Fluxo Da Metrópole

Av. Paulista.

Figuras engravatadas andavam de lá para cá. Os mais senhores seguravam suas maletas cheias de papéis dentro – o significado deles eu desconheço – enquanto os mais jovens e eretos, acomodavam os dedos na tela sensível de seu Smartphone de dois mil reais.

Empresários e homens de negócios, de lá para cá, num fluxo incessante. Mulheres com roupas novas de grife, senhoras com bolsas caríssimas – algum jacaré deve ter tido sua vida usurpada da floresta – meninas com brincos brilhantes, diamantes exuberantes – com uma voz arrastada de pura manha, o futuro de herdeiros mimados, prematuros. Iam e vinham, uma corrente igualitária da classe alta, altíssima.

Andando, deslizando, como se estivessem em uma passarela – mas as luzes ofuscavam a pessoa a quem são – entretanto não estavam em passarela alguma. Na realidade a diferença entre os pedestres era imensa, do milionário ao sem teto. Aquele que gasta sem freio juntamente ao comedor de migalhas. Mas qual é o dono de um luxuoso navio que se importa com o pequeno barco furado, afundando no mar? De lá para cá, ego e humilhação. Exagero e fome, indo e vindo, a todo tempo, vultos, perfume e fedor. Ouve-se a risada afagando o grito.

Vito estava sentado em um banco de madeira clara, um local “reservado” ao público, mas com aparência “reservada”. A sua frente um morador de rua fumava a sua bituca de cigarro, bebendo seu café gelado e amargo, enquanto falava sozinho com muito entusiasmo. Vito notava o fio de esperança do morador em que a moça dos óculos escuros ao seu lado estivesse ouvindo-o, afinal ele só queria conversar.

Mais tarde soube-se que o pobre morador estava há meses sem falar com ninguém, sem que algum ouvido estivesse prostrado a sua proclamação. Que tamanha solidão era essa? No vai e vem de figuras sem expressões, não era possível dialogar, anunciar, quem diria abraçar? Vito chegou a pensar que o morador deveria ter esquecido o que era um abraço. E a cidade não parava, um túnel invisível projetava-se em meio às pessoas, sentido norte e sul. Trombando e desviando, sem tempo, o relógio correndo.

Naquele fluxo sem fim, outro morador com um saco de entulho nas costas – no mínimo deveria ser catador de lixo carregando seus pertences – vindo à direção do companheiro, parou cambaleante próximo ao outro morador que fumava e lhe pediu o cigarro. A disputa pelo pedaço cancerígeno iria ser acirrada, os moradores de rua acabam mergulhando em drogas e álcool para manipular a mente enquanto enfrentam a fome, o frio e a solidão. Porém, algo me surpreendeu. Além do cigarro, o copo de café também fora oferecido – como se já estivesse satisfeito. O pedinte agradeceu com sutileza, e com um leve sorriso continuou sua jornada no próximo lixo do local reservado, enquanto fumava e molhava a garganta com o café doado. Quem passava ao seu lado mal o notava.

Mãos continuavam a jogar inutilidades sobre a lixeira, e esbarrões – talvez propositais – chacoalhavam o morador que vasculhava lentamente o recinto, como quem tinha o dia inteiro pela frente, sem compromisso algum. Se as pessoas não o notava ele também não as notavam, uma troca reciproca de afetividade moderna. De lá para cá, barrigas cheias e mentes vazias chocando com barrigas desertas, mas mentes brilhantes, transbordando vida, ou melhor, realidade.

Inevitavelmente. Vito ficou por muito tempo refletindo a cena de dois indivíduos que não possuem absolutamente nada, mas que dividem tudo. Se perguntando de onde será que vinha aquela virtude, que mantinha os princípios de saciar as necessidades do próximo. Um bolso vazio enchendo outro semelhante. A verdadeira fraternidade das ruas. Os irmãos por acaso, ou seria por real necessidade? No vai e vem da cidade grande, onde ninguém olha nos olhos de ninguém, e o bom-dia é ignorado, possuir o mínimo possível não é o bastante. Não precisa ter para dividir. Mas é preciso dividir para ter.

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