OLHA O AVIAOZINHO* / A ROMANA E/OU TE AMO ALBERTO MORAVIA

OLHA O AVIAOZINHO*

Quando telefona, lá de Juazeiro, minha mãe sempre pergunta se já comi e o que comi, velho hábito do atento coração materno. Já tomou muitos sustos, acostumada que é ao seu mundo onde reina a gastronomia da sustança, onde os homens, fome histórica nos olhos, não têm medo do colesterol nem das artes finais da velha da foice.

Desta vez, porém, além do susto de sempre, ela divertiu-se aos montes. “Uma colherinha de peixe robalo com grapefruit ao molho de grapefruit, azeite e flocos de ouro”, dei o serviço do “ont the spoon”, uma das atrações do Mosaic. “Uma delícia, mãe”, provoquei, afrescalhado. “Tô te estranhando, menino, tu criado na carne de peba, tatu, cuscuz de milho e bode!”, disse o mesmo gracejo de sempre. “Sei não, hein, se teu pai souber tu nunca mais pisa por aqui”.

Mas depois rolou outra colherinha: “Tempura de camarãozinho ao molho de maionese picante e caviar”. Assim uma vida no diminutivo, mas que passou no crivo da minha apurada fisiologia do gosto. As colherinhas, aliás, já que botamos a maternidade no meio, lembram aquele sublime momento infantil em que a mãe diz “olhe o aviãozinho” e tenta alimentar o filho querido. A terceira, bônus-track de Shin Koike, o chef: “sashimi de wagyu com figo ao molho panzu e pasta de gergelim”.

Se a melhor maneira de descobrir as boas inclinações morais de um sujeito é pela delicadeza do palato, como pregava o gorducho Balzac, eu estava me consagrando ali no Mosaic. Com o “kobe beef”, então, fui às alturas. É carne de uma vaca toda metida, que se alimenta de cerveja e cereais finos, além de receber massagens no corpo, como a mais merecida das moças. Daí a maciez das suas fibras. “Na próxima encarnação eu quero ser uma vaca dessas, isso é que é vida”, diz Lourenço, garçom pernambucano da casa.

De agrado e agrado, nem precisei passar na bisteca do “Sujinho” na volta, como tinha brincado com a editora desta revista. Ótima viagem gastronômica _se minha mãe lê uma frescura dessas!_ para levar uma gazela, ali nos primeiros dias de romance, para brincar de “olhe o aviãozinho”… e vê-la, olhinhos bem fechados, bonequinha de luxo com flocos de ouro nos lábios.

[*publicado neste domingo na revista da Folha, que circula apenas em SP]

A ROMANA E/OU TE AMO ALBERTO MORAVIA

a gente é tão doido, e doído com acento agudo e tudo por uma pessoa, q a gente não sabe que pode chegar outra/o  um dia. e sempre chega. donde encosta a romana. a ruiva. tão de outrora, deus mio, aquela que eu havia conhecido dum simpósio da unesco, cinco, seis anos atrás. quase a adriana do romance de moravia, de tão puta, pois.

eis q a moiçola, agora na flor dos 30, ou quase, volta a são paulo, para uma felicidade tão rara. como pode fazer um homem velho tão feliz, mesmo tão rápido. doido era aquele avião partindo e ela chorando por nós dois, italiana, caralho, não suporto despedidas… aquelas botas, tão crepax, tão valentina, tão pendor milanesa, e as nossas fodas em espanhol caricato, tão gozadas e lindas, onomatopéias e babéis imperfeitas…

thanks por fazer esquecer romances d´outrora, linda romana, jogo-lhe todas as moedas em tuas fontanas, como pode querer tanto um feio se és a mais bela?, a mais bela de todas???

donde ela diz, graciosa, que voltou ao priapismo da velha Roma, que o mundo moderno a desacostumou com essas coisas…

mas os aviões, o aeroporto, transformam qualquer ensaio de amor no amor mais foda, o amor a jato a atingir as nuvens, o boeing, algodão de céus,  o calor das despedidas que viram chuvas…

xico sá

Texto publicado em: 15/05/2005

Pelo: Blog Uol / O Carapuceiro

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