O que é saudade?

Ele só tinha sete anos e me disse que já tinha sentido saudade. Fiquei me perguntando com quem ele tinha aprendido aquilo? Saber gritar palavrões e gírias modernas, tudo bem, é aceitável com o mundo que temos hoje, mas saber o que é um sentimento tão sublime quanto a falta de uma pessoa, isso eu não sabia, me surpreendeu.

Claro que eu perguntei com quem ele tinha aprendido. E me disse que não sabia, imaginei se fosse quando ele estava na barriga de sua mãe, mas não, quando o garoto estava na barriga da minha prima, eles nãos e desgrudavam, não da pra sentir saudade assim.

Talvez seja quando sua mãe teve de sair pra trabalhar antes mesmo que ele pudesse completar três meses de idade. Ela se foi limpar os quartos de motéis enquanto ficávamos em casa, se virando como dava. Minha mãe não sabia se agüentaria as pontas sem o meu pai por muito tempo, mas ela tentou. Ouvia xingos saídos dos quartos:

– VAI, SUA VADIA!!!

– GOSTOSA, NÃO PARA!

– AHH, MAIS RÁPIDO, MAIS RÁPIDO!

Ela ouvia isso todos os dias, todas as horas, todos os minutos. E quando voltava embora pela manhã, tentava ensinar pra gente o que há de melhor nessa merda desse mundo. Ela teve de aguentar o seu chefe tentando encurrala em um dos quartos, enquanto ela estava tranquilamente trocando alguns lençóis. O filho da puta daquele branco, rico, porco, não sai da minha cabeça. Não teve com ela aguentar a pressão, muito assedio e humilhação, logo numa época tão impune de mulheres reclamonas. Como se elas tivessem um trato de sofrerem em silêncio.

Mas ela não aguentou. Tinha um mínimo de orgulho para mudar. Foi encubar neons em lâmpadas. Era a única opção. Nos viramos como dava em casa, sentia saudade mas nem sabia qual o nome disso. Chamava de outro dia, outro dia que eu conseguisse vê-la antes de partir. Olhar para as suas feições, e me lembrar de quando ela me ganhou, pegou no colo e me amamentou, foi o seu melhor olhar, e dele eu sinto saudade.

Eu tinha apenas dois anos quando precisei sofrer um pouco do que era ser abandonado. Nada de sentimentalismo, e nem apoio moral, estou falando de grana, leite, fralda. É disso que estou falando, a porra da necessidade fisiológica que todos carregamos e somos refém dela.

Se for escolher gostar saiba que será o novo refém da saudade. Ela te pega sem mesmo você saber, muito antes dela mesma ter nome, ela te invade. Desce choro, apaga o sorriso e você fica pra baixo, mas era como se antes voasse. Essa é a saudade de asas, traiçoeira e gentil quando lhe convém, e não tinha como ser diferente, ela já tem nome de mulher, A saudade.

O garotinho não sabia o significado daquela palavra, eu logo imaginei que não poderia ser diferente, mas mesmo não sabendo sobre ela, ele a sentiu, e isso que resumo as igualdades entre os seres humanos. Sendo do Japão ao sul da áfrica, pessoas sentirão o mesmo sentimento, mesmo que com nomes diferentes, são tantas línguas, quando será que todos falaremos a mesma?

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