meu marido, no mesmo cargo e mesmo assim receber menos do que ele. Menos mérito, salário e consideração, e o pior de tudo: quando faço algo de extraordinário sou vista como diferente das outras mulheres, sendo que todas as outras são tão capazes quanto eu.

Caso eu não tenha a preparação suficiente para brigar no mercado por um serviço simples que fosse, a ideia da prostituição ocorreria na minha cabeça e com ela todos os paradigmas da servegonhice da mulher,  como se todas elas escolhessem essa vida por motivos vocacionais. E veria os homens desfrutando da profissão como galãs do sexo, que têm direito até de escolher os dias que trabalharam, e vivem num cenário muito mais vantajoso do que a da mulher, que muitas vezes não conseguem mais voltar para as suas vidas normais, carregando preconceitos e traumas vividos no dia-a-dia da prostituição.

Se eu fosse mulher, eu nunca poderia falar sobre sexo com meus pais, pois isso denunciaria a minha face tarada e desrespeitosa, e eu não seria vista como esperta, assim como aconteceu com meu irmão na primeira vez em que contou sobre sua namoradinha do colégio.

É como se fosse natural do homem amadurecer sexualmente mais rápido e por consequencia ter suas vontades sexuais, e além disso, elas serem privilégios e adendos que os deixa ainda mais interessante. E eu como mulher, devo me guardar para o “homem certo”, enquanto esse homem está por aí, na procura da certa, sem mesmo querer encontrá-la.

Quem me dera ter a liberdade de falar com meus pais sobre todos os caras que me cantam, que me elogiam, que me acediam. De certa maneira eu seria taxada como a causadora dos flertes, “não deveria usar essas roupas curtas!”, “e esse shortinho? Pediu por isso!”. E não para por aí!, aí de mim se tivesse um padrasto em casa, daqueles que tentam se relacionar com as noras, com certeza minha mãe colocaria a culpa em mim, por mais que ela me visse se debatendo no chão tentando tirar o porco de cima de mim. Seria expulsa de casa.

Para melhorar as coisas, falarei sobre a minha expulsão. Ela não seria igual a do meu irmão, até porque o homem não é expulso pelos pais, ele saí de casa em busca da sua independência a maturidade.  Mas e eu? E a mulher? No mínimo ela engravidou ou é uma vagabunda de quinta mesmo! Nenhuma mulher que se preze é expulsa de casa.

Pronto, estou morando sozinha. Enfim tenho a minha independência e liberdade. Claro que não! Ontem mesmo a minha vizinha espalhou boatos de que eu estava usando minha casa de motel, porque trouxe meu namorado para dormir comigo. Que burra que eu fui! Esqueci que casa de mulher não se entra homem, nós não temos a mesma liberdade que eles para se utilizar das suas privacidades na própria casa. Me desculpem sociedade, serei menos puta no que se refere a minha relação com quem eu escolhi ter.

Eu não posso me esquecer do meu corpo. Trabalho como modelo de cerveja, apresento uma marca famosa de cevada e preciso vestir sais curtas para me passar por garçonete sexy, bom, pelo menos essa é a ideia do produtor do comercial, eu não posso falar sobre sua forma machista e arcaica de reproduzir sensualidade da mulher, sem contar que ele apela com nudez para vender sua cerveja, deve precisar mesmo do dinheiro. Meu irmão que se deu bem. É modelo. Usa o corpo assim como eu para se sustentar, e adivinhem? Ele é bem ovacionado, e eu me contento com os jugos de outras mulheres sobre a forma em que trabalho, mas eu não esquento a cabeça com isso, levando em conta que são as mesmas que admiram o meu irmão.

Preciso falar que os valores são invertidos ou isso ficou claro? O que não nos deixa enxergar as injustiças que são cometidas com o sexo feminino é o condicionamento machista que o mundo aceitou ter, desde quando Jesus fora homem e Maria Madalena prostituta. Ou então que a representação de Deus seja um velho barbado, sentado em seu trono com o cajado que tudo vê e tudo faz nas mãos. O próprio Adão foi criado antes que a mulher, mas dessa vez Deus percebeu a merda que fez e consertou lindamente com apenas uma costela.

Mulher também transa, mulher também goza e se masturba. Tem cara que diz “que estranho pensar nisso”, ou “uau, muita depravação”. Sem comentários. A punheta é bem mais memorável do que a masturbação feminina. Conseguimos até aceitar que todos os garotos devem praticar tal ato quando pequeno, mas que é falta de pudor uma garota ser pega se tocando. Como se fosse errado ou feio, e assim, nós mulheres nos privamos de conhecer nosso corpo e nossas fantasias muitas vezes.

É natural de que o homem coma a mulher, e que ela ofereça a ele o que tem de comível. Mas como isso é possível? Por acaso a banana come a boca? Qual instrumento sexual é inserido? Bom, respondido. A mulher come, come de todas as formas imagináveis. Ela não só recebe como também dá. E não tem como negar que tiram a importância ativa delas quando relatam sobre o sexo, como se o homem fosse o controlador e líder da situação, e a mulher a submissa e moldável.

Se eu fosse mulher estaria indignada com a forma de igualdade que pensamos ter, e explicaria que machismo não é escolha, é posição potencial genérica, que todos os homens carregam, seja ela em alto ou baixo nível. Mas tem salvação, a humanidade tem cura! Não precisa queimar sutiã, nem vestido e nem nada do tipo, basta eliminar o condicionamento de sexo começando pelo nascimento. Cada um tem o direito de escolher o que será e do que gostará.

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