Conto de natal

Meus primos já não acreditavam em Papai Noel havia muito tempo. A Barbara, minha irmã mais nova, já não acreditava em Papai Noel havia muito tempo. Eu era o último beato: era pra mim que continuavam a encenação. E que encenação.

Como o Natal era sempre na fazenda, meu avô aparecia em cima de um trenó puxado por uma rena. Era tipo Disney, só que mais real.

Pros meus amigos descrentes, eu dizia: “Vocês só conhecem aquele Papai Noel do shopping. É claro que aquele não existe. O que vai lá em casa é especial. Ou você acha que é qualquer velhinho que tem um trenó puxado por uma rena?”.

Já devia ter uns sete anos de idade quando percebi que tinha alguma coisa errada. Peraí. Esse trenó é uma carroça. Essa rena é um jumento. E esse Papai Noel tem os olhos do meu avô, a voz do meu avô e os dois nunca estão no mesmo lugar ao mesmo tempo. A verdade começou a ecoar como num filme: o Papai Noel é o seu avô. O seu avô é o Papai Noel. Luke, I am your father. Balbuciei: “Vovô?”. Ele tossiu. Cobriu os olhos. Ô-ôu.

Olhei em volta e vi que todos estavam prendendo o riso, inclusive a minha irmã mais nova. Todos sabiam de tudo. E o pior: todos sabiam que eu não sabia.

Fui correndo pro banheiro e vomitei a ceia de uma vez só. Na boca, o gosto azedo de decepção, desespero e chester com farofa de ameixa.

“Se o Papai Noel não existe, o que é que existe, então? Por que é que a Barbara não me contou que ele não existe? Será que isso quer dizer que sou mais burro que ela?”

Chorei por horas e nunca mais acreditei em nada: Papai Noel, coelhinho da Páscoa, fada do dente, Deus, o Espírito Santo, homeopatia e relacionamento aberto.

Quando via um quadro de Jesus, eu tinha vontade de puxar a barba postiça. Tadinho do vovô, acha que me engana.

*

Meu primo Santiago (filho dos meus primos) tem três anos de idade. Perguntaram o que é que ele ia pedir ao Papai Noel. Ele disse que não queria nada. Explicaram que o Papai Noel podia conseguir qualquer coisa que ele quisesse. Era só pedir.

Seus olhos brilharam, fascinados com tanto poder. E disse: “Então pede pra ele um empadão”.

E de repente o Natal voltou a fazer sentido. E meu avô, depois de 20 anos de férias, vai voltar a desempenhar seu papel. Acho que meu ceticismo não resiste a uma aparição na carroça, trazendo um empadão.

Texto publicado em: 23/12/2013

Pelo: Blog Uol/ Folha de São Paulo

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