Se o tempo fosse meu

Quase autobiográfico.

Manhã de segunda, correndo como sempre, pois estou sem tempo. Tenho que ir para Paulista e depois para OAB na Sé – serviço externo – essa viagem consome todo o meu dia e fico desgastado, chego a tossir de tanto que ando e a dor em cima do meu abdômen é terrível, mas isso é lucro, trabalho menos, descanso, conheço lugares novos, a cidade é tão grande. Desço as escadas em círculo me apoiando no corrimão, antigamente eu descia pulando os degraus – como era bom desfrutar das vantagens de ser jovem e estar em forma e em dia com a saúde. O elevador ainda está quebrado faz meses e eu não sou fã de exercícios físicos, não consigo praticar nenhum esporte atualmente.

Saio pela grande porta de entrada do edifício e o sol logo me acerta – ainda bem que tirei o terno – aqui fora está um inferno escaldante, quero uma cerveja bem gelada se não for pedir muito, sei que não posso ingerir álcool, mas… Uma só não faria mal, pelo menos eu acho que não.

Choveu há algumas horas atrás, na madrugada dessa noite, formando uma poça d’água enorme cobrindo a ponta do asfalto em frente ao escritório, é uma esquina e todo carro que passa por aqui, jorra essa lamaceira para tudo que é lado e eu não estou a fim de ser a vítima dessa vez. Atravesso o sinal correndo e me arrependo, esqueço que não posso correr, merda, meus órgãos internos doem, queimam, e isso é culpa minha essa cabeça esquecida só me causa dores.

Pego a rua principal e chegar ao consultório do Dr. Morte. É um nome muito engraçado e na verdade chega a dar um certo medo, fiquei imaginando o porque do apelido, talvez fosse sobrenome? Mas diziam que apenas algumas pessoas o conhecem por essa alcunha, vai entender… Chego à galeria, entro e caminho até a recepção simplesinha ao lado de duas lojas de sapatos. Ergo os óculos escuros, mantendo na cabeça e penteando os fios da minha franja que estão caindo, fito os olhos cansado da senhora recepcionista e pergunto sobre o doutor ”Por favor, o Dr. Morte”.

Um longo silêncio se manifesta. Arrependo-me de ter usado aquele termo para me referenciá-lo, mas não sei o nome do cara, que posso fazer? Ela olha no fundo dos meus olhos, como se estivesse enxergando o que tenho por dentro, como se me perguntasse o que eu estava buscando e se isso seria benéfico para mim, encabulei na hora. Retornei o olhar de quem estivesse se questionando o que estaria acontecendo, e ela finalmente desvia sua atenção de mim e da uma rápida visualizada no seu computador da era da pedra – aquelas do monitor de tubo, branco com a tela sobressaltada, antigo, deve ser um Pentium qualquer – e me diz “Temos um doutor que fica no 5ª andar, sala 56”. Nada de morte? Bom, deve ser esse já que ela indicou. Vamos nessa.

A senhora cuidou de chamar o elevador, eu esperei em frente ao quadro de câmeras, vários quadrados minúsculos mostrando cada andar, tento identificar o quinto, mas o meu elevador chegou. Escuto barulho, um “zum zum zum”, várias pessoas conversando ao mesmo tempo. A porta de aço balança de leve e eu espero pelo abre-te sésamo, um bip alto avisando a chegada da gaiola mecânica e ela abre, abre inteira para aquela multidão de crioulos saírem. Todos de cor, berrando um com os outros, não existe um diálogo, apenas gritos numa tentativa de conversa e um fedor úmido, como numa caixa fechada por anos.

Sinto uma lufada de ar quente, espesso e muito fedido, de que adiantou eu me perfumar todo? Esse pessoal consegue ficar nesse estado logo cedo? Meu Deus, desodorante deveria ser gratuito no ambiente de trabalho. Analisando, quem vai se consultar com um indivíduo chamado Morte, o cheiro de enxofre é de se esperar.

Entro no caixão metálico e aciono o andar, começo a subir sem nenhuma preocupação, é como se varias crianças escravizadas puxassem correntes fundidas no topo do elevador, sem nenhum sucesso, vai demorar, e estou com pressa para variar.

5 minutos se passam e depois de duas paradas durante o percurso, chego ao bendito andar. Olho para os lados e procuro o número, todos são 50 e alguma coisa, mas para que lado fica a morte? Vou para a direita e dobro para direita novamente, sigo a numeração crescente e vejo uma placa indicando “Dr. Paulo Vigário”, na hora me ligo que seja ele, continuo até entrar no consultório.

Por incrível, a morte está me esperando, e dormindo, a espera deve ser grande não? Bato com as dobras dos dedos na porta de madeira já gasta pelo tempo, e ele tarda, mas acorda. Bom dia morte! “ Oi, vim fazer o exame, se lembra de mim?”, ele ajeita os óculos enormes de cientista maluco e da uma checada no meu formulário “Ah, humm, o garoto.. Hum… Dos exames rotineiros…”, isso mesmo meu velhinho, vamos logo que estou atrasado, gostaria de papear, mas não será possível, talvez mais tarde, o que tu vai fazer depois do expediente? Que tal jantar com a morte?

O dr. muito velho se levanta com dificuldade do sofá de couro rasgado, e se arrasta até sua sala, eu o sigo no encalço, penso “Acho que quem precisa de um exame é ele, olha como está se arrastando!”, sorrio internamente e sigo lentamente o velho. Ele pega o estetoscópio e me examina, ouve meus batimentos cardíacos que estão acelerados – nada grave, e nem com minha saúde, mas estar dentro dessa sala vazia e silenciosa com esse velho calado e medonho me assusta – faz as perguntas de sempre como; se tenho vomitado, desmaiado, perdido sangue, perdido algum dos sentidos, perdido o equilíbrio e a estabilidade do corpo, falta de apetite e etc. Todas são sim, sou jovem mas minha situação é precária, esses exames de rotina me deixam desmotivado, é como eu ficasse revendo um filme curto sobre meu fim diariamente.

Quando eu penso que ele já me examinou e estou liberado, me vejo de costas para o velho, e ele com aquele aparelho deslizando nas minhas costas, sem dizer nada, apenas vendo como anda meu coração, e toda a minha carcaça interna. O organismo que em grande escala está se degenerando, apodrecendo e morrendo, não foi fácil aceitar essas novidades sobre a nossa saúde. Meu tempo está se esgotando, vamos logo com isso!

Eu imagino que algo dará errado, porque minha pulsação não pára de acelerar, e vai que o velho está encucado com isso, não dá para imaginar o que passa na cabeça branca dele, é um mistério, me deixa ir embora? Ele se senta com uma dificuldade de dar dó, a cadeira velha não ajuda, o encosto forrado por um pano preto todo desfigurado não oferece mais apoio para sua coluna e ele bate com tudo na parede, nossa deve ter doído! Sua careta é de quem está acostumado com dores, então eu nem liguei, ele preenche outro formulário com uma letra minúscula e ilegível – médicos e suas artes. Entrega-me e fala bem baixo “Fica dez”, eu mal entendi o que ele balbuciou, pego o papel e me preparo para partir me despedindo, “Fica dez garotão”, eu finalmente me toco que ele está cobrando a consulta, olha que filha da mãe, além de ser pago pelo governo e pela minha empresa ou convênio, quer lucrar por fora, está certo senhor morte, vá para o inferno com meu dinheiro, eu não vou precisar dele mesmo, sinto que estou de partida, em todos os sentidos.

Pego a carteira e jogo a nota em cima da mesa, saio pela porta que entrei e espero o elevador, o Dr. Morte deve ter uma rotina desgraçada, sou o único paciente dos últimos dias e já estamos virando o mês, por isso morreu dez, mas ainda me resta mais uns 50, da pra tomar uma cerveja com a garota do vestido azul, ela tem um sorriso lindo, é alegre, sempre de bom humor, totalmente ao contrário de mim, me coloca para cima, tenta me animar de todas as maneiras, se existe anjo da guarda eu encontrei o meu naquele coração acolhedor, ela está sempre nos meus pensamentos, seu sorriso lembra a vida.

Final da tarde. Termino o serviço externo e volto até meu trabalho, entrego os protocolos para o advogado que solicitou e até amanhã, estou indo embora, deu minha hora – espero poder voltar e rever todos os meus colegas. Pego minha mochila cada dia mais pesada, vou até o banheiro, molho o rosto, passo desodorante, espirro perfume, engulo um comprimido, ajeito o cabelo para o lado, minhas mexas sem corte só ficam de um lado, estou sem tempo para cortar, literalmente sem tempo e ele está caindo.

Ajeito meu palito com as golas folgadas, está tudo alinhado e no seu devido lugar, giro a maçaneta e parto para as escadas. Desço três lances de escadas e láestou eu novamente ofegante nas ruas, com meu destino traçado, mas sem a certeza de que alcançarei. Faz frio agora que escureceu, a lua usurpou todo o calor que o sol deixou para trás – mundo corrupto – até a natureza não escapou dos furtos.

Fico imaginando, será que foi a mesma lua que roubou o tempo de vida que me restava? Por favor, que seja feita a vontade de Deus, mas quero saber o motivo ao quais nossas vidas são encurtadas de maneira que não possamos mais usufruir dos prazeres em vida. Desejo muito continuar por aqui, caminhando de lá para cá, mesmo que for para servir aos outros o tempo inteiro, mesmo que for para obedecer, obedecer, obedecer, Deus me deixa ficar! Eu te peço, tenha paciência comigo.

Caminho até a rua principal, eu sempre estou rodando por aqui, e isso não me cansa, eu gosto de poder andar e conhecer coisas novas, quanto mais eu conheço mais aprendo que há muito ao que conhecer, e gostaria de ter a oportunidade. Droga, minha camisa está cheia de cabelo. Limpo meus ombros jogando os fios para trás enquanto sigo meu destino, e avisto a garota do vestido azul, ela está encostada no seu carro, me esperando.

Estamos longe, a mais ou menos 100m pelo menos, mas consigo ver seu sorriso largo, mostrando todos os dentes, a expressão que ela tem de felicidade dá sentido ao meu dia e me encho de orgulho de ter uma namorada como essa, ela é o motivo que me faz acreditar em Deus, pois quando vemos anjos, temos a consciência de sua divina existência.

Estou quase chegando, irei abraçá-la e dizer o quanto senti saudades, e que poderemos ficar juntos, aliás, eu acredito que estou vencendo minha doença, eu sei que ela vai confiar em mim e não irá mais se afastar. Ninguém vai se afastar mais. Fomos feito um para o outro.

Quando chego bem próximo, ela começa a andar na minha direção, de repente meu corpo fica quente e frio ao mesmo tempo, minha visão embaça, deu branco, minhas pernas tremem e não conseguem aguentar o peso do meu corpo, é como se eu tivesse ficado mais pesado, pesando toneladas, e me vejo ao chão. Ela corre na minha direção, gritando pedindo ajuda, mas estou sozinho naquele estacionamento com ela, eu mesmo tinha reservado aquele espaço para pedi-la em casamento, foi uma péssima hora para pedir que ficasse a sós com minha amada.

Qual a cor do sangue? Vermelho, ou vermelho escuro? Vinho? Cor de sangue? Bom, o vestido que era azul ficou avermelhado, espero que ela me desculpe, eu sei o quanto ela gosta do seu vestido, mas é que vira e mexe eu perco muito sangue e a sujo, mas prometo que essa foi a última vez.

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