O cara que queria parar o mundo

Na rua vemos de tudo.

Nos lugares mais chiques e falados da cidade também não foge a regra. Os pedintes estão por toda parte. Os famintos esparramados pelo chão, a esmola é pouca, mas a esperança nunca é escassa, afinal, de que mais podem eles acreditarem se não na migalha solidaria do próximo? Não é obrigação nossa carregar o peso da sociedade, tão pouco cuidar dos menos favorecidos, mas quando é que nos colocaremos no lugar deles, para enxergamos o quanto a vida pode ser cruel e impassível conosco.

Sem ter conhecimento de causa não é possível julgar e o morador de rua banalizado costurava os burgueses dentro do terminal. Seu olhar era amedrontador, não estava bravo, nem nervoso e nem nada do tipo, apenas olhava fixo além das pessoas, das paredes e da sua realidade atual.

Parecia não enxergar nada além do necessário para andar, passou rápido atravessando o fluxo contrario sem esbarrar em ninguém, seu cheiro ardido afastada a todos, ele deveria ter um nariz de ferro para te acostumado com seu odor, talvez nem os franceses desse jeito.

Trazia na mão uma pequena moeda dourada, seus passos pretos e sujos eram firmes, mas sem direção, cambaleava suavemente sem demonstrar demência ou genialidade na coordenação motora. Estando drogado ou bêbado, não importara, ele queria as escadas rolantes e conseguiu chegar até elas.

Pousou a mão direita alegremente no corrimão emborrachado e se distraiu com o mecanismo da maquina mais preguiçosa do mundo. Não preferiu as escadas convencionais, deveria estar cansando de tanto andar por ai, suas moedas eram frutos de muito esforço, porém mais de humilhação perante aqueles que podiam dizer que tem a felicidade de baixo do nariz e não encontram.

Ele queria apenas se deixar levar pelo elevador ao ar livro. Curvou seu corpo magro vestido de trapos e colocou a moeda sobre os pequenos vãos da escada. Meteu a mão no bolso e pegou mais duas, olhou demoradamente para elas na sua palma aberta, oh coisinhas belas e sujas, meus filhotes, riqueza do povo, tristeza dos meus irmãos – pensou enquanto olhava-as em transe – estava familiarizado com elas, mas as deixou, junto com a primogênita no vão, e todos nós subimos interminavelmente até a Avenida Paulista.

Não era comum ver um sem teto desperdiçar seus trocados mas aquele cara tinha seus motivos. Antes de chegar ao andar de cima ele se apressou em abandonar o navio, continuamos subindo, eu e os burgueses atrasados e cheios de suas vidas presas num escritório de pedra e metal. As moedas continuaram entre o vão até sumirem no final da escada, entraram dentro da maquina e o plano maquiavélico do sem teto concluiu, ele parou o mundo, mesmo que por segundos, estávamos todos parados, cansados e estressados. Ele fora importante nesse jogo de quem somos nós entre os transeuntes.

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