Qualé o jeito?  

Apresentei um site de relacionamentos para a minha mãe. Queria vê-la desencalhar pra parar de pegar no meu pé. Não demorou muito pra chover cara na horta dela.  Um deles era o senhor afoito, queria arrastá-la para sua casa no primeiro dia de encontro. Perguntava pelo telefone se ela aceitaria namorar com ele, e isso a deixou assustada, naturalmente, nunca tinha se utilizado de algo do tipo para se relacionar, ainda mais com estranhos.

Pedi pra ela que tivesse calma e expliquei que a internet era lugar para todos os tipos de pessoas e isso a acalmou. Depois veio me dizendo:

– Estou conhecendo um cara muito legal. Ele é jornalista, trabalha na cultura faz mais de trinta anos, faz alguns serviços pra globo também. Tem uma voz muito linda.

Fiquei animado por ela. Mas não demorou muito pra começar a me depreciar.

– Meu filho diz que escreve livros, né? Já falei pra ele que não dá muito certo isso, mas fazer o que? – ela dizia no telefone.

Me segurei pra não gritar nenhum palavrão. Não queria estragar o momento dela com o jornalista. O cara parecia interessante e uma boa companhia pra minha velha. Se eu contar sobre os outros caras que ela tinha conhecido daria dó. Pra começar namorou com um negão quando meu pai a deixou. O cara só queria sexo, devia ter uma baita trolha. Quero nem imaginar o que acontecia com eles, é foda, sem contar que era o mais ciumento de diadema, encrencava até com meus primos, não fazia o tipo da minha coroa. Depois conheceu o Eureka, esse era o seu apelido, o cara não tinha muito cabelo, fumava demais e não falava nada com nada, tava com pretensão no meu irmão, parecia um caça talentos. Na época meu irmão desenhava e isso chamou a atenção do Eureka, aí minha mãe cortou o mal pela raiz.

Em pouco tempo apareceu o Fernando, ou sei lá qual o nome do cabra, acho que era Ronaldo. Isso! Ronaldo! Ele conversava bem, era um cara calmo, o que me surpreendeu, porque não conhecia adultos calmos. Só que depois de uma semana mais ou menos, minha mãe notou que ele tinha umas alergias estranhas pelo corpo e não gostava de comentar sobre, e pra sua precaução deu um sumiço no cara, que deve estar procurando por ela até hoje.

Minha mãe pensa que eu não sei sobre o caso dela com o professor de educação física. O cara era uns vinte anos mais novo do que ela e eu não sei o que estava procurando na minha coroa. Por mais que minha ex tinha vinte e seis anos a mais do que eu, não concordo com esses cuecas tentarem apaixonar a coroa pra depois fazê-la sofrer, mas ela é macaca veia, quando notou que não daria em nada mandou o cara pra lua.

Ficou uns bons anos tranquila até que me aparece um candidato quase que perfeito. Era irmão do meu tio, conhecido da família, não fumava e nem bebia. Tinha seus filhos todos criados e um belo apartamento. Trabalhava certinho e não se metia com as aventuras da vida noturna, que mulher não gostaria de conhecer esse partidão? Ele e minha mãe começaram a sair e estava tudo indo mil maravilhas, até que o cabra vem com a maior cara de pau para fazer uma proposta pra veia.

– Que tal a gente se casar? Você vem morar comigo.

– Tudo bem, mas vai ter lugar para os meus filhos na sua casa?

– Como assim? Vou levar só você.

– Nada feito! Seu cafajeste.

O cara se dizia pai ainda. Nem a pau que minha mãe ia aceitar aquela proposta indecente. Nós – seus filhos – não tínhamos nem quatorze anos.

Pra piorar, logo após esse canalha, ela conheceu um drogado. O cara tinha perdido seu cargo público, então não era de se esperar alguma coisa boa. Cargos públicos são vitalícios praticamente. O pior de tudo é que ele não gostava de fazer nada, era o maior braço curto da historia. Vivia dormindo na cama da minha mãe e comendo nas suas custas. Certa vez eles saíram, foram para o shopping.

– Noemi!! To com vontade de comer camarão.

– Eu também estou.

– Então compra lá prá nós. Aliás, antes eu quero fumar, me da o dinheiro do cigarro aí.

– Toma, pega dois.

Alguém viu um sangue suga por aí? Não demorou muito pro dinheiro dela secar e ele cair fora. Depois de alguns dias eu o vi catando papelão ali perto do mercadinho, fiquei envergonhado por minha mãe. Nada contra a atividade dele, mas só quem presencia aquilo na vida pra poder julgar. E o vagabundo curtia umas músicas fudidas: The Doors, Led Zeplin, Nirvana…

O último cara que ela deu a chance talvez tenha sido o pior. Além de ele ser o maior bêbado de diadema, dormia o dia inteiro igual a um panda e trazia suas crias pra ela cuidar. Eles brigavam o dia inteiro, ele a tratava muito mal, falava muito palavrão e era muito grosso. Não sei o que ela viu nele, mas graças a Deus terminaram. Foi preciso que a mãe dele desse um chacoalhão na minha coroa pra ela se ligar.

Agora imagina, você acabou de ter um bebe, seu marido te deixa e você passa por todos esses imbecis pra chegar ao ponto de ter que conhecer outros pela internet?

Enquanto ela falava sobre eu ter falhado no lançamento do meu livro, eu tentava me concentrar nos novos talentos que estava descobrindo. Liza tinha boas crônicas de amor, mas toda a insegurança que o mundo poderia lhe dar. Caio era um poeta formidável, escrevia como Drummond, mas isso não era o que me agradava. Tentei ajudá-lo fazendo algumas críticas e o cara ignorou todos os meus conselhos. E a garota deu no pé quando viu o teste para ser uma colunista do meu blog. Resultado: o jeito é ficar sozinho mesmo, do jeito que nascemos.

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