Minhas Mulheres [Capitulo 24]

Sheyla dormia, se mexia um pouco e dormia de novo, a moça ao seu lado no ônibus estava incomodada com a agitação. Sheyla tinha os olhos vermelhos, parecia estar chorando, com os olhos fechados e soltando gemidos inaudíveis.

Vestia um vestido oriental, marrom com lantejoulas cor de vinho, estava surrado e parecia sujo. Ela fedia de longe, mas era tarde de sábado e o seu mau cheiro se misturava com o suor dos outros passageiros.

– OH MOTORISTA… Eu vou vomitar, abre aqui a porta.

A porta se abriu e o senhor se curvou para fora segurando o apoio da porta e cuspiu. Ainda sentindo ânsia, saiu do ônibus e se debruçou sobre o poste e vomitou. A porta fechou e seguimos viagem. Algumas pessoas riram do acontecimento.

– Devia estar bêbado.

– Ah… No mínimo.

Sheyla se levantou num pulo e estava tonta, teve dificuldades para descer do banco que era alto, e foi empurrando as pessoas para poder passar. Era tarde, e estava calor, o ônibus lotado cada vez mais pesado. Ela se enfiou no meio dos trabalhadores suados, alguns tentaram se aproveitar, mas ela sabia como lidar com aquele tipo de homem. Deu uma cotovelada discreta na barriga de um, e pisou no calo de outro, logo nenhum tarado se aproximara. Deu o sinal e desceu.

Meu ponto estava chegando e andei ate a porta, tropecei em algo que parecia um chinelo grande, olhei para baixo e realmente era. Grande e fofo, feito de espuma coberto de um tecido barato e que encarde fácil. Agachei-me e peguei, cheirava a chulé, dei sinal e desci. Não estava longe de Sheyla, apenas um ponto nos separava.

Refiz o caminho do ônibus voltando para trás, não tinha certeza se a encontraria pelo caminho, mas algo nela me chamara atenção. Corri o máximo que pude e fui atacado por dores acima do estômago. Eu não corria há anos, era apenas um maldito escritor sedentário, porém não era gordo, tinha o corpo esbelto e parecia saudável por fora.

Diminuí a velocidade, mas não parei de caminhar, a rua estava deserta e passavam apenas carros, eu me esquivava pelo acostamento e via os carros vindo em minha direção. Vez ou outra parecia que iriam me atropelar, mas tive quase certeza quando um caminhão veio em alta velocidade e buzinando para mim, ele trocava de faixa, em zigue-zague, e buzinava. Eu fiquei sem saída, se fosse para a avenida seria atropelado pelos outros carros, se fosse para o outro lado, teria q pular no rio, mas não sabia nadar, parei e fiquei esperando que ele me destroçasse, pelo menos a morte me parecia ser rápida, sem muita dor e nem agonia. Fechei os olhos e VRRUUMMMM, BIIIIIIBIIIII FOOOOM VRUUUM!!!!
Abri os olhos e me toquei, estava tudo em ordem, olhei para trás e o caminhão se fora, que susto. Continuei retornando o caminho na esperança de encontrar com Sheyla. O sol judiava e eu já não tinha líquido no corpo para transpirar, a boca secara e a vontade de encontrá-la se extinguia.

Outro caminhão se aproximava e apenas esperei que ele passasse, todos faziam o mesmo barulho atemorizante e eu fui me acostumando. Cheguei ao final do acostamento e pulei para a calçada, terra á vista, estava a salvo. A morte iria me levar de outra maneira, mas atropelado eu não partiria, não desta vez. Olhei em volta e era tudo mato, algumas casas uma em cima da outra e mato. O lugar continuava deserto e o chão amarelo. Encostei-me em um pequeno muro pichado “vão se foderem” e descansei as pernas. Há alguns poucos metros tinha um letreiro “aberto”, fui até lá.

Mostrei minha identidade na porta para um cara mal encarado.

– Pode entrar.

Subi as escadas escuras, encostei-me no corrimão e estava melado, limpei na blusa e continuei subindo com as mãos no bolso. Ao fundo tocava jazz, o saxofone não perdoava, entupia nossos ouvidos de melodias fortes e drásticas, a vida pode ser muito pior do que imaginamos. Gritos aos berros se misturavam com os alardes musicais. Um feixe avermelhado de luz tocava a porta aberta no final do corredor. Bati na porta entrando. O quarto era minúsculo, luzes vermelhas bem fracas iluminavam a cama desarrumada e o espelho trincado na parede e no teto. Lá estava Sheyla, deitada transversalmente na cama, com o corpo esticado, cabeça caída sobre a beira da cama, cotovelos pousados e colados na cintura, e uma perna dobrada para cima, a mesma do pé descalço. Ela fumava um longo cigarro com filtro, soltava lentamente a fumaça, e a neblina cobria todo o teto e manchava o espelho trincado. Ajoelhei-me e calcei seu pé descalço.

– Te encontrei Cinderela.

– Não esperava por nenhum príncipe.

Aquele dia não me custou nada, e no mundo ainda existiam as gentilezas.

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