Convite noturno

O cair da noite na augusta era costume de muitos bêbados. As pessoas simplesmente ficavam jogadas pelas calçadas pegando HIV da boca dos cachorros. Naquele dia eu não ia fugir do costume paulistano. Comprei um garrafa de Budweiser e segui descendo a rua mais movimentada da região. Rafael estava comigo, mais bêbado do que qualquer um por ali, não dizia nada com nada.

– ascende esse negocio pra nós, porra! – disse Rafa.

– aqui não, tem muita gente. – respondi.

– você é um cusão mesmo.

– evidentemente.

Na porta de um dos bares mais famosos, o bar roxo, uma moça de media estatura e corpo radiante via a noite passar, era como se ela estivesse enfadada de tudo, eu não poderia deixa-la daquela maneira. Me aproximei enquanto Rafael tentava ascender o seu cigarro.

– pode ir na frente, vou fumar. – disse ele.

Me encostei na parede perto do bar. Peguei um cigarro e coloquei na boca. As pessoas desciam e subiam a augusta, vendendo bebidas, drogas, almas. Pedi uma lata para a senhorinha que vendia ali perto. Tomei um gole e traguei meu cigarro. Soprei a fumaça azul para o alto. Rafa estava sentado no estacionamento a minha frente, ele estava quase dormindo, a noite parecia ter acabado para ele.

A moça do corpo bonito suspirou e entrou para o bar, dei a última tragada e a segui. Os marmanjos dentro do bar me olhavam, sabiam que eu estava seguindo a moça. Um deles colocou o pé para eu tropeçar mas fui mais rápido do que ele desviando. Eles me olhavam como se eu fosse o cara mais estranho do pedaço, quantas controversas. A moça não parava de andar, o bar parecia ser infinito.

– espere! – gritei.

Ela se virou, me olhou com olhos de fogo e voltou a andar, eu não conseguia parar de segui-la. Ela era o meu destino. No final do bar, ao lado do banheiro, tinha uma escada de madeira, ela colocou os pés no primeiro degrau e me olhou de novo, era o seu convite fatal. Não exitei. Subi a escada no seu encalço, eu não sabia onde daria mas precisava alcança-la e descobrir o porque do seu admirável ócio.

O corredor era extenso e escuro, pequenos focos de luz faiscavam quase que parando de funcionar, era o que iluminava. Ouvi uma porta rangendo enquanto abria, só podia ser a moça. Cheguei até o barulho e entrei. O quarto estava escuro, não conseguia ver nenhum comodo, apenas suas pernas douradas dançando lentamente para mim, como que me convidassem para me deitar.

– porque está tão sozinha e triste? – perguntei.

Ela não me respondeu. Seus olhos não me perdiam e suas pernas dançavam lentamente sem parar. Ela queria me hipnotizar e já tinha conseguido. Me deitei do seu lado e seus braços me cobriram com carinho. Sua boca tocou meu pescoço e senti meu corpo contorcer. Tudo escuro, eu só conseguia ver seu corpo se mexendo contra o meu. Sua pele queimava o lençol sujo daquele quartinho. A porta ainda estava aberta e passavam muitos outros casais momentâneos lá fora, talvez, todos flertados em portas de bares como eu.

Levei meus lábios até os dela para matar minha louca vontade mas ela me empurrou.

– sem beijos, não force as coisas.

Quase passei dos limites noturnos, o sentimento. Ela se levantou estressada da cama, vestiu sua blusinha transparente e pegou sua bolsa. Vasculhou alguma coisa e tirou um revolver.

– o que você quer com isso? – perguntei assustado.

– facilita para mim, passa as suas coisas.

– porra, eu não acredito…

Entreguei minha carteira a ela, não tinha muita grana, mas era tudo o que eu tinha naquela noite. Ela pegou e foi embora. Fiquei na cama, desacreditado. O que eu iria fazer agora? Precisava ir atrás dela. Desci as escadas de madeira e a vi saindo pelo bar. Atravessei os marmanjos, eles não me olhavam mais, era como se eu tivesse passado pelo seu ritual de iniciação. Talvez todos eles foram roubados por ela. Sua beleza é capaz de roubar a alma de um homem.

Ela não corria, não estava fugindo, era como ir procurar outra vitima. Peguei-a pelo braço e ela se virou tranquilamente, seu olhar não tinha mais brilho, me senti vendo outra mulher.

– o que você quer de mim? – ela perguntou.

– pelo menos devolva os meus documentos, é um saco tirar outros.

– não! caí fora!

Ela tentou se desvincilhar de mim mas eu a segurei. O guarda do bar se aproximou de nós.

– o que ta acontecendo aqui? – perguntou.

– essa mulher… ela está com algumas coisas minhas.

Ela arregalou os olhos e respondeu:

– meu senhor, esse cara recebeu os meus serviços mas tentou me induzir a drogas, mas eu não gosto, e agora ele não me larga.

– isso é mentira… – tentei intervir.

Outra mulher apareceu de algum lugar, vestindo como a moça que me roubou e disse:

– esse cara sempre faz isso, estou cansada dele tentando me drogar.

Eu não a conhecia, nunca tinha visto mais gorda e mentirosa. O guarda caiu na delas, talvez fosse tudo combinado, eu me senti vivendo num teatro, todas aquelas pessoas estavam contracenando, todas querendo o máximo de dinheiro que poderiam tirar de mim. E agora que eu não tinha mais nada estavam me descartando. Uma carteira velha sem utilidade, vazia e batida, essa era eu.

Deixei que ela fosse embora e levasse o que era meu, de certa forma ela tinha conseguido conquistar da sua maneira. O guarda tentou me deter mas não tinha motivos concretos para isso. Olhei para os lados, e procurei por Rafa, ele não estava em lugar nenhum. Subi toda a Augusta, na entrada do metro tinha mais pessoas, me senti seguro ali. Me sentei em um canto vazia perto de outros bêbados derrotados pelo ritmo noturno paulistano e adormeci, tudo isso poderia ser um sonho.

  Compra no boleto e paga na lotérica
   Baixa aí que é de graça

amazon-iconsaraiva icone clube icone google play  icone agbook

      twitter 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s