Minhas Mulheres [Capitulo 30]

Depressão pós era moderna. Caracterizada não por escassez, mas por excesso. Muita tecnologia, muita pretensão, muito ódio e mentiras, as estruturas estatais não aguentaram. Não sofremos ataques dos estados unidos porque somos sua colônia disfarçada de terras tupiniquins. O pré-sal evaporou, os preços de tudo subiram, escolas e hospitais implodiram e as cidades ficaram cheias de estádios de futebol gigantescos e desertos.

Muita gente que estava no poder fugiu para outros países, era tempo de aposentadoria para aqueles que tiveram tanta determinação em tirar do pobre para enriquecer a elite. Não era de se esperar outro resultado: elites tendo que brigar contra as elites para subir um pouco mais a escada do poder aquisitivo. Terceira guerra mundial entre grupos que eram aliados e hoje mostraram suas faces.

Fui mandado embora da editora em que trabalhava, não bastava o mercado literário ser precário e ainda conseguiu piorar. Mesmo com a depressão eu não deixei de escrever, não sabia fazer outra coisa, além disso. Peguei meus documentos e a carta de rescisão e levei ao banco, pensei que não iria dar em nada e que o seguro desemprego não fosse funcionar para o meu caso. Felizmente eu estava errado, a mocinha do balcão mexeu no seu computador e confirmou alguns dados, e pronto: seis meses de seguro. Fiquei extremamente feliz, pois soube que não passaria fome de imediato, teria metade de um ano para me preparar.

Diadema, o Brooklin brasileiro. Não tinha crianças na rua como antigamente. Sem pipas no céu e nem carros com o som no último volume. O sol era o único que permanecia firme e forte com todo o seu vigor e calor. Peguei uma cerveja, liguei o som no Miles Davis e me deixei afundar no sofá. Não compreendia como eram os dias inteiros em casa sem editar nenhum texto e nem analisar nenhum livro. Diferente de muitos proletariados eu gostava do meu trabalho, poderia fazê-lo de graça se não precisasse beber, fumar e foder. Os únicos livros que eu tinha contato agora eram os do cão velho Bukowski e o mestre Nelson Rodrigues, fora eles sobravam apenas os meus que nunca foram lidos por mais do que meia dúzia de pessoas contando comigo.

Acendi um beck na escada de casa, tomei um gole da minha cerveja gelada e vi o tempo passar, parecia que eram cinco minutinhos, mas já tinha passado duas horas. O telefone tocou, me levantei sonso e fui atender.

– Alô? Oi, tudo bem Nexfire? Quanto tempo… ah sim, me lembro da última vez… bom, tenho uma graninha sim, pouca coisa… serve? Tudo bem, te espero.

Nex é uma velha amiga. Trabalhamos juntos na época em que ela era da triagem de livros. Sempre quando ela passava pela sala de café todos os homens ficavam babando pelo rebolado do seu rabo, ele era deliciosamente enorme, sem contar a coxa, dava duas da minha.

Terminei de fumar e me recolhi pra dentro de casa, troquei de camisa, coloquei uma que não estava rasgada e aumentei o som. As paredes brancas começaram a brilhar, minha cerveja tinha gosto de gasolina pura. Corri para a pia e abri a torneira, enfiei minha boca por de baixo dela e engoli quase que um litro de água, quente! Quente! Pegando fogo. Corri pra fora tomar um ar, a rua estava cheia de crianças, quando foi que todas elas apareceram? Nunca tinha visto nenhuma delas por ali, achei estranho. Desci as escadas e fui até o muro, estiquei o pescoço para tentar identificá-las, mas elas não tinham rostos. Crianças negras de um metro e meio correndo para lá e pra cá, gritando e sem rumo, sem rostos e eu com sede.

Nexfrite apareceu no escadão, fui ao portão e deixei aberto, subi para casa e me sentei no sofá, aumentei ainda mais o som, o saxofone de Davis se instalava pelos cômodos, fechei os olhos e comecei a sentir as notas musicais, meu corpo tremia.

– Aí está você seu escritor de merda, senti sua falta.

– Venha, senta aqui do meu lado.

Nex sentou-se, se aproximou de mim e me deu um beijo suave.

– Qualé a boa? Tem cerveja?

– Na geladeira, a boa… – sorrimos – estou fodido, mamando no governo por pelo menos seis meses, e vendo onde enfiarei tanto tesão, não tenho mais leitoras para me divertir, você entende.

Peguei duas cervejas e trouxe até a sala, me sentei de frente a Nex. Ela estava de calça jeans agarrada, suas calças deixavam acentuadas o seu quadril, com certeza ela sabia o poder que sua bunda tinha sobre os homens. A morena mais gostosa da cidade.

– Pô, que fase ruim, hein? Mas eu to na mesma, depois que sai da editora não consegui mais nada, nem como baba, você acredita?

– Você cuidando de crianças? Não sei se seria uma boa.

– Eu odeio esses demônios, mas é o único jeito, a não ser me prostituir.

– Estou com vinte sobrando essa semana, não que eu esteja comprando seus serviços – fitei Nex – mas quero ajudar, amigos são para isso.

– Olha, você não começa com essas suas brincadeiras, está me ofendendo.

As paredes ainda brilhavam mas a pele escura de Nex balanceava o brilho das minhas vistas. O som não estava alto como eu tinha deixado, alguém tinha baixado e não fora nenhum de nós dois. Aumentei novamente, arrisquei tocar no ar algumas notas. Nexfrite sorriu, virou sua garrafa.

– Vou buscar outra, só um minuto, baby.

Fui até a geladeira, ela não estava mais no lugar. Alguém tinha tirado a merda da geladeira do lugar dela. Ao menos tivesse deixado as cervejas por perto.

– Caralho, alguém roubou minhas cervejas, estão me sacaneando!

– Como assim? O que houve?

Nex veio até a cozinha, estranhou tudo o que eu dizia. Conseguiu pegar as cervejas de alguma maneira e as levou para a sala. Eu fui atrás, com raiva.

– Ei, sua vadia, você roubou minhas cervejas?

– Do que está falando Victor?

– Não me venha com essas! Não esperava isso de você! É só surgir a oportunidade e vem roubar os seus próprios amigos?

– Você não deve estar bem, olha seus olhos, estão vermelhos! Para de beber…

Aumentei o som, estava insuportável para os ouvidos, mas eu me senti bem. As paredes vibravam junto comigo. Nex falava, falava, falava, mas eu não ouvia nada.

– Victor!! Está me ouvindo? Você está babando! Olha, sua língua, ta enrolando, cara, você esta muito estranho hoje!

Me sentei no chão sem que eu quisesse. Bati a cabeça na parede, senti minha nuca ficando úmida. O sangue escorreu pela gola da minha camisa. Nex sorriu, tomou um belo trago da sua cerveja e me ofereceu a outra.

– Porra, passa essa garrafa pra cá. Estou com sede. – disse a ela.

– Sua camisa ficou muito mais bonita vermelha, deveria tingir as outras, você só usa preto ou branco, ta na hora de mudar.

– Eu tenho vinte reais sobrando, vinte! Bastante grana pra quem não tem nada – apontei a cerveja pra ela – que tal eu te ajudar e você me ajudar?

– Não estou te ouvindo, sabia? Esta muito alto o som.

– Eu disse – aumentei a voz, gritava – QUE QUERO TE AJUDAR, SE VOCÊ ME AJUDAR!

Nex fez cara de quem não entendia nada e continuou bebendo. Parecia que era de propósito, mas o som realmente estava estourando meus tímpanos. Olhei para as caixas de som e elas diminuíram, olhei para as paredes e elas apagaram. Olhei para Nex e não estava mais na sala. Minha gata siamesa bebericava sua garrafa e parecia não estar nem aí pra nada.

– Nala, você viu a senhorita Nex por aí?

– Foi ao banheiro, se não me engano. Minha cerveja esquentou, pega outra pra mim humano?

– Mas é claro, o que é que eu nego pra você?

Me levantei com dificuldade, escorregando no sangue que fazia poça no piso. Me apoiei na parede e cheguei até a cozinha. Peguei outra garrafa e levei para a sala.

– Ah, obrigada, a minha já tinha acabado. – disse Nex.

Entreguei para ela e brindei com a minha garrafa quebrada. Tentei beber, mas não tinha nada. Olhei pelo furo dela, quebrada e vazia, ainda estava com sede.

Nex se foi e levou o dinheiro, eu nem precisei dizer onde estava, parecia que ela tinha seguido o faro das notas de dez e escapulido. Fiquei sozinho outra vez. Não tem problema. Peguei um beck, fui até a escada, ascendi, dei uma longa tragada e deixei a fumaça voar. Vi cabeças sem rostos por todas as partes, elas olhavam para mim, eu não estava sozinho.

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