A última carta para Ronaldo -ou Balada número 9

Ter uma crônica lembrada pela minha pequena legião de leitores é uma glória. Ter alguns textos, por motivos extraordinários, reproduzidos e espalhados na rede é um prazer, um gozo. Hoje me pedem, e são comoventes as solicitações, para que eu republique uma das cartas que fiz para o Ronaldo, o Fenômeno, que se despede do futebol.

A missiva saiu na versão impressa da Folha, em feveiro deste ano, quando R9 anunciou que penduraria as chuteiras para entar de sola na vida. Aí está, para quem pediu de novo, aí está, para quem só vê agora. Sim, na foto acima este assombroso caballero exibe o seu vasto bigode de zagueiro mexicano.

* * *

AMIGO TORCEDOR, amigo secador, como em outras ocasiões, por meio de cartas, aconselhei Ronaldo a largar o sacrifício e viver hedonisticamente sem a patrulha da massa ou dos cavalheiros das mesas-redondas, não poderia me furtar agora de refletir com o Fenômeno sobre a vida depois do futiba -a primeira morte de um boleiro, segundo o Falcão, outro craque.

Existe vida, sim, mas não onde tu imaginas, garoto, não do lado de um morto-vivo como o faraó da CBF, de quem tanto falaste e ao lado de quem já estavas na foto seguinte ao belo e honrado adeus. Corta, no teu bonito filme, do choro sincero, ao lado dos filhos, para teu olhar aflito entre sanguessugas do poder da bola e da política.

Essa sequência de imagens, por mais digna que seja a causa paulistana de defesa da Copa, diz tudo. E nela não há Eros, só Thanatos, o deus mitológico da morte. Só Eros salva, amigo, e este tu bem conheces, e tanto que soubeste tê-lo no altar durante a vida no futebol, ali bem pertinho, grudado aos troféus de tri melhor do mundo.

Não abandones, rapaz, quem sempre esteve ao teu lado. Não sejas mal-agradecido. Não é hora de posar de bom-moço entre autoridades suspeitas e eventuais representantes da Opus Dei. Eros castiga os que o traem logo no dia seguinte.

Bem sei, como homem muitas vezes paralisado pelos zagueiros cristãos da culpa, aqueles brucutus que te humilham na inércia da ressaca, que a gente teme a infinita liberdade da festa. Ainda mais agora, que não terás pela frente nem os melhores beques do mundo, muito menos os fantasmas do Tolima.

Não é, porém, o outro lado da vida, o mais careta e desonesto, que vai te segurar no papel de bom- -moço. Mais honrado é um cara, a exemplo do que às vezes, consciente ou inconscientemente, fizeste, que mal sabe onde colocar o desejo, como naquele episódio da Praça do Ó e do motel Papillon, na pecaminosa e iluminada cidade do Rio de Janeiro.

Há muita vida depois da primeira morte. Que não te entregues ao Thanatos dos poderosos ou da playboizada. Que te recordes sempre que já foi do Corinthians, eis um diploma que anistia os pecados dos mortais comuns quando a velha fatal da foice, a súbita e inegociável, bate à nossa porta.

Que a tua ilusão entre em campo no estádio vazio, como o gênio Moacyr Franco cantou para Garrincha na Balada Número 7, e que a rede ainda balance seu último gol -arrepiantes versos do compositor Alberto Luiz. Boa segunda vida, amigo.

Texto publicado em: 07/06/2011

Pelo: Blog Uol/ Folha de São Paulo

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