Sem alma

O carro andava devagar pela rua principal do condomínio. Tinha várias casas que eu poderia chamar de mansões, com jardins bem cuidados, de três a quatro carros na garagem e todas de vidro, um luxo inigualável. Avistei de longe um jardim muito peculiar com dois bonecos de tamanho real sentados numa espécie de banco. Parei o carro e me aproximei deles para admirar de perto. Quando cheguei a poucos centímetros dos bonecos notei que não pareciam feitos de cera ou gesso, e nem nada do tipo, era como se fossem humanos empalhados. Os olhos lacrimejavam e era como tentassem mexe-los, mas sem sucesso. Um dos olhos do boneco feminino deixou escapar uma gota de lagrima que escorreu lentamente pelo rosto. Engoli seco e voltei para o carro. Passei por mais algumas casas enormes e cheguei no meu destino. Tia Ryca.

Era noite e eu já tinha tomada algumas tantas cervejas. A piscina com luzes azuis me chamava, mas eu não estava apto para nadar. O som dentro da edícula estava muito alto, a guitarra do Jimi Hendrix estourava meus tímpanos, fiz careta enquanto emborcava o copo de Whisky.

– quer que eu abaixe um pouco o som? Perguntou Ryca.

– esta tudo bem, tem mais gelo?

– tem sim, vou pegar para você.

Acendi um malboro gold enquanto via o quadril de tia Ryca requebrando até a cozinha. Seu quintal tinha o tamanho da minha casa.

– estou sem gelo! Ela gritou.

– vou diminuir o volume, me traga outra cerveja.

Baixei o som e peguei alguns cds, Legião Urbana, Cazuza, Cassia Eller, só os cães velhos da música brasileira, nada que era valorizado mais nos anos dois mil. Coloquei os três cds dentro da minha jaqueta discretamente e voltei para minha cadeira de frente a piscina. Tia Ryca voltou com duas cervejas, colocou na mesa e as abriu, espirrou um pouco de espuma no seu vestido branco.

– epa, acho que me molhei…

– vou pegar um pano pra senhora.

– ei, ei, nada de senhora… somos amigos, pode me chamar pelo nome benzinho.

Sorrimos e eu não pude disfarçar meus olhares. Sua virilha ficou completamente encharcada, como se ela tivesse planejado o acidente. Me levantei e peguei um pano seco na pia, entreguei a ela que encostou demoradamente os dedos no meu.

– obrigada, você é tão atencioso. Minha sobrinha deu sorte de ter encontrado um rapaz assim, e além de tudo é um baita de um escritor, te acho muito inteligente.

– que isso Ryca, gentileza sua.

– você sabe que não costumo ser gentil e nem agradar ninguém.

Ela se aproximou de mim e pude sentir seu hálito de menta. Ela vivia mascando chicletes para aliviar o mau cheiro que vinha dos seus dentes podres. Por sorte eram os do fundo da boca, não ficavam a mostra, em compensação os da frente eram brancos e brilhosos, sua marca registrada. Ryca se lambuzava no batom vermelho, deixando a boca um pedaço de mau caminho, toda vermelha e viva, cor de sangue pulsante e quente. Soprei a fumaça nos seus lábios e ela a sugou. Fiquei excitado e me aproximei para beijá-la, quando tocaram a campainha.

tin don!

– é melhor você ir ver quem é, deve ser Helena.

– verdade, acabei me distraindo, eram aquelas músicas, gosto delas.

– tomamos muita cerveja, quase passamos dos limites.

– você não tem limite…

– é melhor ir abrir a porta,  por favor.

Ryca foi, rebolando como nunca. Fechei os olhos e tentei afastar os pensamentos perversos e eróticos que dominava minha cabeça, mas era impossível.

– helena, que maravilha te ver aqui.

– eu vi o carro do victor lá fora, ele já chegou?

– sim, chegou à tarde, ele esta lá nos fundos.

– tudo bem – olhou para a mancha no vestido – nossa, esta transparente, você se molhou tia?

– ah sim… Victor acabou derrubando cerveja em mim sem querer? Coitado, tão desligado.

– é… desligado sim, com licença tia.

Helena veio pisando duro até mim. Me viu bebendo Whisky e fumando e não se conteve. Pegou o cigarro da minha boca com raiva e jogou no chão, pisou e me olhou com cara feia de demônio.

– o que aconteceu? Perguntei enquanto pegava outro cigarro.

– para de fumar essa merda e me explica o porquê você derrubou cerveja na buceta da minha tia Ryca? O que ta acontecendo por aqui?

– Eu só estava bebendo, não fiz nada do que não deveria, você deveria confiar em mim nena.

– eu juro que tento, mas não consigo vendo umas coisas dessas.

Ryca apareceu no quintal, segurava seu copo de cerveja marcado de batom, tomei um belo gole e sentou ao nosso lado. Helena olhou pra ela fuzilando-a.

– o que é que eu fiz de errado por aqui Ryca? Perguntei.

Ela ficou sem saber o que dizer, olhava para os lados e balançava seu copo. Fiquei esperando por sua resposta para acabar com aquela palhaçada, mas ninguém se pronunciou. Me levantei e arrumei minha jaqueta, estava de saída.

– para onde vai? Acabei de chegar. Disse Helena.

– estou indo embora daqui, não aguento o tipo de vocês, me dão nojo.

– não vá, fique, por favor. Disse Ryca.

Abri a porta e entrei no meu carro

– merda tia, você não consegue se controlar perto dos homens?

– me desculpa, mas foi ele que se insinuou!

Helena pegou a chave do seu carro e saiu pisando duro e com a cabeça queimando. Entrou no carro e foi atrás de mim. Eu olhei pelo retrovisor e vi que ela estava no meu encalço, aumentei a velocidade. Ryca entrou em seu carro.

– caralho, não consigo ficar em paz. Disse.

Entrei na primeira curva a direita que vi, contra mão, Helena não hesitou, veio atrás. Ryca também nos seguia. Alguns carros vinham na minha direção e eu desviava faltando centímetros para não bater, olhava no retrovisor e elas continuavam na minha cola.

Perdi o controle do carro e entrei no campo de futebol do condomínio, o caminhão que passou por mim bateu no carro de Helena e de sua tia. Fui correndo ver o que tinha acontecido.

– Victor… eu confio… em você, me desculpe. Disse Helena sangrando pela boca.

– Não diga nada, vou chamar uma ambulância.

Me levantei e o motorista do ônibus estava Antônio parado olhando para elas.

– Seu filho de uma puta, chame logo ajuda!

Ele se assustou e pegou o seu celular.

– Fique parada, não faça nenhum esforço, logo virá ajuda. Disse para Ryca apagada no chão.

Minutos depois a ambulância chegou e as levaram para o hospital mais próximo. Voltei para meu carro e cai na estrada. Não tinha sido uma boa ideia fazer surpresa para Helena, pois quem acabou recendo fora eu.

Cheguei em casa, abri uma cerveja, sentei de frente ao teclado e fiquei bebericando. A janela dava para as luzes acesas dos postes lá fora. Era madrugada e não tinha uma alva viva pela rua, nem moscas e nem cachorros. Nenhuma alma viva, nem na cidade e nem em minha própria casa. Terminei minha cerveja e voltei pra estrada, precisava encontrar minha alma a tempo.

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