Egoísta

Eu sempre fui um cara egoísta e anti-social, não importa com quem fosse, eu não mudava por ninguém. Bebia vinho suave de mesa como se fosse o melhor da adega. Era gostoso, adocicado, estava gelado que só a porra, descia muito bem por minha garganta seca e sedenta. Olhei pra janela lá fora e não havia nenhuma alma na rua, será que todos tinham finalmente sido sugados pela fúria do capeta? Não… era apenas um domingo, jogo do Corinthians. Vesti minha calça e fui até o portal, cheguei a caixinha de correios e tinha uma bendita carta. Li o correspondente. A porra do banco. Rasguei-a e subi de volta pra casa, me sentei no sofá e senti vontade de me masturbar. Eu era um filha da puta e um sádico, transava três vezes por semana com três respectivas mulheres diferentes e mesmo assim não dispensava a boa e velha bronha. Me posicionei no sofá de frente a televisão, coloquei no canal das dançarinas de biquíni de um programa muito famoso da época, e enquanto todos assistiam onze homens de cada lado e um segredo, eu estava prestes a retirar minhas energias, até que o telefone tocou. Puta que me pariu.

– porra, alô! Hospital? Hoje é domingo!!! Tá… tudo bem, eu entendo, vou me trocar e já vou, tudo bem, eu entendi.

Desliguei e fui me trocar. Cheguei no hospital e me dirigi até a recepção.

– minha linda, vim visitar minha irmã.

– senhor, visitas é na ala dos seguranças.

– e onde ficam eles?

– meu querido, aqui nós só recebemos.

– a senhora poderia falar, por favor, onde fica essa bendita ala?

– fica na ala dos seguranças senhor, tenha uma boa tarde.

– vá pra merda.

Ser tratado com o mínimo de ética era pedir demais. Me virei e cheguei até o quarto. Ela estava vegetando e eu não entendia porque gastar tanto dinheiro e espaço com ela ali sem vida alguma, enquanto tem tantas pessoas sofrendo sem ter nem onde morrer dentro dos hospitais públicos.

Fiquei esperando que a morte levasse um de nós dois até que entrou uma enfermeira para aplicá-la algum tipo de medicamento. Tinha pernas bonitas, era magra e loira. Seu rosto de quem fodia com o cirurgião chefe por ser a mais linda da enfermagem não me enganava. Injetou algum sedativo no acesso da minha irmã e notou que eu estava observando suas lindas e gloriosas pernas douradas por cima da revista.

Saiu rebolando do quarto. Minha irmã não esboçava nenhuma animação pro rebolado daquela bunda maravilhosa, ela estava em outro mundo dentro do seu subconsciente, e não era nada que uma maconha conseguia fazer, devia ser interessante não ter consciência dessa realidade, pelo menos por alguns minutos.

Tomei meu whisky que trazia no blazer. O céu lá fora tinha tom cinza como a fumaça do meu cigarro. As pessoas andavam de um lado para o outro sem se olharem nos olhos. Elas não conversavam, ao contrario, se matavam. Fiquei com asco de ver a sociedade se aniquilando e fechei a janela. Atravessei a cama e vi a capainha. Dei dois toques e me sentei. Fiquei esperando aquelas belas pernas. A porta se abriu e ela entrou, com seus cabelos loiros.

– aconteceu alguma coisa, senhor?

– Não… não, é que eu vi ela se mexendo e achei estranho.

– é normal ter pequenos espasmos nas condições em que ela está.

– não devo me preocupar então?

– Não, seu bobo. Fica tranquilo, ela logo irá acordar.

– assim espero.

– bom, vou indo, é a hora da minha pausa.

Ela girou nos calcanhares e vi seu cabelo seguir os movimentos, agarrei-a com força e juntei meu corpo ao dela, sua prancheta caiu no chão, quicou duas vezes, a folha se soltou e ela cedeu. Beijei-a com vontade, seu batom borrou todo os meus lábios. Desci a mão pelas costas até o quadril, apertei, era como eu pensava, duro.

– eu realmente preciso ir.

E se foi. Tomei duas goladas do whisky e deitei as costas da mão na testa da minha irmã. Alisei e dei-lhe um beijo na testa, o primeiro em anos. Me afastei sentindo meus  olhos umedecerem.

Voltei ao sofá, peguei outra revista e foliei, talvez haveria sol naquele céu cinzento de São Paulo, talvez não. Quando será que ela iria acordar? Peguei outra revista, tomei outro trago de whisky, recolhi a prancheta e juntei com o papel, tinha números marcados no verso da folha, anotei.

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