Na calada da noite

Uma história fictícia de uma cena real.

Era noite, estava frio.  Esfreguei as duas mãos uma na outra e assoprava para me esquentar. O oxigênio saia da minha boca como se fosse fumaça de cigarro, mas não adiantava, meus dedos continuavam congelando, cada vez mais, eu iria petrificar. A balada tinha sido boa, acordei do lado de fora, sentado com os joelhos juntos aos braços e a cabeça baixa. Estava de ressaca e nem tinha amanhecido, que frio era aquele?

Meus passos não deixavam rastros, eu corria caminhando, a madrugada é um perigo, e os olhares mal encarados me gelavam. Tropecei em um corpo e logo pensei que seria um cadáver. Mas eu estava viajando, era apenas um sem-teto. Apenas? Peraí, estava um frio do cacete e ele tinha apenas uma regata, shorts rasgado e meias até a canela, era cinza e bem engraçada, mas sua situação era degradável.

Eu não consegui ignorar a situação, pô! O cara estava tremendo de frio, quem sabe ele não morresse naquele gelo? Tratei de tirar meu casaco e vesti-lo. Ficou uma beleza, ele era maior do que eu, mesmo assim o casaco coube certinho. Ia passar frio só de camisa social, mas o que seria uma noite frienta comparado com toda a vida daquele senhor nas ruas? Eu não ia sentir a mesma falta que ele daquela blusa, então fiz a escolha que achei ser certa.

Entretanto, antes de ir embora, ele me estendeu a mão. Fiquei parado olhando o seu ato de retribuição. Notei que por mais que não tivesse nada para me dar em troca, assim como outro casaco, uma jaqueta, tênis, grana… nada, ele realmente não tinha nada, mas o que seria mais recompensador do que um aperto de mão?

Apertei. Apertei firme mesmo! Balancei e juntei a outra mão nela. Olhei bem nos olhos dele mas, quais olhos? Seu rosto era negro, os olhos escuros, como se a luz não o tocasse mais… ele fazia parte da escuridão, ele era uma parte da noite.

Não consegui ir embora, fiquei parado, com as mãos ainda segurando as dele, e tentando encontrar os seus olhos, como era difícil. Me afastei para o lado, deixando a fresta de luz vinda do farol refletir seu rosto, JESUS CRISTO! Nem assim era possível enxergá-lo. Fiquei com medo, seria um fantasma? Não, não podia ser, fantasmas não sentem frio, e seus gemidos são para assustar, mas ele deveria estar assustado… com medo, frio e fome, e permanecia calado.

Os segundos corriam em um relógio qualquer, e umas imagens grotescas se projetaram na minha frente. O senhor sem olhos tinha a boca costurada, foi então que o silêncio da noite me engoliu, de repente nada fazia mais barulho. Os carros ao longe não buzinavam e nem os motores roncavam os grilos foram embora, os transeuntes sumiram, o vento cessou, e tudo estava calado, o mundo não tinha parado, mas alguém apertara a tecla ‘mute’. Me senti no cinema mudo por um instante.

Fiquei com vontade de correr, mas estava paralisado, continuava segurando a mão do senhor, e desviei os olhos do seu rosto e foquei na sua mão que segurava a minha – MINHA NOSSA! Era puro esqueleto, de cor acinzentada. Sua pele era muito morena para ter aquela tonalidade de cor parecendo ossos, e me deixou atordoado, seria um zumbi ou algo do tipo? SOLTA MINHA MÃO! Tentei balançar, mas não consegui. Meu corpo simplesmente não se mexia mais, eu não podia gritar, nem me mover, e os olhos começaram a petrificar junto a todo o resto.

Congelei, eu disse que ia congelar e realmente aconteceu. Não me arrependo de ter dado minha blusa para o senhor das ruas. Sei que paguei um preço pela bondade que fiz a ele, mas qual seria o preço que ele vinha pagando? Foi um congelamento digno, merecido, necessário. Queria que quando a manhã acordasse, e o sol abrisse nos céus, me derretendo aos poucos, todos os que partilhavam da mesma friagem que a minha, dividissem uma blusa enorme, de todos os tamanhos, para as outras noites que ainda chegarão à calada da noite gélida.

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